User Tools

Site Tools


islamismo:corbin:sohravardi:ae:sussurro-das-asas-de-gabriel

SUSSURRO DAS ASAS DE GABRIEL

HCAE

O Relato do Sussurro das Asas de Gabriel — Apresentação e Contexto

O “Relato do Sussurro das Asas de Gabriel” forma o segundo ato da “encontro com o Anjo” e, como o relato precedente, constitui uma iniciação dispensada pelo Anjo — revelação dos mundos superiores e do itinerário espiritual a seguir para se tornar presente a esses mundos.

  • O texto foi objeto de publicação anterior, acompanhado de um antigo comentário anônimo também em persa, com primeira tradução integral de ambos feita em colaboração com Paul Kraus.
  • No “Relato do Arcanjo Empurpurado” e no presente, o “encontro com o Anjo” se produz logo no início; no “Relato do exílio ocidental” que se seguirá, o encontro se produzirá ao término do relato, como final do “terceiro ato”.
  • A figura central é o Anjo-Espírito Santo, Anjo da raça humana (o Anthropos celestial), que os filósofos designam como Inteligência agente — figura cuja importância tanto para a filosofia quanto para a doutrina espiritual de Sohravardi os tratados precedentes já demonstraram.
  • O comentário do presente relato preferiu uma síntese das indicações a reter, parafraseando e desenvolvendo as sugestões das outras obras de Sohravardi, em lugar de reproduzir pura e simplesmente o sistema de equivalências abstratas do comentário anônimo.

O Papel do Anjo-Espírito Santo e a Questão Angelológica

O papel do Anjo-Espírito Santo, “Arcanjo Empurpurado”, se compreende essencialmente no interior de uma cultura espiritual onde ele aparece como sendo ao mesmo tempo o Anjo inspirador dos profetas e iluminador dos filósofos.

  • Ele é para os ishraqiyun o que o Imam é para os gnósticos xiitas — daí os frequentes recalls da cristologia.
  • Por ele os filósofos são conduzidos ao termo da sabedoria divina integral, a theosophia que Sohravardi concebe como conjungindo uma perfeita cognição filosófica e uma real experiência mística.
  • Haveria uma pesquisa angelológica inteira a prosseguir concernente à pessoa e ao papel do Anjo Gabriel em profetologia e em filosofia, incluindo os modos de aparição do Anjo e o “estilo” de suas angélofanias — objeto de uma descrição fenomenológica tão completa quanto possível quanto às “intencionalidades” correlativas desses modos de aparição.
  • O Anjo aparecia ao profeta do Islã mais frequentemente sob a forma do belo adolescente árabe Dahya al-Kalbi, sem que os companheiros do Profeta fossem advertidos da aparição.
  • Em Sohravardi, o estilo das epifanias do Anjo é extremamente sóbrio, quase austero: nos três atos do “encontro com o Anjo”, ele aparece sob os traços de um Sábio de eterna juventude, cuja cabeleira branca apenas anuncia sua pertença ao mundo da Luz.
  • Esse estilo contrasta com a emotividade das descrições visionárias do “Diarium spirituale” de Ruzbehan Baqli Shirazi (606/1209), onde Gabriel aparece: “semelhante a uma noiva, parecido com a Lua entre as estrelas; sua cabeleira era como a das mulheres, disposta em tranças muito longas. Ele usava um manto vermelho com bordados verdes” — e ainda: “Entre eles havia Gabriel, e ele é o mais belo dos Anjos. Os rostos deles eram como a rosa vermelha.”
  • Ruzbehan fala ainda da “asa de Gabriel que é a alma”.

Os Dez Temas do Discurso de Iniciação

O relato é ao mesmo tempo visionário e iniciático, pois o personagem sobrenatural assume do início ao fim o papel de iniciador a uma doutrina; dez temas compõem o discurso de iniciação.

  • A saída durante a noite é simultaneamente uma entrada no khangah — palavra que designa correntemente uma loja de sufis, mas que aqui designa o homem interior, o “templo” interior onde se produz o encontro com o Anjo; esse khangah interior tem duas portas: uma dando sobre o mundo espiritual e outra sobre o mundo das coisas sensíveis.
  • O tema de Na-koja-abad, o “país do não-onde”, de onde vem o Anjo (em Avicena ele vem do “Templo”, Bayt al-Maqdis): o Anjo que aparece nesse limite é o hermeneuta do Silêncio dos mundos superiores, tipificados nas Inteligências hierárquicas designadas como os Verbos divinos cujo sentido ainda não foi revelado aos homens.
  • A passagem dos céus da astronomia física (tipificados no recipiente de onze compartimentos) aos céus espirituais pela via do khangah como cidade interior pessoal — as relações expressas no léxico sufi em termos de companheirismo.
  • Iniciação à segunda hierarquia angélica: a maneira como as Animae caelestes procedem respectivamente de cada Inteligência, e como as almas humanas procedem da Décima — Gabriel, Inteligência agente e Anjo da humanidade, “pai” das almas.
  • Iniciação à maneira pela qual o Anjo vem a estar presente no khangah do visionário, isto é, no ser interior do homem, seguida de uma alusão ao significado da ciência da costura.
  • Iniciação à “ciência das letras” ('ilm al-horuf) — o alfabeto ou álgebra filosófica praticada pelos cabalistas das três grandes “comunidades do Livro” —, que, ao se exercer sobre o Verbo divino fixado na letra do Livro revelado, orienta o diálogo para o conceito e a gênese dos Verbos divinos.
  • Iniciação à doutrina dos Verbos divinos em toda sua amplitude — as três categorias de Verbos (maiores, medianos, menores): a noção de Verbo como pivô da identificação entre a Inteligência (o Nous) e o Espírito motiva um recall da cristologia angelomórfica já indicada nos tratados precedentes, o que conduz o visionário a colocar a questão decisiva sobre o ser do Anjo-Espírito Santo.
  • A resposta é dada na explicação do simbolismo das duas asas de Gabriel — a asa direita, que é a asa de luz, e a asa esquerda, que é a asa entenebrada: as almas humanas procedem da primeira; o mundo da ilusão procede da segunda — assumindo o décimo Anjo aqui o mesmo papel que o Adão espiritual (o Anthropos celestial) na gnose ismaelita.
  • As cidades do mundo da ilusão são “ceifadas”; o Verbo menor (a alma humana pensante) permanece, como todos os Verbos de Deus.
  • O encerramento do relato se anuncia com o raiar do dia profano: a porta do khangah dando sobre o mundo espiritual é fechada, abre-se de novo a porta dando sobre a cidade deste mundo — e o autor permanece inconsolável pelo desaparecimento de sua visão.
islamismo/corbin/sohravardi/ae/sussurro-das-asas-de-gabriel.txt · Last modified: by 127.0.0.1