EXTRATOS
Longe do objeto amado.
Ó vento! Se te acontecer passar pela margem do rio Araxes, beija o solo do vale e perfuma com ele o teu sopro. Os lugares onde Selma se deteve — que a todo instante, de nossa parte, cem saudações se elevem até ela! — tu os encontrarás cheios do rumor dos condutores de caravanas e do tilintar das campainhas. A liteira de minha amiga, beija-a! Depois, gemendo, apresenta-lhe esta mensagem: «Consumo-me em tua ausência; terna beleza, vem em meu auxílio; nos discursos dos conselheiros não vi senão um ar de música; estou aflito pela ausência; apenas isto me serve de lição»… Uma intriga amorosa, ó coração, não é um simples divertimento; joga a tua vida! Não se pode golpear com o malho do desejo a bola que é o amor puro. Meu coração renuncia à existência, com zelo, se sua amiga lhe lança um olhar lânguido, embora os sábios não renunciem por ninguém ao seu livre-arbítrio. Outros, semelhantes a papagaios num campo de cana-de-açúcar, vivem ao sabor de seus desejos, enquanto, suspirando de pesar, miserável mosca, bato com minhas próprias mãos a minha cabeça. Mas, se meu nome vier à ponta da pena de minha amiga, isso é tudo o que peço à Majestade suprema.
Perdi meu coração.
Muçulmanos! Outrora possuía um coração; falava com ele quando tinha uma aflição. Quando caía num turbilhão de tristeza, esse coração me permitia esperar a margem. Coração compassivo, amigo de minha tranquilidade, que servia de refúgio a todo homem de coração. Na rua do objeto amado, perdi-o… Ó Senhor! que lugar tão cativante! A virtude não vai sem desapontamento; mas que suplicante foi mais frustrado do que eu? Tende compaixão de minha alma perturbada: ela outrora era perfeitamente lúcida. Desde que o amor me ensinou a exprimir-me em versos, meu caso constitui o encanto de toda reunião. Não se diga mais que Hâfiz é um homem sutil: vê-se que ele é ignorante consumado.
O abandonado.
Ela retomou seu coração e ocultou seu rosto. Ó Deus! com quem então se pode jogar este jogo? Quando a alma aspirava à noite solitária, sua visão trouxe graças infinitas. Por que então não se possui o coração ensanguentado como a tulipa, quando, com seu olhar semelhante ao narciso, ela entristeceu? Ó dor ardente! como dizer que o médico celeste curou a pobre alma? Consumiu como uma vela, de tal modo que a garrafa de longo gargalo chorou e o alaúde gemeu, compadecido. Ó vento! eis o tempo, se algum remédio se conhece, pois o mal do desejo ameaçou a vida. Como confessar, no meio de seres ternos: «Minha amiga diz isto, mas fez aquilo»? O inimigo não causou à vida de Hâfiz o que causou a seta lançada por esse olhar sobre o qual a sobrancelha se curva como um arco.
A rosa e o rouxinol.
Logo ao amanhecer foi-se ao jardim para colher a rosa; subitamente a voz do rouxinol chegou aos ouvidos. O pobre sofre, como aquele que ama a rosa, e espalha pela pradaria o rumor de suas queixas. Percorria-se incessantemente o jardim e a relva; esse rouxinol e essa rosa ocupavam o pensamento: a rosa é amiga do espinho, e o rouxinol a ama; um não recebe favor algum, o outro não muda. O canto do rouxinol provou de tal modo o coração que não restou força para escutá-lo ainda. Muitas rosas floresceram nesse jardim: ninguém pôde colher uma sequer sem sofrer com os espinhos. Hâfiz! não se espere prazer algum do movimento celeste, pois nele se veem mil defeitos e nenhuma bondade.
Solidão.
Tu, que estás longe do olhar, és confiado a Deus; a alma foi queimada, contudo és amado de todo o coração. Enquanto não se arrastar a orla do sudário sob a terra, não se retirará a mão da orla de tua veste. Mostra o recanto sagrado de tua sobrancelha: ao romper do dia, estender-se-ão os braços para orar e para lançar-se ao teu pescoço… Deseja-se morrer em tua presença, ó médico pérfido! Permanece-se à espera; pergunta-se, pois, pelo teu enfermo. Dos olhos fizeram-se correr sobre o peito cem rios de lágrimas, pensando nas sementes de amor que se semearão em teu coração. O objeto amado derramou o sangue, salvando do desgosto do amor; rende-se graças ao teu olhar penetrante como punhal. Em lágrimas, deseja-se, quando elas correm em torrentes, poder semear no coração o grão do amor. Recebe com generosidade, para que, no ardor do coração, dos olhos caiam a teus pés pérolas incessantes. Hâfiz! néctar, objeto amado, devassidão não são tua natureza; a tudo isso se entregou, e, contudo, concede-se o perdão.
Invocação.
Tu és como a manhã. Eu sou como uma lâmpada, ao amanhecer, numa câmara solitária. Digna-te sorrir, e vê como se entrega a vida. Teus cabelos em desordem incendiaram o coração, de tal modo que o túmulo seria um leito de violetas. Permanece-se, olhos abertos, no limiar do desejo, aguardando um olhar; mas houve retraimento. Rende-se graças! Que Deus proteja! Ó mãe das tristezas! no dia em que se permanece só, não se afasta do pensamento. Da pupila do olhar faz-se escravo: embora seu coração seja muito negro, faz chover mil lágrimas quando se contam as dores. A ídola revela-se a todos os olhares; contudo ninguém percebe esse sinal que apenas um olhar sabe discernir. Se, sobre a tumba de Hâfiz, a bem-amada passasse como o vento, dilacerar-se-ia o sudário, por força do desejo, na estreita sepultura.
Felicidade.
Passaram os dias e as noites durante os quais se esteve muito longe do objeto amado. Consultou-se o destino, e o astro favorável se manifestou; agora a provação chegou ao fim. Toda a graça e todos os prazeres do outono são esquecidos ao sopro da primavera. Louvado seja Deus! logo a rosa florescerá: cessaram o vento altivo de dezembro e os espinhos. Na aurora da esperança recolhida sob o véu, diz-se: «Descobre-te! a noite sombria terminou». A tristeza das noites intermináveis, o desgosto do coração, tudo isso se extingue, pois encontrou-se a sombra, ó cachos da amada! Não há mais razão para crer nas perfídias dos dias: à separação sucede a união. Escanção! houve bom tratamento. Encha-se de vinho a taça, pois, graças a tais favores, cessou a perturbação do spleen. Ainda que Hâfiz não conte para ninguém, rende-se graças, pois a provação, sem número nem limite, terminou.
Inconstância deste mundo.
Não se dê o coração a este mundo nem a seus bens: de sua fidelidade nada jamais se viu; ninguém provou seu mel sem sofrer sua picada; e ninguém, neste pomar, colheu tâmaras sem sofrer os espinhos; e toda chama acesa por este mundo foi apagada pelo vento tão logo brilhou. Aquele que, despreocupado, deu seu coração ao mundo nutriu seu inimigo. O rei vitorioso, conquistador do mundo, o príncipe cujo sabre estava todo tingido de sangue, ora destruía um exército de um só golpe, ora, com um grito, rompia seu centro; e, por temor dele, o leão retraía as garras ao ouvir seu nome no deserto; sem motivo, aprisionava senhores e decapitava impunemente os valentes; enfim, conquistou Chiraz, Tabriz e o Irã, mas seu termo chegou; e o destino queimou, com ferro em brasa, os olhos que abarcavam o universo, os olhos do rei por quem o mundo via com clareza.
Brevidade da vida.
O sopro do vento matinal difundirá novamente seu perfume; o velho mundo reencontrará, uma vez mais, a juventude. Ao jasmim, a árvore da Judeia prepara-se para oferecer sua taça vermelha como a cornalina; e de novo o olhar do narciso se voltará para a anêmona; o rouxinol lamentará diante da tenda da rosa a servidão sofrida na tristeza da ausência. Se se abandona a mesquita para ir às tabernas, não se faça reprovação: se o sermão parece longo, o tempo da vida é breve. Se se adia para amanhã o prazer de hoje, quem pode assegurar sua permanência? A rosa é preciosa; aproveite-se sua presença, pois deixará o jardim tão rapidamente quanto veio. Os amigos reuniram-se; canta, ó menestrel! Quantas vezes se dirá: «Assim como o tempo passado, também o presente passará»? Foi para ti que Hâfiz veio ao domínio da vida; dá um passo para despedir-te, pois em breve desaparecerá.
Carpe diem.
Que há de melhor que o prazer: jardim, primavera e doce convivência? Onde está o escanção? Por que demora? Dize-o. Dos bons momentos concedidos pela fortuna, deve-se tirar proveito, pois ninguém conhece o fim das coisas. Permanece-se vigilante: a existência está suspensa por um fio. Consola-te a ti mesmo: por que se entristece o destino? Que são a água da juventude e o jardim do paraíso senão a margem de um regato e o vinho que se bebe com facilidade? O céu conhece o segredo velado? Cala-te, ó buscador! por que discutir com aquele que guarda o véu? Se Deus não considerasse os erros e faltas, que significariam então o perdão e a misericórdia? O devoto busca o néctar do Éden; Hâfiz, uma taça: a qual dos dois o Criador dará preferência?
Embriaguez.
Beija-se seu lábio e bebe-se o vinho; descobre-se assim a fonte da vida. Dela não se pode queixar a ninguém, nem ver alguém com ela. Enquanto ela bebe o sangue da vinha, a taça beija seu lábio; e a rosa, confusa, cora ao ver seu rosto. Dá de beber! e não se fale mais do rei Djemchîd: quem sabe quando viveu, ele e os Kayanidas? Ó belo músico! toca a harpa e faz gemer ao friccionar as cordas. A rosa, saindo de sua solidão, veio instalar seu trono no jardim; dobra-se, então, o tapete da temperança, tão apertado quanto um botão de flor. Não se deixe o ébrio lânguido como o olhar do objeto amado; para lhe recordar o lábio vermelho, verte-lhe vinho ainda, ó escanção! A alma não aspira de modo algum a separar-se do corpo da amada: em todo o corpo — veias e nervos — insinuou-se o vinho de sua taça. Hâfiz! cala por um momento; a flauta falará por aqueles que não falam.
Agora é tempo de beber.
O jejum terminou; a festa chegou; os corações agitam-se; o vinho ferve na taberna; convém pedi-lo. Terminou o tempo dos mercadores de abstinência; é o momento de regozijo para os libertinos. Por que censurar aquele que bebeu vinho? Que erro cometeu? Aquele que bebe sem dissimulação é melhor que o abstinente hipócrita. Vive-se sem ocultação: aquele que conhece todos os segredos é testemunha. Para com Deus cumprem-se deveres sem prejudicar ninguém; e, se se diz: «É proibido», declara-se: «É proibido». Que mal há em esvaziar algumas taças? O vinho é o sangue da uva, não o sangue humano. Não se trata de pecado que cause dano. E, mesmo que fosse, onde estão os homens sem defeito? Hâfiz! renuncia a sondar o mistério… bebe o vinho, isso basta. Diante das ordens do Senhor, pode-se dizer: «Como? Por quê?»
Devaneio noturno.
Viu-se o céu como um campo verdejante e a foice dourada da lua nova. Recordou-se o que foi semeado; eis chegado o tempo da colheita. Disse-se: «Dormes, ó felicidade! e o sol se levanta.» — «Não desesperes do destino», respondeu ela. Se se ascende puro e solitário ao céu como Jesus, da lâmpada subirão ao sol cem raios. Não se confie no astro noturno: esse enganador retirou a tiara e o cinturão aos reis dos reis. Ouro e rubis pendem das orelhas, mas a beleza passa rapidamente; escuta-se o conselho. Afaste-se o mau-olhado do sinal de beleza que supera em brilho o sol e a lua. Dize ao céu: «Não vendas tua grandeza, pois teus astros são grãos de cevada diante do Amor.» No fogo da hipocrisia, a colheita da fé será queimada. Hâfiz! abandona o hábito de lã.
O amor místico.
Ó tu que ignoras o Amor, esforça-te por conhecê-lo; enquanto não se percorre o caminho, como tornar-se guia? Na escola da verdade, junto ao mestre do Amor, faz-se esforço para tornar-se mestre. Seguindo o exemplo dos místicos, despreza-se a existência que não vale mais que o cobre; assim se encontrará o Amor, pedra filosofal, pela qual se será transmutado em ouro. O alimento e o sono colocaram abaixo de si mesmo; apenas ao abandoná-los se retorna a si mesmo. Se o fogo do amor divino cair no coração e na alma, resplandecer-se-á mais que o sol no firmamento. Mergulhado no oceano divino, não se pense sequer em molhar um só cabelo nos oceanos deste mundo. Tornar-se-á, da cabeça aos pés, banhado de luz divina, seguindo, com renúncia ao mundo, o caminho da grandeza. E, se então o olhar se fixa na face de Deus, não restará dúvida: ter-se-á alcançado a perfeição mística. Se os fundamentos da vida material forem derrubados, nada restará no coração que possa perturbar. Mas, se houver desejo de unir-se a Deus, ó Hâfiz!, será necessário tornar-se pó ao limiar daqueles que possuem a ciência das realidades sublimes.
