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CONDIÇÃO HUMANA

Ibn Arabi, William Chittick

A abordagem de Ibn ‘Arabi sobre o tempo e o espaço

Ibn ‘Arabi discute tempo e espaço mantendo em vista suas raízes divinas, pois eles são sinais que fornecem lembranças para a alma humana em seu devir.

  • O objetivo é compreender o haqq do tempo e do espaço, o que tem relevância direta para a tarefa de alcançar a realização (tahqiq).
  • Ibn ‘Arabi é mais precisamente chamado de “realizador”, pois ele e seus seguidores usam o termo “realização” para especificar sua própria posição intelectual.
  • O haqq designa tanto a realidade objetiva de uma coisa quanto as responsabilidades do sujeito que a encontra.
  • “Nosso Senhor é Aquele que deu a cada coisa sua criação, então guiou” (Q. 20:50).
  • Os seres humanos possuem uma situação peculiar porque foram criados na forma de Deus, possuindo uma certa liberdade de atividade derivada do traço divino de “fazer o que Ele deseja” (Q. 2:253).
  • Dar às coisas seus haqqs é, antes de tudo, compreendê-las em relação a Deus.
  • Verificar e realizar algo é primeiramente ver como isso exibe os sinais de Deus, com o objetivo de ver “o rosto de Deus” que é encontrado “onde quer que você se vire” (Q. 2:115).
  • Ibn ‘Arabi tipicamente fala de tempo (zaman) e espaço (makan) como “relações” (nisab), contrastando-os com entidades (coisas reais).
  • Relações per se não existem; tempo e espaço são dois conceitos abstratos que não designam nada no universo objetivo.

Localização

A palavra makan significa literalmente “lugar do ser”, designando a localização específica dentro da matriz do Sopro do Misericordioso na qual uma coisa vem a existir depois que Deus profere o comando gerador “Sê!”.

  • O padrão gramatical de makan é um “nome de lugar” (ism makan).
  • A raiz de makan é kawn (“ser”), uma palavra que se aplica a todas as coisas criadas, mas não ao incriado.
  • Makan é tipicamente usado para coisas encontradas no mundo corpóreo.
  • Kawn é o ser que é adquirido pelas coisas quando Deus as traz à existência.
  • O cosmos como um todo é chamado al-kawn (“o (reino do) ser”).

Tempo

A palavra zaman designa mudança e movimento no reino do ser, referindo-se a relações cambiantes na aparência do cosmos.

  • O ser do cosmos nunca pode ser fixo e estável, pois permanência e estabilidade são atributos do Real, não da criação.
  • “Tempo” é um nome dado ao padrão de mudanças contínuas que ocorrem na face do cosmos.
  • Tanto o tempo quanto o lugar são exigidos pelo reino de kawn wa fasad (“ser e corrupção” ou “geração e corrupção”).
  • Deus não é tocado pelo tempo, assim como não é tocado pelo lugar (eterno – qadim, sarmadi).

Eternidade

Ibn ‘Arabi aborda a relação entre eternidade e tempo em termos da palavra dahr (“Éon”), que é um nome de Deus.

  • O Éon é o nome de Deus na medida em que Ele dá origem às condições cambiantes do universo (o fluxo de eventos chamado tempo).
  • O Alcorão menciona “os Dias de Deus” (Q. 14:5), que prefiguram a diferenciação temporal no Conhecimento Divino e dão origem aos ciclos temporais do mundo.
  • Deus tem dias de diferentes durações relacionados a vários nomes: um dia de cinquenta mil anos (relacionado ao nome “Possuidor das Escadas” – Q. 70:3-4) e um dia de mil anos (relacionado ao nome “Senhor” – Q. 32:5).
  • O mais abrangente dos Dias de Deus é o “Dia da Essência”, referido no versículo “Cada dia Ele está sobre alguma tarefa” (Q. 55:29).
  • Do ponto de vista humano, o Dia da Essência é o mais curto (um instante, o momento presente), mas dura para sempre, pois nunca se sai da Presença Divina.
  • “O Éon não é nada além do dia e da noite” (F. IV 87.18), pois as propriedades e traços dos Dias de Deus mudam constantemente entre manifestação e ocultação.
  • “Glória Àquele que Se vela através de Sua manifestação e Se manifesta através de Seu véu!” (F. III 547.12).

Transformação constante

A característica específica do nome divino Éon é tahawwul (mudança e transformação constantes), trazendo a transformação incessante do universo.

  • Os sinais de Deus nunca se repetem, seja no tempo ou no lugar: “Não há repetição na Automanifestação.”
  • Nada é jamais o mesmo que qualquer outra coisa, e nenhum momento de qualquer coisa pode ser repetido.
  • Toda criatura em cada momento tem um haqq único, e o objetivo da realização é perceber e agir sobre todos esses haqqs instantâneos e nunca repetidos.
  • Deus conhece todas as coisas por toda a eternidade: “Não cai uma folha senão que Ele a conhece” (Q. 6:59).
  • Todas as coisas são permanentes no conhecimento de Deus (entidades fixas), mas tudo no reino do ser e da corrupção experimenta o tempo.

Ética

A perspectiva do tahqiq exige uma posição radicalmente diferente do pensamento moderno, que investiga objetos, relações e conceitos, mas os despoja de seus haqqs.

  • No pensamento moderno, a questão da atividade correta é relegada às crenças e opiniões do observador humano, atribuída ao lado do sujeito e negada do lado do objeto.
  • “Conhecimento objetivo” é tido como livre de valores, mas, do ponto de vista do tahqiq, falar nesses termos abusa das palavras “sujeito” e “objeto”.
  • Se a palavra “objetivo” deve ter qualquer significado real, deve designar conhecimento enraizado na realidade real das coisas, incompreensível sem o conhecimento da Realidade Última (o Haqq Único).
  • No Wujud Real, sujeito e objeto convergem: Deus é Conhecedor (raiz de toda subjetividade) e é seu próprio objeto de conhecimento (raiz de toda objetividade).
  • Discernir o haqq das coisas é encontrar suas realidades objetivas e agir de acordo com as demandas que essas realidades fazem sobre o sujeito.
  • O pensamento moderno não tem acesso aos haqqs das coisas, então a ética é tipicamente discutida em termos de interesse próprio e estabilidade social, mas sem o conhecimento do haqq do si mesmo humano, o haqq da sociedade não pode ser conhecido.
  • A ciência moderna é fundamentalmente falha e em última análise batil (irreal, vã, nula, vazia), pois ignora os haqqs das coisas e não pode não ignorá-los.
  • A pesquisa científica é, por definição, separada de qualquer coisa além do reino do “ser e corrupção” (o reino do tempo e do espaço) e deixa de fora o “sujeito”.
  • As metodologias críticas atuais nunca podem reconhecer que pessoas (muito menos animais, plantas e objetos inanimados) têm haqqs que pertencem à própria substância da realidade.
  • Do ponto de vista de Ibn ‘Arabi, o pensamento moderno é o estudo das ondas do oceano e a rejeição simultânea da realidade do oceano.
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