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ASCENSÃO

MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.

A Viagem Espiritual no Islam

O muçulmano é, acima de tudo, um viajante; o Islam é uma jornada que conduz de Deus ao homem, pela revelação, e do homem a Deus, graças ao despertar e ao pleno desenvolvimento do potencial interior que cada indivíduo possui.

  • A terminologia do sufismo está repleta de termos que aludem à circunstância da viagem; o caminho que conduz à realidade última é chamado de estrada (tariqa) e várias vezes ao dia, durante suas orações, o crente pede ser guiado na reta via (al-sirat al-mustaqim)
  • Existem diferentes tipos de jornadas religiosas: peregrinações a lugares sagrados, errâncias por lugares remotos e desabitados, visitas a mestres e túmulos de santos, e a jornada interior que se realiza na solidão, sem mover-se fisicamente, pela oração e pela lembrança, até chegar a um lugar onde se perdem todos os pontos de referência e se esquece até o próprio nome
  • Ibn Arabi afirma que tudo o que existe — com exceção da face não-manifesta ou interior de Deus — está imerso numa viagem infinita: “A origem da existência é o movimento. Nela não pode haver imobilidade, porque retornaria à sua origem, que é a ausência. A viagem nunca cessa, nem no mundo superior nem no inferior”
  • O Shaykh al-Akbar agrupa todas as jornadas em três categorias: a partir dEle, em direção a Ele e nEle; a jornada a partir de Deus é o dom da existência; a jornada nEle é caracterizada pela perda e pela perplexidade; a jornada em direção a Ele é de dois tipos: “por terra e por mar” (10:22)

A Jornada Noturna e a Ascensão de Muhammad

Partindo da Mesquita Sagrada (Meca), passando pela Mesquita Mais Distante (Jerusalém) e, a partir daí, atravessando as esferas material, imaginal e espiritual da existência, a Jornada Noturna e a Ascensão conduziram Muhammad “à distância de dois arcos ou menos” da suprema fonte da existência.

  • O Alcorão menciona brevemente essa jornada metafísica: “Glória a Ele Que fez Seu servo viajar de noite, da Mesquita Sagrada até a Mesquita Mais Distante, cujas vizinhanças abençoamos, para lhe mostrar parte de Nossos sinais” (17:1)
  • A Jornada Noturna é noturna porque corre além do domínio visível das aparências; “a noite é o momento do mistério e do ocultamento […] e a mais amada pelos amantes porque é então que se unem e porque o retiro com o amado acontece à noite”; São João da Cruz ecoa: “Ó noite que uniu amante ao amado, ó noite mais clara que a aurora”
  • O profeta montou sobre uma criatura (al-buraq) de natureza extraordinária — dotada de rosto humano, maior que um asno mas menor que uma mula —, que servira de montaria para profetas anteriores; Gabriel lhe ofereceu dois recipientes — um com vinho e um com leite —, e ele escolheu o leite; Gabriel disse: “Adivinhastes bem sobre a natureza primordial”
  • Embora Deus fizesse Muhammad viajar de noite em trinta e quatro ocasiões, apenas numa delas ele fez essa jornada corporalmente; outros profetas — como Idris/Enoque, Elias ou Jesus — também subiram, tanto em corpo quanto em espírito, além do domínio da geração e da corrupção
  • Ibn Arabi proclama: “Glória a ele que fez seu servo viajar na noite / para fazê-lo ver seus sinais ocultos, / como sua presença em sua ausência, / Sua embriaguez em sua sobriedade e seu ocultamento em sua permanência”

A Jornada Noturna e a Ascensão de Ibn Arabi

A principal obra sobre a experiência pessoal de Ibn Arabi é o Livro da Jornada Noturna, escrito em Fez em abril de 1198, pouco depois de ele próprio ter vivido tal experiência; dois capítulos das Iluminações da Meca também abordam o tema — os capítulos 367 e 167.

  • O capítulo 167 compara a jornada espiritual a um processo de transformação alquímica: “Como o ouro, o ser humano é feito à imagem da perfeição, uma perfeição cujo desenvolvimento, porém, está sujeito a várias vicissitudes”
  • A Jornada Noturna envolve a dissolução da natureza composta — o que Ibn Arabi chama de natureza sublunar —; no seu curso, o viajante abandona os aspectos de sua própria constituição correspondentes aos quatro elementos tradicionais e aos quatro reinos naturais, até ser despojado de todos os seus envoltorios materiais
  • O início da peregrinação extramundana de Ibn Arabi é marcado pelo encontro com o “jovem eterno” — o orador silencioso que, graças à leitura dos mistérios tesourizados em sua própria constituição, lhe transmitirá o vasto conhecimento que ele desdobrará em sua imensa obra: “Encontrei um jovem de essência espiritual, qualidades senhoriais e inclinação angélica”
  • Quando o viajante retorna à consciência ordinária, reconstrói seu eu com uma composição diferente da que possuía inicialmente, pois tem conhecimento que não possuía antes; Michel Chodkiewicz explica que “cada veste que ele lançou durante sua ascensão é agora virada pelo avesso, como um vestido que se coloca primeiro pelas costuras da cabeça. Assim, o lado errado é agora o lado certo e o que estava oculto tornou-se visível”

As Esferas Celestes e os Profetas na Ascensão

Cada esfera celeste é governada por um profeta correspondente e transmite ao viajante ensinamentos específicos sobre a natureza da realidade divina e da criação.

  • No primeiro céu (Lua — Adão), o primeiro profeta instrui Ibn Arabi sobre os segredos da misericórdia que abarca todas as coisas e sobre a natureza transitória de qualquer sofrimento; o destino último dos seres — mesmo os mais malvados — é a felicidade, pois todos os nomes divinos são governados pelo nome do Clementíssimo
  • No segundo céu (Mercúrio — Jesus e João Batista), observa a forma como a vida se difunde em todas as coisas sem exceção; Jesus é o patrono da alquimia e integra os dois caminhos alquímicos: o aperfeiçoamento da perfeição que subjaz a qualquer condição de ser e a eliminação da imperfeição que cobre a excelência original; esse céu é também a sede da ciência da alta magia e das letras e palavras
  • No terceiro céu (Vênus — José), domínio da formação, da ornamentação e da beleza; José possui o excedente da argila da qual Adão foi criado — matéria-prima da vasta terra de Deus ou mundo imaginal; José transmite: “Não digas 'Se eu tivesse estado no lugar dessa pessoa, não teria dito o mesmo'. Não, por Deus, se o que lhe aconteceu a ela tivesse acontecido a ti, também terias dito o que ela disse, porque o estado mais poderoso da experiência direta controla o estado mais fraco”
  • No quarto céu (Sol — Idris), o conhecimento da revolução perpétua das manifestações divinas; Idris explica a Ibn Arabi que Deus sempre concorda com tudo o que se diz sobre Ele; “O erro é uma questão relativa, enquanto a verdade é o princípio imutável. Quem verdadeiramente conhece Deus e o mundo sabe que a verdade é o princípio sempre presente que nunca cessa de ser”
  • No quinto céu (Marte — Aarão), esfera do medo, da tristeza e da ira divina; Aarão adverte sobre a afirmação da realidade do cosmos contra os que sustentam que ele é completa ilusão, distinguindo a genuína doutrina da unidade do ser da chamada “unidade absoluta” (al-wahda al-mutlaqa); João Batista reaparece e declara: “Todo pessoa tem seu próprio caminho e ninguém além dele o percorre. Os diferentes caminhos surgem através da própria jornada”
  • No sexto céu (Júpiter — Moisés), esfera do “amor ciumento”; Moisés explica que as revelações divinas só ocorrem na forma das crenças e necessidades do servo; e relata seu pedido a Deus pela visão sem véus (7:143): “Não foi senão quando acordei que soube que O tinha visto. Por essa razão disse 'Retornei a Ti', pois retornei a ninguém senão a Ele”
  • No sétimo céu (Saturno — Abraão), esfera da gravidade, serenidade, estabilidade e da “armadilha divina”; aqui se levanta a Caaba celeste, protótipo da terrestre; Abraão aconselha: “Estando presente com Deus em todos os momentos, faze teu coração como esta casa”

O Cume da Ascensão e o Retorno

Além da Jujuba do Limite — que marca o fim do mundo de geração e corrupção —, o viajante percorre esferas ainda mais sutis até atingir o conhecimento supremo da realidade, para depois retornar às criaturas.

  • A Jujuba do Limite é descrita como uma grande árvore da qual brota um rio poderoso que se diversifica em três correntes — Torá, Evangelhos e Alcorão —, subdivididas em múltiplos riachos menores; cada um representa um tipo de revelação e quem beber de suas águas recebe a herança profética correspondente
  • Além do Trono, o viajante empreende uma nova etapa da ascensão que não é mais realizada com a consciência imaginal, mas é puramente inteligível; os domínios visitados são: substância universal, natureza não-composta, Tábua Preservada e Suprema Pena (Alma Universal e Primeiro Intelecto), Nuvem primordial e a presença divina do Único-Só
  • No cume da jornada, Ibn Arabi percebe-se completamente transformado em luz: “O meu eu se efetuou para mim e fez aquele sinal a chave de todo conhecimento. Soube assim que eu era a totalidade dos que me tinham sido mencionados […]. Minha jornada ocorreu apenas dentro de mim mesmo e conduziu-me apenas a mim mesmo, e por meio disso cheguei a saber que eu era um servo puro, sem o menor vestígio de soberania”
  • “O par e o ímpar se reúnem. Ele é e tu não és […]. Ele Se vê a Si mesmo através de Si mesmo” — é o que se quer dizer com as palavras do Profeta: “Conheci meu Senhor por meio de meu Senhor”
  • O pleno conhecimento de Deus é ascendente e descendente; Deus é testemunhado, no cume da jornada espiritual, como o puro ser incomparável, mas também, ao retornar às criaturas, como o amor oculto que brilha nas profundezas de todo olhar
  • Ibn Arabi distingue três categorias de viajantes que chegam ao cume: o que para (waqif) — que não retorna, permanecendo para sempre arrebatado pela visão divina; o gnóstico (ʿarif) — que retorna por seu próprio bem; e o conhecedor (ʿalim) e herdeiro (warith) — que retorna num sentido geral, para guiar os seres

A Estação do Abandono da Jornada

O capítulo 175 das Iluminações da Meca — um dos mais breves, embora não menos profundo — é intitulado “Sobre o conhecimento espiritual da estação do abandono da jornada” e constitui o contrapeso indispensável de todo o discurso sobre a viagem.

  • Deus declarou: “Ele está convosco onde quer que estejais” (57:4); portanto, percorrer distâncias é um problema adicionado e um esforço especial; “Nada me move exceto minha busca por Ele: se não O fizer a meta e objeto de busca por esse perambular e viajar, não O buscarei. Mas Ele me informou que está comigo em meu estado de movimento e mudança, e que também está comigo no estado de imobilidade”
  • “Por que então me mover, se qualquer movimento para alcançá-Lo é apenas um sinal de que não O descobri no estado de imobilidade? Portanto, encontrarei Seu Rosto no lugar onde estou! E quando O tiver reconhecido aqui, Seus Nomes me buscarão em vez de eu os buscar”
  • “Mover em direção a Ele é a própria essência do não O conhecer, enquanto estar imóvel com Ele é a própria essência do conhecê-Lo. Portanto, permanece contente com o que te acontece!”
  • A conclusão akbari: a imobilidade é preferível ao movimento e superior ao conhecimento de Deus que provém da mudança de estado que ocorre a cada novo sopro; “há sempre algo novo nesse caminho e, em vez de nós fixarmos o curso, somos conduzidos”
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