QASHANI
Dagli, Caner K. Ibn al-ʻArabi and Islamic intellectual culture: from mysticism to philosophy. London New York (N.Y.): Routledge, 2016.
A Metafísica de Kāshānī: Condicionamento e Prova da Existência de Deus
A abordagem de Kamāl al-Dīn ‘Abd al-Razzāq al-Kāshānī (falecido em 1335) representa um avanço na sofisticação e no rigor conceitual dentro da escola akbariana, caracterizando-se por uma tentativa de sistematizar termos técnicos e integrar a lógica filosófica do condicionamento (shart) à metafísica da entificação (ta‘ayyun) e da existência pura (wujūd).
- Kāshānī foi um estudante de Jandī e mais tarde tornou-se o mestre de Qayṣarī na metafísica de Ibn al-‘Arabī, tendo também frequentado mestres suhrawardianos em Kāshān, Shirāz e Bagdá.
- Ao contrário de seus predecessores, Kāshānī tentou sistematizar e definir os termos técnicos da escola akbariana em obras como Iṣṭalāḥāt al-ṣūfīyyah, combinando termos místicos gerais com conceitos metafísicos e cosmológicos particulares da escola.
- Em seu comentário sobre o Fuṣūṣ al-ḥikam, Kāshānī fornece uma espécie de cartilha metafísica, onde descreve o Eu divino (al-dhāt) como “existência pura enquanto existência, não condicionada pela não-entificação e não condicionada pela entificação (al-wujūd al-baḥt min ḥaythu huwa wujūd lā bi-sharṭ al-lā-ta‘ayyun wa lā bi-sharṭ al-ta‘ayyun)”.
O Condicionamento da Existência: Akbarianos e os Filósofos Pahlavī
O uso da linguagem de condicionamento (shart) por Kāshānī para descrever a realidade suprema difere da tripartição estabelecida pelos filósofos Pahlavī, uma vez que ele nega tanto a entificação quanto a não-entificação, situando a realidade última além do espectro contínuo do conceito de existência.
- Na filosofia Pahlavī, a tripartição do conceito de existência é hierarquizada em: I) “Existência” como ‘negativamente condicionada’ (al-wujūd bi-sharṭ lā), ou existência pura e transcendente; II) “Existência” como ‘não-condicionada’ (al-wujūd lā bi-sharṭ), ou existência desdobrada que contém em potência todos os existentes; e III) “Existência” como ‘condicionada-por-algo’ (al-wujūd bi-sharṭ shay’), ou existência determinada em indivíduos concretos.
- A declaração de Kāshānī de que o Eu é “existência pura enquanto existência, não condicionada pela não-entificação e não condicionada pela entificação” aproxima-se mais do segundo estágio dos filósofos (não-condicionado), mas nega até mesmo a condição de ser “não-condicionado”.
- Enquanto o sistema de existência dos filósofos Pahlavī estabelece uma linha contínua e ininterrupta do existente individual ao absoluto, a metafísica akbariana da entificação envolve uma descontinuidade conceitual, particularmente na passagem da não-entificação (lā-ta‘ayyun) para a primeira entificação.
- A “imaginação absoluta ou não qualificada” (al-khayāl al-muṭlaq) dos akbarianos inclui tudo o que é outro que não o Eu puro, incluindo o Deus pessoal (ilāh), o que representa uma diferença notável em relação ao sistema Pahlavī, onde não há uma divisão conceitual dentro da existência absoluta que corresponda a essa distinção.
- Para os filósofos Pahlavī como Mullā Ṣadrā, a descontinuidade é localizada na diferença entre o conceito (mafhūm) e a realidade (ḥaqīqah) da existência, sendo que a compreensão total da realidade da existência vai além do pensamento correto sobre seu conceito e só é possível através da realização espiritual.
A Existência Como Sua Própria Prova
Kāshānī apresenta a “existência enquanto existência” (wujūd min ḥaythu huwa wujūd) como o Necessário (o próprio Deus), argumentando que esta existência pura é existente por si mesma (mawjūd bi-dhātihi), enquanto tudo o mais é não-existência pura (‘adam ṣirf) ou um “nada” (lā-shay’), invertendo assim a estrutura das provas cosmológicas tradicionais.
- A “existência enquanto existência” não é substância nem acidente, pois estas noções implicam limitações e particularizações; ela é idêntica à sua própria essência, e qualquer existência condicionada existe através dela, diferindo apenas com respeito à entificação.
- Ao contrário das provas cosmológicas da falsafah e do kalām, que partem do cosmos para chegar a um Ser Necessário (wājib al-wujūd) separado do cosmos, Kāshānī não foca neste ou naquele existente (mawjūd), mas no existir-enquanto-tal (wujūd).
- Para os akbarianos, tanto o cosmos quanto o Deus pessoal fazem parte da imaginação absoluta (al-khayāl al-muṭlaq), de modo que as provas cosmológicas, embora válidas dentro do domínio da dualidade entre Deus e o mundo, não conduzem à Realidade Suprema do Eu não entificado.
- Kāshānī argumenta que a existência nunca se torna não-existência e a não-existência nunca se torna existência, portanto, a aparente transição de coisas do não-ser ao ser é, na verdade, uma questão de manifestação (ẓuhūr) e ocultação (bāṭin), e não de geração e corrupção.
- O que Kāshānī “prova” é limitado ao escopo do conceito de existência, que para os akbarianos é uma ferramenta aproximativa e pedagógica, e sua conclusão não é apenas a existência de Deus, mas que toda existência é, em última análise, a única existência.
