User Tools

Site Tools


islamismo:jambet:imortal:retorno-corpos

RETORNO DOS CORPOS

“Se rendre immortel suivi du “Traité de la résurrection” par Mollâ Sadrâ Shîrâzî”, Fata Morgana, 2000

  • O capítulo cinco do Tratado da ressurreição abre com uma nova meditação sobre o Real em sua essência, acentuando a unidade ontológica do ato de ser — na realidade, nada é real exceto o ato de ser —, e a diversidade das coisas não se sustenta em diferenças essenciais, mas numa diferenciação de intensidade, de causalidade e de atualidade.
    • A escala das intensidades vai da perfeição à imperfeição — o encadeamento causal distribui anterioridade e posterioridade, e a atualidade distingue o necessário do possível
    • A haqîqa — realidade efetiva — é uma com al-haqq, o Real, e com a unitude (al-ahadîya) — nome que Mollá Sadrá toma emprestado de Ibn Arabi
    • Os nomes divinos são um com a essência divina e a exprimem sem multiplicá-la
    • O grau de ser da Inteligência, mundo do Jabarût, é assim chamado porque é “restaurado” ou “emendado” (injabarat) pela Luz do Real eterno, sem nenhum traço de potencialidade
    • A “restauração” da Inteligência na unitude se faz pela “dominação oriental” (al-tasallut al-ishrâqî)
  • Os graus de menor intensidade, onde a imperfeição e a potencialidade obscurecem o ato de ser, vão até os corpos naturais — que estão no mínimo de intensidade concedido a um existente dotado de forma —, e é preciso distinguir o “renovamento” dilacerante dos corpos e o devir positivo que os inscreve no seio da remontada e do retorno.
    • O estado habitual dos corpos é o renovamento permanente — mas essa fluidez e mutação incessante não são intensificação, mas fraqueza ontológica e fixidez do movimento de crescimento em direção ao Um
    • O renovamento não priva os corpos de uma existencialidade (wujudîya) que é a realidade efetiva da unitude, exprimindo-se nos atributos de perfeição
    • Os corpos têm, portanto, a possibilidade de fazer retorno ao seu centro existencial
  • Os corpos velam a existencialidade pela qual são unificados — “estendem-se e se dividem nos espaços materiais” e estão a distância de si mesmos nas durações temporais —, e essa extensão e essa distância provam que o espaço e o tempo são os signos da perda de si.
    • A duração dos movimentos é um aniquilamento — a extensão material é uma privação
    • A extensão — seja espacial, seja temporal — é deficiência porque é divisibilidade
    • A partição segundo as dimensões é submissão ao múltiplo, que é não-ser na medida em que disjunta e faz cada corpo afastar-se do outro e de si mesmo
  • O mundo dos corpos é um mundo de separação, de distanciamento e de impossível união — o espaço e o tempo são os testemunhos da estranheza —, e a “separabilidade” desse estado material anda de par com o esquecimento de si, o corpo sendo ignorante de si mesmo assim como a corporalidade é tenebrosa por ser estranheza e alienação.
    • O corpo se ausenta de si — ser em não relação consigo é ser outro que si
    • Os corpos são separados de sua “esfera fundamental” e estão em estado de amnésia em relação ao conjunto dos atos de presença (hodûrîya)
    • A extensão espacial ou temporal é a verdadeira tumba dos corpos — não se trata apenas de que sejam biologicamente mortais ou fisicamente destruíveis, mas que a extensão enquanto tal é uma tumba
    • No corpo eclode um conflito entre sua morte metafísica e sua existencialidade fundamental
    • Somente as almas são lugares de reminiscência — porque se movem sempre em si mesmas, em direção ao ponto central do inteligível, sem estar a distância de si mesmas
    • O corpo é o obstáculo à memória viva — é o inconsciente
    • A “rivalidade” — cujo termo árabe significa “ser múltiplos uns em relação aos outros” — é o oposto do espelho: na imagem refletida pelo espelho a realidade se reúne, enquanto a multiplicidade corporal em sua matéria é esquecida do modelo e rivaliza consigo mesma
  • A salvação dos corpos está, porém, neles mesmos — eles são receptáculos para a realidade efetiva da Luz —, e a forma do corpo é um revestimento (kiswa) — cujo nome mesmo evoca o revestimento do templo da Caaba — que protege, nutre, vivifica, aumenta e aperfeiçoa o corpo, intensificando-se e transformando-se em vida psíquica e depois em vida inteligível.
    • “Para a vida mais nobre e a perfeição mais elevada que se escoa neles” — os corpos são receptáculos dessa efusão
    • A forma é fundamentalmente estável e mobilizadora — permite que se efetue sempre uma vida mais nobre, sob “uma forma mais simples e mais concentrada”
    • Ao termo de sua ascensão, a forma se torna intelecto adquirido — “companheira da Inteligência agente”
    • Atravessando o corpo e metamorfoseando-o numa ícone de beleza, a forma se torna alma e intelecto — o devir do corpo é libertação em relação à sua própria corrupção ontológica, no evento da alma
  • A forma se diz em dois sentidos — há uma forma inferior e uma forma de perfeição que é seu esotérico e que a mantém no ser —, e essa forma de perfeição pertence ao mundo imaginal, sendo ontologicamente anterior ao corpo e à sua forma deficiente, segundo os próprios princípios de Aristóteles.
    • A forma de perfeição não é a Inteligência agente nem uma Inteligência dentre os senhores das espécies — como creem os discípulos de Sohravardi
    • A anterioridade do ato em relação à potência demonstra que a forma de perfeição é ontologicamente anterior ao corpo
  • O movimento intra-substancial transforma toda matéria em forma e toda forma de perfeição em matéria para uma forma ainda mais perfeita, numa atualização intensiva que atravessa e metamorfoseia todos os reinos da natureza — há um devir animal do vegetal, um devir humano do animal, um devir anjo do homem —, e a criação inteira se recolhe no coro angélico.
    • “A obscuridade duvidosa que se vê no mundo” é o exotérico das formas de perfeição imaginais — para as quais as formas mais humildes farão retorno numa conversão que as metamorfoseia
    • A comparação com o incrédulo que abraça o islã exprime o valor ético do movimento intra-substancial — a conversão para a forma superior é análoga à conversão religiosa que muda o homem no mais profundo de si
    • O par constituído pela forma deficiente e pela forma de perfeição vale para todos os graus da gradação — a forma física é deficiente, a forma psíquica é sua perfeição, a forma inteligível é a perfeição da forma psíquica
    • Os universos do além-mundo reproduzem em suas hierarquias as do mundo da natureza
    • Todo existente natural tem uma forma de perfeição que reduplica sua forma deficiente — uma forma imaginal do além-mundo
    • A forma sensível é o exotérico da forma imaginal, que é o princípio de seu retorno e a finalidade de seu movimento
islamismo/jambet/imortal/retorno-corpos.txt · Last modified: by 127.0.0.1