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ṬŌSĪ, Moḥamad ben Moḥamad Naṣīr al-Dīn; JAMBET, Christian. La convocation d’Alamût: somme de philosphie ismaélienne. Lagrasse Paris: Verdier Unesco, 1996.

Capítulo Primeiro — Refutação das teses daquele que nega o Criador ou afirma que há dois deuses ou dois princípios eternos — que é impossível à criatura estabelecer o que Ele é

I. O que é o verdadeiro descrente?

  • Diante da afirmação de que o Criador não existe, impõe-se a questão de saber se as coisas deste mundo existem por si mesmas ou por outra coisa, e qualquer resposta conduz necessariamente ao reconhecimento de um ser necessário.
    • Se as coisas existem por si mesmas, são todas elas o ser necessário — wajib al-wujud — pois a significação do ser necessário é existir por si
    • Se existem por outra coisa, afirma-se com isso a existência de um ser necessário, entendido como aquele pelo qual as coisas existem
    • A nota remete à demonstração aviceniana, baseada na distinção entre o existente possível, necessitado por outrem, e o existente necessário por si — cf. Avicena, Kitab al-Shifa, Ilahiyyat, livro I, cap. 6
  • Questionado sobre se as coisas que existem ou foram conduzidas à existência possuem uma causa, o interlocutor é levado a admitir a deidade sem o saber, pois negar o Criador implica contraditoriamente afirmá-lo.
    • Se a causa é o próprio interlocutor, ele terá afirmado a existência de um deus
    • Em ambos os casos, a deidade é admitida, ainda que involuntariamente
    • O verdadeiro descrente não é aquele que afirma claramente que Deus não existe, pois nenhum descrente ou associador o fez positivamente
    • “Incredulidade e religião estão em teu caminho — Afirmando: Ele é o Um sem associado.”
    • Chama-se “descrente” porque a incredulidade consiste em “velar” — isto é, ocultar aquilo que é incapaz de conhecer por si mesmo
    • O descrente vela assim sua própria indigencia em relação ao Wali do Imperativo divino
  • O descrente partilha com o comum dos homens o primeiro assentimento — reconhecer que Deus criou —, mas recusa o segundo assentimento, próprio dos Eleitos do Imperativo.
    • O Alcorão 43:87 atesta o primeiro assentimento: “Se lhes perguntas quem os criou, dizem: Deus!”
    • O segundo assentimento é expresso pelo Alcorão 47:11: “Deus é o mestre protetor daqueles que creem; os descrentes não têm mestre protetor”
    • O verdadeiro crente é aquele que professa a existência do Imã, o que permite escapar ao duplo risco do agnosticismo e da associação
    • A expressão corânica “la mawla la-hum” significa: sem mestre, sem Imã para eles — designando não Deus, mas seu Wali, o mawla, mestre protetor dos verdadeiros crentes, o Imã, detentor da walaya, da Amizade para com Deus
    • Este capítulo tem por alvo não os descrentes comuns, mas os muçulmanos vinculados à sola Lei profética, que recusam a proclamação do Ressuscitador
    • Quem aceita o primeiro ponto sem aceitar o segundo será chamado “descrente”

II. Refutação do Dualismo

  • A hipótese de duas divindades conduz a aporias irresolvíveis, pois qualquer relação possível entre elas — identidade, diferença, equivalência ou hierarquia — destrói a pretensão ao dualismo.
    • Se os dois deuses não são realmente distintos, não são dois, mas um só
    • Se suas vontades diferem, uma coisa existirá e não existirá ao mesmo tempo — tazzad — o que é contradição
    • Se são equivalentes em existência, potência e compreensão, não há razão para afirmar que são dois
    • Se um é mais eminente que o outro, estabelece-se entre eles uma confrontação que é ordem gradual — tarattob — designando relação de superioridade no interior de um mesmo gênero de existentes
  • A confrontação segundo a oposição e a confrontação segundo a gradação são as duas características que afetariam as divindades, mas Ele — que seja exaltado — transcende soberanamente todo rapport de oposição e todo ordem gradual.
    • Se os dois princípios são independentes um do outro, cada um será Deus em si e por si — be-dhat-e khwish
    • A cada um caberia um mundo do Imperativo — alam-e amri — e um mundo da Criação — alam-e khalqi —, um mundo da recompensa e um mundo do castigo, isto é, paraíso e inferno, o que é absurdo
    • Se um dos dois necessita do outro, ambos se tornam um em relação creatural
    • O argumento clássico — al-tamanu — é formulado pelo Qadi Mutazilita Abd al-Jabbar: “Se houvesse dois eternos querendo coisas contrárias, ambas deveriam realizar-se, o que é contraditório” — cf. G. Monnot, Penseurs musulmans et religions iraniennes, p. 132
    • O dualismo é incapaz de elevar-se além do existente e de pensar o Princípio enquanto Princípio absoluto
  • Se os dois princípios eternos são semelhantes, cada um será ao mesmo tempo independente e dependente, poderoso e impotente — e se são diferentes, um será melhor que o outro, o que é absurdo.
    • Dois princípios eternos, pelo fato mesmo de serem chamados eternos, têm algo em comum entre si
    • Pela distinção que os separa, diferem um do outro, e entram assim em composição
    • O que é composto é produzido ao ser, ao passo que as realidades simples, pressupostas pelas compostas, são anteriores a elas
    • O eterno, em sua realidade efetiva, é aquilo que nenhuma coisa pode preceder na existência
    • Fica assim demonstrado que não há dois princípios eternos

III. Impossibilidade de estabelecer o que é Deus

  • As criaturas não podem estabelecer o que é Deus, pois Ele é, na verdade, aquele que estabelece todos os que estabelecem, e afirmar que se abraça Sua ipseidade é a coisa mais impossível que existe.
    • Quem afirma “Eu estabeleço o que Ele é” terá dito: “Eu, na verdade, abracei Sua ipseidade”
    • É impossível a uma criatura abraçar a ipseidade divina
    • Como é impossível abraçar a ipseidade divina, o estabelecimento que se queria dar é igualmente impossível
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