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ṬŌSĪ, Moḥamad ben Moḥamad Naṣīr al-Dīn; JAMBET, Christian. La convocation d’Alamût: somme de philosphie ismaélienne. Lagrasse Paris: Verdier Unesco, 1996.
Capítulo Três — Sobre o princípio: do um não pode proceder senão o um
I. O Real está além da procissão e de seu princípio
- Alguns afirmam que tudo o que vem à existência e porta o nome de uma quididade procedeu dEle — que Ele seja exaltado —, sem fazer nenhuma diferença entre o um e o múltiplo — wahid o kathir — no seio dos existentes, nem entre a unidade e a multiplicidade — wahdat o kathrat — no ser, sem se alarmar com que a multiplicidade possa afetar Sua essência.
- Outros, mais sutis por disposição natural, dizem que no ser existem a unidade e a multiplicidade, e nos existentes o um e o múltiplo
- Como a unidade e o um procederam dEle — que Ele seja exaltado —, a multiplicidade e o múltiplo também procederam dEle
- O um procederia dEle por essência, enquanto o múltiplo procederia dEle por acidente
- Os servos da Convocação — bandegan-e da'wat, os fiéis membros da organização que reconhece “o Imã de seu tempo” — que praticaram a imitação do Senhor de todos os graus do ser e de todos os existentes, pela força de sua assistência — ta'yid, termo de difícil equivalência, traduzido por H. Corbin como “confortação” — rejeitam essas duas teses e colocam a questão prévia de saber se algo pode ou não proceder dEle.
- Se algo pode proceder dEle, não será dEle que se falará, pois Ele não tem apego nem união — 'alaqeh va ettesâl — com coisa alguma e de modo algum
- Admitir tal apego e tal união seria negar Sua unicidade — wahdâniyat, que significa que o Um é radicalmente separado
- Se for impossível que algo proceda dEle, nega-se a criação, pois todas as coisas criadas existem e são concebidas por Ele
- Dizer que é impossível que algo proceda dEle equivale a afirmar que essas coisas não são nem existentes nem concebidas por Ele
- Dizer que é impossível conduz a uma negação figurada — enkar-e majazi — e a uma colocação em relação
- Dizer que é possível equivale a negar a realidade efetiva ela mesma — enkar-e 'ayn-e haqiqat, que é pura separação de com o ser e o estante
- Dizer que de um ponto de vista é possível e de outro impossível institui dois pontos de vista, o que é multiplicidade, e o que tiver essência múltipla será criatura e não Deus
- “Aquele que fala dEle é ignorante, aquele que se cala é negligente. Aquele que pensa tê-Lo atingido não O atingiu. Tudo o que crestes discernir dEle por vossas cogitações, por mais sutis que sejam, afasta-se dEle, retorna a vós, fabricado e criado como vós mesmos.”
- O um que procede dEle por essência terá procedido dEle somente se não for Ele, e se não for Ele, sendo exterior a Ele sem possuir atributo nem forma, isso ainda será múltiplo e não um.
- Não é possível afirmar que algo procede dEle por essência sem que isso resulte em multiplicidade
- Os dois pontos de vista sobre a procissão — o que suscita a categoria da relação do existente relativo, e o que atesta a procissão de algo a partir dEle negando a realidade efetiva da ipseidade do Princípio — são ambos necessários e insuficientes
- A ipseidade se situa além do que esses pontos de vista negam e do que afirmam
II. Os três pontos de vista sobre a procissão
- Embora o Imperativo divino — que Ele seja exaltado — seja uma efusão absoluta que difunde uniformemente seus raios sobre o conjunto dos dezoito mil mundos, sem fazer beneficiar de sua iluminação e de sua graça uns em detrimento de outros, cada existente exprime a operação divina em função do grau que lhe foi conferido no ser por Seu Imperativo e em proporção aos efeitos manifestados em sua essência por Sua operação.
- A primeira Inteligência, tirando sua existência do Imperativo sem mediação e sendo una pela unidade, não percebe nem conhece o um e a unidade; exprime, em relação ao seu conhecimento e à sua percepção, apenas: “Do um não pode proceder senão o um” — em árabe: la yasduru 'an al-wahid ila'l-wahid
- A Alma universal recebe a existência do Imperativo pela mediação da Inteligência e exerce seu poder de direção e regência sobre o Corpo graças à assistência da Inteligência
- Segundo o ponto de vista que a Alma tem sobre a Inteligência, ela percebe o um e a unidade; segundo o ponto de vista que tem sobre o Corpo, ela percebe o múltiplo e a multiplicidade
- Em função de sua percepção e de seu conhecimento, a Alma exprime que “nada procede do um senão o um e do múltiplo senão o múltiplo” — em árabe: la yasduru 'an al-wahid ila'l-wahid wa 'an al-kathir ila'l-kathir
- O Corpo recebe a existência do Imperativo por múltiplas mediações; situando-se no múltiplo e na multiplicidade, percebendo e conhecendo apenas o múltiplo e a multiplicidade, exprime que “do um não pode proceder senão o múltiplo” — em árabe: la yasduru 'an al-wahid ila'l-kathir
- Cada existente — inteligível, espiritual ou corporal — exprime sua procissão a partir dEle em relação ao seu tipo de percepção e de conhecimento, enquanto, em realidade, Ele é livre de tudo isso — az an monazzah
- Quando se diz que algo pode proceder dEle, fala-se do ponto de vista da relação e de sua origem
- Quando se diz que é impossível que algo proceda dEle, é do ponto de vista de Sua realidade fonceira e de Seu ponto de retorno
- Quando se diz que de um ponto de vista é possível e de outro impossível, exprime-se a dualidade dos pontos de vista
- Quando se diz que não é possível de nenhum ponto de vista, exprime-se a negação dessa dualidade
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