Caçador celeste
CALASSO, Roberto. IL CACCIATORE CELESTE. MILANO: ADELPHI, 2016.
SBROJAVACCA, Elena. Letteratura assoluta. Le opere e il pensiero di Roberto Calasso. Milano: Feltrinelli, 2021.
1. A investigação do funcionamento do pensamento articula a dualidade da mente humana, pertencente ao contínuo e portadora de um fragmento do divino, à oposição entre pensamento analógico e digital e ao problema da consciência, cuja explicação pelas ciências exatas e naturais permanece insatisfatória.
2. A caça, presente desde A ruína de Kasch e aprofundada em K. e em O ardor, constitui o pressuposto metafísico do sacrifício, pois a transformação do ser humano pré-histórico de presa em predador subverte a ordem cósmica mediante a morte dos animais a cuja força ele anteriormente se submetia.
3. A caça constitui um gesto de metamorfose pelo qual o ser humano imita os animais, tomando suas presas como modelo para fabricar armas e substituindo-os na cadeia alimentar, enquanto a relação entre pensamento analógico, pensamento digital e subjetividade conduz à questão da correspondência entre as estruturas lógicas da mente e o mundo exterior, vinculados pela participação da mente na rede das correspondências cósmicas.
4. A retomada do mito de Core, do presidente Schreber, dos Scherzi de Tiepolo, do bordel-museu de Baudelaire e de Thomas Browne entrelaça O Caçador Celeste às obras anteriores, mantendo no centro da investigação o sacrifício e a necessidade humana de preservar uma comunicação ritual com o divino.
5. O sacrifício procura recompor o mundo como um vaso quebrado, mas a perda irrecuperável de certos fragmentos e a persistência das marcas da ruptura impedem uma restauração completa, embora essas feridas possam conferir beleza ao conjunto recomposto.
6. A imagem do mundo como vaso quebrado retoma quase integralmente uma reflexão pronunciada por Dadhyañc em Ka cerca de vinte anos antes, evidenciando a continuidade da compreensão do sacrifício como recomposição de uma unidade fraturada.
7. A recomposição sacrificial do mundo conserva perdas e feridas, enquanto o conhecimento da cabeça do sacrifício revela também um sacrifício interior à mente, invisível e independente de gestos, instrumentos, calendários, fórmulas, vítimas e palavras.
8. O entrelaçamento de narrativas indianas e gregas aproxima a caça do mito como fonte poderosa e misteriosa de conhecimento e como arte que afirma a própria existência, pois, embora o esquecimento da passagem à predação a converta em atividade voltada à morte, nela subsiste a memória da ruptura cósmica originária, assim como a literatura conserva vestígios dos saberes rituais transmitidos aos mitos.
9. A dificuldade de assimilar a natureza predatória adquirida conduz o ser humano a circunscrever literalmente a predação e a expandi-la indefinidamente como metáfora, inventando a caça como atividade gratuita e dispensável, primeira manifestação da arte pela arte.
10. A literatura absoluta ocupa posição central em O Caçador Celeste, e a compreensão de Ovídio como escritor cuja relação com o divino se realiza na criação literária prolonga o horizonte de A literatura e os deuses.
11. Ovídio encarna plenamente o escritor moderno ao transformar a mitologia e os gestos rituais em um repertório de variantes, combinações e imagens disponíveis à criação, fazendo da literatura o único poder divino ao qual se submete e o espaço exclusivo de sua sensibilidade religiosa.
12. A literatura absorve materiais heterogêneos e reúne, em igualdade de condições, deuses, personagens míticos, estudiosos e escritores, enquanto a distinção aristotélica entre filósofos e amantes dos mitos separa duas relações com o espanto: ambos partem dele, mas somente os amantes dos mitos, entre os quais se incluem os grandes escritores, nele permanecem como condição existencial.
13. Homero pertence à comunidade dispersa e sem pátria dos amantes dos mitos, desprovida de historiadores e formada por presenças descontínuas que, de Píndaro a Hölderlin, se reconhecem por sinais discretos.
14. O conhecimento que procede por lampejos e se manifesta em narrativas aparentemente leves convive com a trajetória da ciência moderna, cuja dificuldade de se relacionar com o contínuo e com o sagrado se traduz no esforço persistente de evitá-los.
15. A sobrevivência das práticas sacrificiais na contemporaneidade articula a permanência do esquema especulativo do sacrifício, central em O ardor, à tendência da sociedade de converter a si própria em objeto de culto.
16. A literatura, em sua aparente inutilidade, abre o acesso a uma realidade inacessível por outras vias e inconcebível para os fins tecnocráticos e utilitários, aproximando o feiticeiro e o escritor pelo poder de transitar por esse outro mundo como figuras misteriosas, loucas e salvadoras.
17. A ambivalência entre loucura e poder de cura atravessa a compreensão dos xamãs siberianos, cuja capacidade de lidar com espíritos e mortos decorre do conhecimento de um mundo oculto atrás da realidade ordinária, e, com as devidas transposições, estende-se a figuras como Empédocles, São Paulo e Nietzsche.
