1
CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. São Paulo: Companhia das Letras, 1988/1991.
1. Numa praia de Sídon, Zeus em forma de touro branco arrulhava como amante e, estremecendo de doçura, mergulhou no mar levando Europa no dorso, sob o olhar de muitas testemunhas, Tritão que respondeu com sua concha, Bóreas que assobiou ciumento ao descobrir os seios da moça, Atena que corou ao ver o pai cavalgado por uma jovem e um marinheiro aqueu que se perguntava se via Tétis, uma Nereida vestida ou Poseidon raptando mais uma moça.
2. Na travessia interminável, Europa, adivinhando o que lhe aconteceria ao chegar à terra, gritou aos ventos e às águas que avisassem o pai de seu rapto pelo touro que seria seu raptor, marinheiro e futuro amante e levassem à mãe seu colar, e conteve o impulso de chamar Bóreas para levá-la, como fizera com Orítia, por não ver sentido em trocar um raptor por outro.
3. Tudo começou com moças brincando e colhendo flores, cena que se mostrou irresistível aos deuses repetidas vezes, como no rapto de Perséfone entre narcisos, de Tália apanhada pelas garras da águia de Zeus, de Creusa agarrada por Apolo ao colher açafrão na Acrópole e de Europa e suas amigas colhendo narcisos, jacintos, violetas, rosas e tomilho.
4. Cercadas por um rebanho, as moças viram entre os touros um de brancura deslumbrante e chifres brilhantes como joias, tão inofensivo que Europa, primeiro tímida, lhe levou flores ao focinho, enquanto ele gemia de prazer como um cachorro, deitava-se e oferecia os chifres às guirlandas, até que a princesa montou nele como uma Amazona e, quando o rebanho se afastou discretamente para a praia, o touro entrou na água e já era tarde, com Europa agarrada a um chifre e as vestes agitadas pela brisa.
5. Pouco antes do amanhecer, Europa sonhara com duas mulheres que disputavam violentamente sua posse, a Ásia, semelhante às mulheres de sua terra, e a terra em frente, sem nome e estrangeira, que acabou arrastando-a com mãos poderosas por vontade de Zeus, destinando-a a ser uma asiática raptada por uma estrangeira, sonho tão vívido que a deixou assustada e silenciosa antes de sair como sempre com as amigas rumo ao mar com seu cesto de ouro.
6. Noutra versão, um touro alourado com um círculo branco na fronte e perfume mais forte que o das flores lambeu o pescoço de Europa, que o acariciou enxugando sua baba, ajoelhou-se oferecendo-lhe o dorso e, assim que ela montou, disparou para o mar, enquanto ela, aterrorizada, acenava às amigas e depois segurava um chifre e a barra da túnica contra o peito, inflada atrás dela como vela púrpura.
7. Europa levava um cesto de ouro forjado por Hefesto para Líbia e transmitido por gerações até ela como talismã da família, no qual se via em relevo uma novilha errante nadando num mar de esmalte, observada por dois homens e tocada levemente por um Zeus de ouro diante de um Nilo de prata, a novilha Io, sua trisavó.
8. A história de Io foi também de rapto e metamorfose, pois, sacerdotisa do Héraion de Argos, o santuário mais antigo pelo qual os gregos contavam os anos, foi levada por sonhos que lhe sussurravam o amor de Zeus a ir aos campos de Lerna e tornar-se não mais sacerdotisa da deusa, mas animal consagrado ao deus, começo de uma loucura e de uma desgraça que a fizeram atravessar mares aguilhoada por um moscardo, dando seu nome ao mar que conduz à Itália.
9. O recinto sagrado de Io expandiu-se até tornar-se o mundo inteiro, com mares atravessados sem trégua sob o aguilhão do moscardo e um sofrimento crescente com a vastidão da paisagem, a ponto de desejar morrer quando encontrou Prometeu, outro sofredor incapaz de morrer, até que, no Egito, o leve toque da mão de Zeus a devolveu à forma de moça e à união com o deus, da qual nasceu Épafo, “toque leve da mão”, futuro rei do Egito e talvez o boi Ápis.
10. Europa levava gravado em metais preciosos seu próprio destino, inversão melódica do de Io, pois seria levada da Ásia por um touro ao continente que se chamaria Europa, assim como a novilha errante vinda dos pastos gregos terminara no Egito sob o toque de Zeus, herança que carregava sem pensar.
11. Se se quer história, ela é história de conflito que começa com o rapto ou o sacrifício de uma moça, atos que se convertem um no outro, como no rapto da tauropárthenos Io de Argos pelos mercadores fenícios, fogueira de ódio acesa entre os dois continentes, que desde então não cessaram de se golpear, como quando os cretenses, javalis do Ida, raptaram Europa da Ásia num navio em forma de touro para dá-la ao rei Astério, nome também de seu neto com cabeça de touro, o Minotauro.
12. Segundo a versão do rapto, os mercadores fenícios, após dias vendendo em Argos mercadorias do Mar Vermelho, do Egito e da Assíria, lançaram-se sobre as mulheres que vieram comprar e levaram Io e outras, rapto vingado pelos cretenses com o de Europa, embora os fenícios afirmassem que Io, apaixonada pelo capitão e grávida, partira por vontade própria para esconder a vergonha.
13. Desses acontecimentos nasceu a própria história, numa cadeia que inclui os Argonautas, Medeia, Helena e a guerra de Troia, num chamado às armas entre Ásia e Europa em que cada ida e volta é uma mulher e um enxame de predadores, com a diferença, observada por Heródoto, de que os sábios asiáticos não se importavam com as mulheres raptadas, já que não o seriam se não quisessem, enquanto os gregos, por uma espartana, reuniram um exército e destruíram o poder de Príamo, iniciando uma guerra entre Europa e Ásia que nunca cessou.
14. Em Creta, sob um enorme plátano de Gortina, Zeus em forma de águia uniu-se a Europa e desapareceu, deixando-a guardada por Talos, touro guardião ou gigante mecânico de Hefesto, cuja veia que ia do pescoço aos pés era fechada por um prego de bronze, segredo de sua vida e da arte da fundição, e que corria pelas costas da ilha lançando pedras, de modo que Europa, habituada em Sídon a despertar com vozes amigas, despertava agora no silêncio cortado por um som distante e crescente, sem ver ninguém, na grande ilha que era Creta e era Europa.
15. Os nomes de Io, Telefassa, Europa, Argíope, Pasífae, Ariadne e Fedra evocam um rosto amplo, puro e luminoso como a lua, e Gustave Moreau via nelas figuras imensas, pálidas, trágicas e misteriosas, amantes fatais condenadas a infâmias titânicas, que inspiram terror, compaixão e uma tristeza imensa.
16. Segundo Diodoro Sículo, os cretenses afirmavam que as honras aos deuses, os sacrifícios e os mistérios vieram de Creta para os outros povos, alegando que os ritos de iniciação de Elêusis, Samotrácia e da Trácia órfica são transmitidos em segredo, ao passo que em Cnossos sempre foram praticados à luz do dia e revelados a todos, sendo acessível em Creta o que é indizível alhures.
17. Em Creta o mistério era evidente a todos e não havia nisso desafio algum, pois a ilha de cem cidades sem muralhas parecia um imenso brinquedo, que só um maremoto ou saqueadores vindos do mar poderiam destruir, e não a temeridade de uma civilização que busca conhecer-se e assim se destrói.
18. Milênios depois, um célebre morfólogo das civilizações ficou desconcertado diante de Creta por não encontrar em seus restos nenhum indício de consciência histórica, política ou biográfica como a que dominava o pensamento egípcio, julgando-a algo infantil, esquivo e inferior.
19. As tabuletas em Linear B contêm muitos nomes divinos, metade dos quais sobreviveu como deuses olímpicos e metade se perdeu, simples nomes ao lado de Zeus, Poseidon e Hera, como se os olímpicos tivessem sido muito mais numerosos e carregassem consigo as sombras de irmãos perdidos.
20. Creta se compõe de jarros de grãos numerados, selos com animais híbridos, afrescos delicados, nós de marfim, listas de oferendas, mel, cápsulas de papoula, crânios de boi, machados duplos, colunas de cipreste, palácios com escadarias e poços de luz, túmulos anônimos e pequenos ídolos amontoados, sem estátuas nem duplos de pedra e sem nada da verticalidade do divino ou da presença alucinatória da pedra ereta.
21. As histórias nunca vivem sozinhas, mas são ramos de uma família a percorrer para trás e para a frente, e Europa, extasiada no dorso do touro, oculta em si os destinos de suas netas Fedra e Ariadne, que se enforcariam de vergonha e desespero, enquanto nas raízes celestes dessa árvore se encontra Io, novilha louca que contém a imagem de outra novilha louca, Pasífae, mãe delas, também enforcada de vergonha.
22. Ariadne observa Fedra num balanço em Cnossos, ambas filhas de Minos e Pasífae e meias-irmãs de Astério, o filho com cabeça de touro do grande touro branco amado pela mãe, encerrado num edifício projetado por Dédalo, o inventor ateniense fugitivo, pois o labirinto, antes espaço aberto para a dança, foi coberto quando Minos conquistou o continente e os cretenses passaram a se relacionar demais com os gregos, chegando o momento de esconder os segredos e de envergonhar-se deles, de modo que desde então o mistério se tornou também aquilo de que se tem vergonha.
23. Essa evolução dependia da história das metamorfoses, pois as formas se manifestavam enquanto se transformavam e, no tempo de Europa e Io, o véu da epifania ainda funcionava, permitindo que touro e novilha voltassem a ser deus e moça, mas com as gerações a metamorfose tornou-se mais difícil e a irreversibilidade da realidade mais evidente, a ponto de Pasífae precisar de uma vaca de madeira sobre rodas para unir-se ao touro e gerar um híbrido incapaz de voltar a ser animal ou homem, escondido por outro objeto de Dédalo, o labirinto, sinal de que, rasgado o véu da epifania, só restava inventar objetos e gerar monstros para manter o poder da metamorfose.
24. Nos jogos cretenses de que as mulheres participavam, Ariadne admirou Teseu vencendo um adversário após outro, e, enquanto contemplava o Estrangeiro, Creta desmoronava, pois antes de ser traída ela escolheu trair sua ilha.
25. Dioniso corteja, acusa, mata, reencontra e transforma Ariadne na Coroa Boreal, mas não é o Dioniso de sua infância, que nem se chamava assim e era o Touro total, descido do céu como Zeus, surgido do mar como Poseidon, pastando sob os plátanos de Gortina, presente no mel e no sangue das oferendas, nos chifres dos altares e nos crânios das paredes, agarrado pelos chifres pelos jovens em corrida, e que sempre seguira e vigiara Ariadne.
26. O Touro cede lugar ao herói ateniense, inimigos aparentes que trocam de posição sem atrito, e o destino de Ariadne deixa os monstros pelos negócios sórdidos, o palácio infantil e régio pelos pórticos e praças onde homens duros e astutos se apunhalam e onde a palavra, que em Creta servia para inventariar armazéns, se tornaria soberana e venerada, futuro que Ariadne não viveu, detida numa ilha rochosa onde fechou os olhos para não ver mais nem o deus nem o homem, que por natureza só sabiam aparecer e desaparecer.
27. Teseu transformou o hábito divino de raptar donzelas em passatempo humano, raptando uma mulher em cada aventura, Ariadne ao sul, a Amazona Antíope ao norte, sempre com algo lúdico e temerário e apressando-se a livrar-se de cada troféu para buscar outro, até raptar aos cinquenta anos Helena, que dançava no santuário de Ártemis Órtia, com a ajuda do único ser a quem foi fiel até o fim, o amigo Pirítoo.
28. Teseu e Pirítoo encontraram-se como inimigos destinados a um duelo mortal, mas, ao se verem, admiraram-se mutuamente pela beleza e pela força e tornaram-se companheiros de aventuras irreverentes, nunca tão felizes quanto juntos, conhecedores do mundo, matadores de feras míticas e raptores de princesas, inseparáveis sobretudo por qualquer mulher.
29. Viúvo de Hipodâmia, Pirítoo foi visitar Teseu em Atenas e encontrou outro viúvo, já que Fedra se enforcara, e, entre conversas sobre novas aventuras, propôs raptar Helena, menina espartana de dez anos mais bela que qualquer mulher, que, capturada, coube a Teseu num lance de dados.
30. Numa de suas conversas cifradas, maior prazer de suas vidas, acima das mulheres e das próprias aventuras, os dois amigos concluíram que, tendo percorrido o mundo inteiro, só lhes restava violar o mundo subterrâneo e raptar não princesas terrenas, mas rainhas divinas, e desceram ao Hades para levar sua rainha.
31. Teseu é aquele que se levanta e parte, e nem Helena, feliz prisioneira, o retém, de modo que, enquanto se temem represálias e os amigos do raptor se organizam para protegê-la, Pirítoo propõe descer pelo cabo Tênaro ao Hades para raptar a mais poderosa das rainhas, empresa mais dura que raptar uma menina dançarina ou aprender as danças do labirinto, a de arrancar a esposa de Dis do leito nupcial.
32. Hades responde à zombaria com zombaria, acolhendo cortesmente os dois amigos e convidando-os a sentar em duas cadeiras de ouro cravadas na rocha, às quais ficam colados por um vínculo invisível, obrigados a esquecer-se de si mesmos imóveis no reino dos mortos, até que Héracles arranca Teseu à força, deixando pedaços de sua carne na cadeira, o que explicaria as nádegas pequenas e magras dos jovens atenienses.
33. Quando os arredores de Atenas, antes de assim se chamar, estavam infestados de bandidos e feras, um arauto anunciou que um jovem percorrera as estradas e matara Sínis, Feia, Círon, Cércion, Procusto e outros, descrevendo-o com espada de punho de marfim, dois dardos reluzentes, chapéu espartano sobre cachos ruivos, malha púrpura, manto tessálio e um brilho perverso nos olhos.
34. Teseu usava o cabelo curto na frente, para que ninguém o agarrasse na luta, e longo e trançado atrás, tendo dedicado a Apolo em Delfos os cachos da fronte, e quando apareceu pela primeira vez perto de Atenas, aos dezesseis anos, com longa túnica jônia e trança, foi zombado pelos operários do templo de Apolo Delfínio como moça casadoura perdida, ao que respondeu sem palavras soltando um touro de uma carroça e lançando-o por cima do teto inacabado, seu primeiro encontro com um touro.
35. Muitos outros touros cruzariam o caminho de Teseu, o Minotauro morto em Creta, o touro de Maratona capturado para alegria dos atenienses, o touro saído do mar que mataria seu filho Hipólito e outros mais obscuros, relação tão estreita que pôs uma cabeça de touro nas primeiras moedas da cidade a que ele próprio deu o nome de Atenas.
36. Há em Teseu algo de blasfemo, uma insolência indomável que antecipa Alcibíades, como na expedição paródica ao Hades para raptar Perséfone, semelhante às acusações de que Alcibíades celebrava mistérios com prostitutas e vagabundos, e assim como Alcibíades conduziria solenemente a procissão a Elêusis, Teseu presidia os ritos mais secretos da cidade, brincando com segredos que conhecia bem por lhe pertencerem desde o nascimento.
37. Teseu abandona Ariadne sem razão particular, sem outra mulher, apenas num momento de distração em que alguém se perde, depois que ela o ajudara a matar o meio-irmão, deixara o palácio e estava pronta a servi-lo como escrava em Atenas, e sua crueldade não está em deixá-la, mas em deixá-la em Naxos, nem pátria nem lar desejado, mas praia abstrata batida pelas ondas onde só as algas se movem, ilha deserta onde a obsessão gira sobre si mesma sem saída, ostentação constante da morte, lugar da alma, paisagem definitiva do amor abandonado.
38. Abandonada, Ariadne, desperta mas imóvel como estátua de Bacante, contempla ao longe o navio já desaparecido de Teseu enquanto sua mente sobe e desce com as ondas e suas vestes caem uma a uma, a fita do cabelo, o manto, a faixa dos seios, todas as roupas com que deixou Creta espalhadas a seus pés e agitadas pelas ondas entre areia e algas, numa cena de luto.
39. Nua diante do vazio, ao inventariar mentalmente todos os gestos servis que gostaria de oferecer ao amante desaparecido como esposa e serva em Atenas, Ariadne percebeu que sua dedicação e degradação não eram únicas, mas repetiam as de sua mãe, a esplêndida e despudorada Pasífae, que, fechada na vaca de madeira, aceitara servir a um simples touro, curvando o pescoço ao jugo, sussurrando palavras de amor a um animal mudo e, na escuridão sufocante, desejando ouvir apenas seu mugido.
40. Se Ariadne repetia a paixão de Pasífae e era ela mesma Pasífae, Teseu era o touro que ela ajudara a matar, como se o tivesse ajudado a matar a si mesmo, ou então os únicos a morrer nessa história eram elas, Pasífae enforcada, Ariadne prestes a enforcar-se e Fedra que se enforcaria depois, enquanto touros e vencedores apenas trocavam de lugar como quem se despe e se veste, sem conhecer a morte perpendicular e última do enforcamento, o ser erguido para longe da terra.
