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CALASSO, Roberto. LA TAVOLETTA DEI DESTINI. Milano: ADELPHI, 2020.
1. Uma tempestade sem igual, diferente dos naufrágios habituais que marcavam o tempo de sua vida, fez Sindbad perder não só o rumo, mas os próprios pontos cardeais, provocando nele uma estranha imprudência embriagada, quase alívio, até que, após um tempo indefinido, despertou numa tenda ao lado de outro dormente imóvel, que acordou e o fitou.
2. O desconhecido revelou a Sindbad que ali era a morada de Utnapishtim, em Dilmun.
3. Utnapishtim levantou-se, abriu a tenda deixando entrar uma lâmina de luz ao lado de Sindbad e sentou-se num banco junto a ele para falar.
4. Utnapishtim declarou conhecer Sindbad sem necessidade de palavras e ofereceu-se para permanecer ali caso o hóspede quisesse ouvi-lo.
5. Depois de nova confusão, Sindbad despertou com uma impressão de grande clareza e encontrou Utnapishtim ainda sentado ao seu lado, pronto a falar.
6. Após um silêncio tão longo que não sabia por onde começar, Utnapishtim decidiu seguir o antigo costume segundo o qual tudo começa pelos deuses.
7. Um breve silêncio precedeu a retomada da voz de Utnapishtim.
8. No princípio os deuses caminhavam pela terra cavando valas, erguendo muros e buscando água sob um jugo pesado, divididos entre os Anunnaki, retirados ao céu, e os Igigi, deixados a penar na terra, que, depois de escavar o leito do Tigre, se rebelaram e ameaçaram atacar o céu, levando Enlil a chorar sem saber o que fazer e Anu a reconhecer que sua vida era dura demais e seu clamor chegava ao mais alto céu, revolta da qual os homens aprenderiam.
9. Os deuses compreenderam que precisavam criar substitutos, os homens, e que para que fossem verdadeiramente vivos um deus devia morrer, de modo que Mami, a parteira, misturou argila ao sangue do deus Geshtue, enquanto os deuses se purificavam na água, e um espírito penetrou a argila, que começou a pulsar e conservou para sempre a memória do deus a que pertencera.
10. Na câmara do destino, junto com Ea, Mami amassou a argila estriada de sangue pronunciando encantamentos de antiga feiticeira, dispôs sete pedaços à direita e sete à esquerda, que se tornaram homens e mulheres, e colocou entre eles um tijolo de barro cortado ao meio com bambu, pois ali tudo começa pelo tijolo de barro, e logo aqueles pedaços informes começaram a acasalar sob o olhar satisfeito de Ishtar.
11. Ea, o mais previdente dos deuses e protetor de Utnapishtim, livrou os Anunnaki de conflitos intermináveis ao pronunciar as palavras decisivas de que os homens carregassem o fardo dos deuses, palavras simples pelas quais ainda vivem os homens e o próprio Sindbad e que contêm o essencial, o fardo e os deuses.
12. De Geshtue pouco se sabe senão que seu nome significa “ouvido”, que não lhe são atribuídas façanhas memoráveis e que era considerado inteligente, talvez a razão de sua escolha, sendo morto em conjunto pelos Anunnaki em seu conselho, que juntos derramaram seu sangue e juntos se purificaram na água de Ea.
13. A necessidade de matar um deus para que os homens existissem permanece incompreensível para Utnapishtim, já que não foi sugerida por Ea, que apenas propôs encontrar uma criatura capaz de substituir os deuses, mas foi aprovada pelos Anunnaki e executada num lugar preciso, o Durmahu, o vínculo, a corda, o eixo que liga o céu à terra, segundo o relato dos sete Apkallu, as Carpas Sagradas, os Sete Sábios de Ea, parentes próximos de Utnapishtim.
14. Utnapishtim contou essas histórias de deuses e fardos porque Sindbad, em Bagdá, antes de conhecer Sindbad, o Marinheiro, fora Sindbad, o Carregador, que passava os dias com pesados fardos na cabeça, transportando mercadorias de um lugar a outro, e essa fora toda a sua vida.
