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Voo Mágico
- O Esquema Literário do Voo Mágico e seus Três Casos de Fracasso
- Os relatos de voo mágico nos primeiros séculos da Era Cristã seguem um esquema literário estável composto por três sequências: subida a um local elevado, lançamento ao ar e queda fatal no solo.
- Três histórias, datadas entre os séculos I e III, ilustram este esquema, todas registrando fracasso e nenhuma registrando sucesso.
- Caso de Nero: Um mago grego, por ordem de Nero, tenta demonstrar sua capacidade de voar e falha. A memória coletiva posteriormente fundiu este evento com o de um aviador que, representando Ícaro no Circo, caiu diante do palco imperial.
- Caso de Simão o Mago: O relato das Pseudo-Clementinas descreve Simão, o Mago de Samaria, tentando realizar um voo mágico na corte romana e caindo por terra após uma prece de São Pedro. Outra fonte conecta sua tentativa de ascensão ao anúncio de seu fim da missão terrestre.
- Caso de Terebinto: Terebinto, um precursor de Mani também conhecido como Bouddha, após encantações mágicas em um terraço, tentou voar e caiu, morrendo. Este episódio é visto como um prenúncio das levitações atribuídas a Mani.
- Faculdades de Translocação e Levitação em Contextos Filosóficos e Religiosos
- Apolônio de Tiana: Herdeiro dos iatromantes gregos, Apolônio era creditado com a faculdade de se transportar instantaneamente de um ponto a outro do espaço e, como Empédocles, teria sido arrebatado aos céus. Em sua viagem à Índia, ele e seu discípulo Damis encontraram brâmanes que levitavam três pés acima do solo para praticar seus ritos voltados para o Sol.
- A Doutrina da Ascensāo da Alma nos Uiri Noui e Magos de Arnóbio
- Arnóbio, um heresiólogo cristão do século IV, polemiza contra adversários chamados uiri noui e contra magos, que prometiam a ascensão da alma ao céu.
- A doutrina dos uiri noui e magos envolvia:
- A crença em serem filhos de Deus, consubstanciais com a divindade e libertos das leis do destino astral.
- A expectativa de retornar, após a morte, à sua sede divina paterna.
- A prática de uma vida ascética e de ritos secretos de purificação para alcançar este fim.
- A obtenção da complacência de potências celestes que guardam a passagem entre a terra e o céu, através do conhecimento de palavras-passe (synthemata) ou fórmulas propiciatórias (preces commendaticiae) e de talismãs ou selos (sphragidas).
- Possíveis Fontes da Doutrina: Oráculos Caldeus, Gnosticismo e Neoplatonismo
- A doutrina criticada por Arnóbio assemelha-se centralmente aos Oráculos Caldeus de Juliano, o Teurgo, cujo mistério central era a anagogé (ascensão da alma), precedida por ações rituais de purificação com pedras, ervas e encantamentos, e dependente da anamnese de uma vox mystica (palavra-passe).
- Paralelos também existem com doutrinas gnósticas e herméticas, que se preparavam para a perigosa jornada da alma após a morte, superando arcontes hostis.
- Um fragmento de Porfírio, influenciado por Numênio, menciona o uso da amizade de um daemon para elevar a alma após a morte, mas a ausência da ideia de um daemon auxiliar em Arnóbio dificulta uma conexão direta.
- Interpretaçāo da Metáfora das “Asas da Alma”
- A menção de Arnóbio às “asas” que cresceriam após a morte (alas vobis adfuturas) é uma interpretação polêmica e literalista de uma metáfora filosófica.
- O símbolo das “asas da alma” origina-se no plato-cat:Fedro de Platão, representando a capacidade da alma de se elevar à contemplação do divino através do pensamento e do desejo amoroso.
- No médio platonismo e neoplatonismo, a metáfora foi desenvolvida:
- Albinus via as asas como o pensamento ou desejo amoroso.
- Plotino polemizou contra gnósticos (possivelmente os uiri noui) que usavam a metáfora para descrever a queda da alma.
- Proclus, no contexto da teurgia, associou as asas ao veículo luminoso (ochema) da alma, que poderia ser purificado através da arte hierática para reconquistar sua capacidade de ascensão.
- Arnóbio utilizou a expressão de forma concreta e pejorativa para desqualificar a crença de seus adversários, que certamente a entendiam em seu sentido metafórico e filosófico.
- Paralelos no Budismo: Siddhis, Ética e a Condenação da Magia
- Narrativas budistas apresentam um paradoxo: condenam milagres como o voo, ao mesmo tempo que os atribuem a Buda, bodhisattvas e grandes adeptos.
- A capacidade de voar (siddhi) é obtida através de rigorosos princípios de yoga, como concentração perfeita e meditação incessante.
- Essa capacidade pode ser perdida devido ao desejo sexual ou a um mau karma, como ilustram as histórias do Culla-palobhana-jātaka e do Samkappa-jātaka.
- Em contraste, “hereges” e magos não budistas realizam o voo através de meios mágicos que não exigem pureza ética ou intelectual, sendo, por isso, desprezados. Histórias como as do comentário ao Dhammapada e do Dhajavihetha-jātaka* mostram magos usando o voo para fins libidinosos.
- Este desprezo pela magia e a superioridade dos poderes espirituais legítimos sobre os mágicos é análogo ao encontrado na polêmica cristã de Arnóbio e das Pseudo-Clementinas contra Simão, o Mago. A história de Terebinto encontra um paralelo prévio em narrativas budistas sobre um herege jaina* que tenta e falha em simular um voo.
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