User Tools

Site Tools


mitologia:detienne:mestres-verdade:start

MESTRES DA VERDADE

DETIENNE, Marcel. Mestres da verdade na Grécia arcaica. Prefácio de Pierre Vidal-Naquet. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

  • Numa civilização científica, a ideia de Verdade evoca imediatamente as de objetividade, comunicabilidade e unidade, definindo-se em dois níveis — conformidade a princípios lógicos e conformidade ao real —, de modo que se torna inseparável das noções de demonstração, verificação e experimento.
    • A verdade aparece ao senso comum como categoria sempre existente, imutável e relativamente simples, mas tal aparência é enganosa
    • O experimento, fundamento da imagem moderna do verdadeiro, só se tornou exigência numa sociedade em que era técnica tradicional e em que a química e a física conquistaram papel de importância primária
    • Coloca-se a questão de saber se a verdade, enquanto categoria mental, não é solidária a todo um sistema de pensamento, à vida material e à vida social
    • Os indo-iranianos possuem um termo traduzido comumente como verdade — Rta —, que abrange também a oração litúrgica, a potência que assegura o retorno da aurora, a ordem estabelecida pelo culto dos deuses e o direito, conjunto de valores que faz explodir a imagem habitual da verdade
    • A Grécia impõe-se à atenção por dois motivos conectados: a estreita relação entre o pensamento grego e a razão ocidental, e o papel central que uma certa imagem da Verdade ocupa no tipo de razão elaborado a partir do século VI
    • Parmênides, Platão e Aristóteles são continuamente invocados, confrontados e discutidos na reflexão contemporânea sobre o Verdadeiro
    • Quando a reflexão filosófica se liberta do terreno do pensamento mítico que ainda dominava a cosmologia dos Jônios e enfrenta deliberadamente seus problemas próprios, organiza seu campo conceitual em torno de uma noção central — Aletheia ou a Verdade —, que passa a definir um aspecto da primeira filosofia como tipo de pensamento e do primeiro filósofo como tipo de homem
  • A Aletheia que aparece no prelúdio do poema de Parmênides não surge armada de todo ponto da mente do filósofo, mas possui longa história que, no estado atual da documentação, começa com Homero, e cujo sentido pleno não se revela pela mera sucessão cronológica das testemunhas.
    • O prólogo do poema de Parmênides apresenta uma encenação de traços míticos e religiosos — uma viagem no carro guiado pelas filhas do Sol, uma via reservada ao homem que sabe, um caminho que conduz às portas do Dia e da Noite, uma deusa que revela o verdadeiro conhecimento — em singular contraste com um pensamento filosófico tão abstrato quanto o que se funda no Ser em si
    • Esses traços de incontestável valor religioso orientam decisivamente para certos ambientes filosófico-religiosos, onde o filósofo ainda não é senão um sábio, ou mesmo um mago
    • É nesses ambientes que se encontra um tipo de homem e um tipo de pensamento voltados para a Aletheia
    • Epimenides de Creta tem o privilégio de ver a Aletheia com os próprios olhos
    • A alma do iniciado aspira a contemplar a planície de Aletheia
    • Com Epimenides e com as seitas filosófico-religiosas, a pré-história da Aletheia racional orienta-se nitidamente para formas de pensamento religioso em que essa mesma potência teve importância primária
  • A pré-história filosófica da Aletheia conduz ao sistema de pensamento do adivinho, do poeta e do rei de justiça — os três setores em que certo tipo de palavra se define pela Aletheia —, e a investigação de seu significado pré-racional implica uma série de questões fundamentais sobre as continuidades e rupturas entre pensamento mítico e pensamento racional.
    • Pergunta-se como a Aletheia se configura no pensamento mítico e qual é o estatuto da palavra no pensamento religioso
    • Investiga-se como e por que a um tipo de palavra eficaz se substitui um tipo de palavra com seus problemas específicos — relação entre a palavra e a realidade, relação entre a palavra e os outros
    • Examina-se que relação pode existir entre certas inovações na prática social do século VI e o desenvolvimento de uma reflexão organizada sobre o logos
    • Distinguem-se os valores que, mesmo sofrendo mudança de significado, continuam a impor-se de um sistema de pensamento a outro, do mito à razão, e as fraturas fundamentais que diferenciam o pensamento religioso do pensamento racional
    • A história da Aletheia oferece o terreno ideal para colocar o problema das origens religiosas de certos esquemas conceituais da filosofia mais antiga e para evidenciar um aspecto do tipo de homem que o filósofo inaugura nas cidades gregas
    • A mesma história da Aletheia permite identificar, nos próprios aspectos de continuidade que tecem uma trama entre pensamento religioso e pensamento filosófico, as mudanças de significado e as rupturas lógicas que diferenciam radicalmente as duas formas de pensamento
mitologia/detienne/mestres-verdade/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1