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3 Ilusão mítica

DETIENNE, Marcel. L'invention de la mythologie. Paris: Éditions Gallimard, 1981

1. As instruções etnográficas de Gérando, elaboradas em 1800, orientam a investigação das tradições dos povos considerados selvagens como fontes de acontecimentos históricos, pressupondo que suas memórias conservam fatos capazes de esclarecer origens, migrações e transformações sociais, cuja consciência histórica caberia aos observadores despertar.

2. Enquanto os Observadores do Homem reconhecem nos povos estudados capacidades abstratas e um passado histórico, a ciência dos mitos posterior os reduz a narrativas consideradas grosseiras e identifica nos filósofos gregos seus verdadeiros predecessores, convertendo a indignação diante do discurso mítico em etapa necessária da maturidade intelectual das civilizações.

3. A ciência mitológica oitocentista reconhece nos antigos gregos uma combinação exemplar de familiaridade com as narrativas tradicionais e reprovação de sua obscenidade, apresentando-os como iniciadores de um movimento interpretativo que a linguística e a antropologia apenas completariam.

4. A aparente continuidade entre as críticas gregas às narrativas divinas e os julgamentos morais do século XIX resulta de uma perspectiva exterior que simplifica diferenças históricas, tornando necessário suspender tanto a disputa pelos fundadores da mitologia quanto a pressuposição de uma identidade evidente do mito.

5. Uma investigação genealógica interna à cultura grega exige acompanhar a história dos termos “mito” e “mitologia” mediante análise semântica, desfazendo a ilusão de que seu significado moderno seria imediatamente reconhecível e constante desde a Antiguidade.

6. A designação dos insurgentes contra Polícrates como “gente do mito”, preservada em um fragmento de Anacreonte, constitui uma ocorrência singular em que o vocabulário da palavra se aproxima da rebelião e da guerra civil, provavelmente reproduzindo um apelido depreciativo utilizado pelo círculo do tirano.

7. Embora mûthos designe habitualmente uma palavra ou opinião e permaneça próximo de lógos, o apelido atribuído aos rebeldes sâmios transforma sua fala em manifestação subversiva e ridicularizada, definida de fora por aqueles que lhes negam participação política, sem identificar um conteúdo narrativo específico.

8. A ocorrência sâmia introduz apenas uma inflexão semântica, pois Xenófanes, Parmênides e Empédocles continuam a empregar mûthos e lógos para palavras reverentes e discursos verdadeiros, enquanto Ésquilo e Heródoto utilizam esse vocabulário também para narrativas e fábulas, contrariando a hipótese de uma oposição originária entre pensamento mítico e racional.

9. A intercambialidade arcaica entre mûthos e lógos impede reconhecer um domínio homogêneo correspondente à mitologia moderna, como evidencia a denominação hesiódica do relato das raças humanas como lógos, enquanto o uso depreciativo associado aos insurgentes encontra prolongamentos posteriores em Píndaro e Heródoto.

10. Nas composições de Píndaro, o emprego raro de “mito” não abrange as narrativas tradicionais que fundamentam o elogio verdadeiro dos vencedores, mas designa os rumores e as vozes invejosas que ameaçam sua autoridade, contrapondo a dispersão enganosa dessas falas à verdade singular do canto poético.

11. Píndaro associa os mitos às narrativas sedutoras que favorecem injustamente Ulisses em detrimento de Ájax e às versões que atribuem aos deuses o consumo da carne de Pélops, denunciando em ambos os casos rumores e artifícios poéticos que desfiguram o mérito e substituem a palavra verdadeira por aparências enganosas.

12. O mito representa, para Píndaro, a má narrativa tradicional nascida do rumor e das línguas maliciosas, cujo encantamento não procede do saber confiável do poeta e deve ser excluído dos testemunhos capazes de sustentar a verdade e o brilho autêntico do elogio.

13. Heródoto emprega “mito” apenas duas vezes, embora reúna numerosas histórias extraordinárias, pois seus relatos são normalmente denominados lógoi e as tradições religiosas recebem o nome de discursos sagrados, tornando inadequada sua identificação automática com a categoria moderna de mito.

14. O mito herodotiano não constitui um ensinamento secreto, mas uma opinião exposta à crítica, como ocorre com o relato de Busíris, cuja avaliação depende do conhecimento dos costumes religiosos egípcios e da distinção entre Héracles como antiga divindade e como herói merecedor de honras funerárias.

15. O relato segundo o qual Héracles teria sido conduzido ao sacrifício no Egito e massacrado seus captores é rejeitado como mito por contrariar as normas religiosas atribuídas aos egípcios e por apresentar a façanha inverossímil de um homem que sozinho extermina uma multidão.

16. A explicação das cheias do Nilo por sua origem no Oceano é classificada como mito porque desloca a investigação para uma realidade invisível, impossível de provar ou refutar, fazendo da referência poética a esse rio uma ficção incompatível com os critérios geográficos adotados por Heródoto.

17. A condenação do Oceano como mítico não se estende aos nomes divinos nem à organização do panteão, pois depende exclusivamente do sistema geográfico de Heródoto e designa um não saber contrário ao visível, sem conferir ao termo qualquer significado de narrativa sagrada.

18. Em Píndaro e Heródoto, “mito” ainda não designa um objeto autônomo, mas funciona como gesto verbal de exclusão de rumores, ficções ou opiniões absurdas, procedimento que também permite a Aristóteles chamar Heródoto de mitólogo ao rejeitar sua explicação da reprodução dos peixes.

19. No final do século V a.C., Tucídides estabelece uma ruptura decisiva ao transformar o discurso “mítico” em alvo de uma exclusão sistemática, destinada a garantir a autonomia do conhecimento histórico e a afastar toda forma de pensamento suspeita de cumplicidade com a tradição rejeitada.

20. Diferentemente dos logógrafos e de Heródoto, Tucídides utiliza a guerra para construir uma teoria da ação política fundada na estabilidade da natureza humana e nos conceitos de poder e conflito, orientando a verdade histórica pela utilidade de um conhecimento capaz de esclarecer decisões presentes e futuras.

21. A investigação dos tempos antigos em Tucídides subordina-se à demonstração de um modelo de crescimento do poder, articulado pelo domínio marítimo e pelos recursos financeiros, cuja sequência passa por Minos, Agamêmnon e Atenas e prepara a explicitação de seu método e de sua posição diante do mito.

22. Enquanto Plutarco admite depurar as antigas narrativas para aproximá-las da história e tolerar o que permanece inverossímil, Tucídides rejeita qualquer compromisso com o mítico e dirige sua crítica à própria tradição memorial, apesar de trabalhar em um presente com escassa documentação escrita.

23. A primeira acusação de Tucídides contra a memória aponta sua incapacidade de reproduzir discursos com exatidão e sua tendência a selecionar, interpretar e reconstruir acontecimentos conforme simpatias e circunstâncias, como demonstra a alteração de um antigo verso para fazê-lo corresponder à epidemia vivida pelos atenienses.

24. A desconfiança em relação ao ouvir dizer estende-se à credulidade dos que aceitam tradições sem exame, levando Tucídides a privilegiar o testemunho visual e a exigir o controle rigoroso de cada informação antes de sua transmissão, em uma crítica radical ao funcionamento habitual da memória coletiva.

25. O tempo transforma informações não verificadas em narrativas inacreditáveis, enquanto poetas e logógrafos agravam esse processo ao embelezar acontecimentos e organizar relatos segundo o prazer dos ouvintes, fazendo da credulidade e da busca de encanto fatores de produção do mítico.

26. A terceira acusação contra a tradição memorial identifica nas composições de poetas e logógrafos produtos de exibição destinados a públicos circunstanciais, cujas recitações exploram as fragilidades da memória e intensificam a circulação descontrolada de palavras entre a boca e o ouvido.

27. A finalidade útil da história tucididiana exige abandonar as antigas narrativas e o prazer do mito, rompendo com contemporâneos como Antíoco de Siracusa, que ainda fundamentam a credibilidade de seus escritos na tradição, pois a compreensão das recorrências humanas pressupõe outro regime de pensamento e comunicação.

28. Antes da ruptura de Tucídides, a transmissão narrativa reúne contadores locais, logógrafos que escrevem a tradição e a investigação de Heródoto, cujas viagens e observações inauguram um novo memorável centrado na glória dos confrontos entre gregos e bárbaros e na identidade compartilhada pelas cidades helênicas.

29. O memorável de Heródoto preserva vínculos profundos com a tradição ao selecionar monumentos, feitos e palavras dignos de fama, distinguindo a menção que convida ao desenvolvimento narrativo da simples indicação de algo sem valor memorial, condição à qual relega a explicação mítica do Oceano.

30. Heródoto permanece entre a oralidade e a escrita ao registrar o que ouviu, enquanto Tucídides exige uma escrita conceitual destinada a um leitor duradouro e capaz de oferecer uma verdade útil, formando uma memória protegida dos rumores, das distorções e do prazer de narrar.

31. A carta de Nícias aos atenienses exemplifica a superioridade atribuída por Tucídides à escrita, pois procura impedir que falhas de memória, limitações oratórias ou o desejo de agradar deformem as informações militares, colocando a verdade diante dos olhos em vez de subordiná-la à sedução da escuta.

32. Tucídides admite uma memória rigorosamente controlada, a serviço do conhecimento técnico e da inteligência política, enquanto o elogio de Péricles apresenta os atos atenienses como monumentos duradouros que dispensam o encantamento poético e encontram sua verdadeira preservação em uma lembrança ajustada à verdade das ações.

33. Às vésperas da derrota na Sicília, a fala reiterativa de Nícias, carregada de referências aos antepassados, às famílias e aos deuses, aparece como perda do domínio racional da ação, permitindo a Tucídides associar o discurso sobre a tradição ao palavreado desordenado e revelar nele o avesso da memória politicamente controlada.

34. A delimitação tucididiana do conhecimento histórico amplia o mito de designação ocasional para um vasto domínio de exclusão que reúne poetas, logógrafos e narrativas tradicionais, recusando compreender sua lógica interna e estabelecendo uma ordem de razões que pretende permanecer inteiramente imune à ficção e ao maravilhoso.

35. Ao afirmar sua condição de redator autorizado, Tucídides associa a prática escrita à estabilidade de um conhecimento adquirido para sempre e legitima, por sua dimensão visual, a exclusão da memória afetiva fundada na audição, encerrando as antigas narrativas em um domínio indiferenciado de ficções.

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