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TEOGONIA E ANTROPOLOGIA ÓRFICAS: TRANSMIGRAÇÃO E IMORTALIDADE DA ALMA.
ELIADE, Mircea. Historia de las creencias y las ideas religiosas (3 vols). Barcelona: Paidós, 1999.
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O pensamento religioso e filosófico do século VI a.C. gravitava em torno da tensão entre a unidade divina e a multiplicidade fenomênica, buscando nos modelos jônios e dionisíacos a compreensão da substância original e da relação entre o humano e o sagrado.
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Guthrie correlaciona a indagação religiosa sobre a parentela com a divindade ao problema filosófico da origem única do mundo.
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A união temporária com o divino nos orgia dionisíacos é superada pela lógica órfica, que postula a imortalidade da alma e substitui o aviltamento da consciência pela técnica apolínea da katharsis.
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O movimento órfico distingue-se fundamentalmente pela autoridade concedida a textos escritos e livros sagrados atribuídos a Orfeu e Museu, estabelecendo uma religiosidade baseada em escrituras.
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Platão e Eurípides mencionam a existência de obras teogônicas e manuais de purificação acessíveis ao público e aos livreiros da época.
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Aristóteles, embora cético quanto à existência histórica de Orfeu, reconhece a especificidade das teorias sobre a alma presentes nos versos a ele atribuídos.
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Suidas e Kern catalogam uma extensa produção literária que servia de base para as práticas iniciáticas.
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A diversidade de agentes vinculados ao orfismo abrangia desde autores de teogonias e ascetas até os orpheotelestai, purificadores itinerantes que Teofrasto e Platão descreviam com reservas.
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O fenômeno das pseudomorfoses e iniciações superficiais acompanha movimentos gnósticos e soteriológicos, como observado nos paralelos com os ascetas indianos pós-Upanixades ou as sociedades secretas europeias.
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A invocação do nome de Orfeu por taumaturgos e adivinhos populares atesta o prestígio e a eficácia atribuídos às técnicas soteriológicas órficas desde o século VI a.C.
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A realidade das ideias e rituais órficos subsiste independentemente das deturpações realizadas por figuras marginais ou mercantis.
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A concepção órfica da imortalidade define o corpo como soma e sêma, uma prisão ou túmulo onde a alma cumpre pena por um crime primordial antes de enfrentar o julgamento e a transmigração.
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Platão, no Crátilo e no Fédon, expõe a tese de que a existência encarnada é uma forma de morte, sendo a desincorporação o início da verdadeira vida.
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Empédocles adota a vida órfica e a metempsicose como justificativa para o vegetarianismo, vendo na carne uma estranha túnica que exila a alma da convivência com os bem-aventurados.
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A indestrutibilidade da alma implica um ciclo de renascimentos condicionado a méritos e faltas, visando a libertação final.
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O vegetarianismo órfico e pitagórico constituía uma rejeição deliberada ao sistema religioso oficial grego e aos sacrifícios cruentos instituídos pelo mito de Prometeu.
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A recusa do consumo de carne simboliza a renúncia ao mundo e a separação em relação às normas da cidade.
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Hesíodo descreve o sacrifício de Prometeu como o marco do fim da era paradisíaca e da comunhão direta entre homens e deuses.
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O retorno à dieta vegetal manifesta o desejo de expiar a falta ancestral e recuperar a beatitude primitiva.
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A salvação na vida órfica fundamenta-se em uma iniciação que revela verdades cósmicas e teosóficas, articulando uma teogonia, uma cosmogonia e uma antropologia SINGULARES.
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Ésquilo, Píndaro e Aristófanes oferecem alusões que permitem reconstruir a doutrina órfica como um sistema distinto das tradições de Homero e de Elêusis.
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O mito antropogônico serve de base para a escatologia, explicando a origem e o destino final da alma humana.
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A teogonia das Rapsódias apresenta o Tempo como gerador do ovo primordial do qual emerge Eros ou Phánês, o princípio criador que é posteriormente absorvido e regenerado por Zeus.
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Damascius e Kern preservam fragmentos dessa narrativa onde Zeus engole a criação para produzir um novo mundo sob sua regência monárquica.
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O episódio da absorção de Phánês reflete a busca filosófica pela unidade que precede a multiplicidade do universo.
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Estruturas míticas arcaicas de procedência egípcia e fenícia são detectadas na gênese do ovo cósmico e na sucessão das divindades.
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Diversas tradições órficas, incluindo o papiro de Derveni, apontam para uma tendência monista ou monoteísta onde Zeus é identificado como o começo, o meio e o fim de todas as coisas.
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O papiro de Derveni revela que nomes como Deméter, Reia e Oceano são hipóstases ou diferentes aspectos da unidade de Zeus.
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Moira é interpretada como o pensamento de Zeus que determina o vir-a-ser e a extinção de tudo o que existe.
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O lógos do mundo coincide com o lógos de Zeus, estabelecendo uma unidade existencial que ressoa no pensamento de Heráclito.
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O mito da origem da humanidade a partir das cinzas dos Titãs, embora detalhado por autores tardios como Clemente de Alexandria, possui raízes em fontes arcaicas que mencionam a natureza titânica do homem.
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Píndaro e Platão aludem a uma expiação de luto antigo e à velha natureza dos Titãs inerente à condição humana.
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Xenócrates, segundo Olimpiodoro, relacionava a doutrina do corpo-prisão ao drama de Dionísio e seus algozes.
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A antropogonia órfica estabelece que o ser humano possui uma natureza dual, composta pelo elemento titânico demoníaco e pela centelha divina dionisíaca preservada nas cinzas.
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A busca pela condição de bákkhos através de purificações e ritos visa isolar e assumir a divindade interior, eliminando a herança dos Titãs.
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A vida órfica funciona como um processo de separação da alma em relação ao cosmo e à existência profana.
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A concepção órfica introduz um elemento de esperança inédito na Grécia e na Mesopotâmia, afirmando a capacidade humana de libertar-se do mal e reintegrar-se à divindade.
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Marduk criou o homem do sangue de Kingu, mas o orfismo vê na alma uma essência divina capaz de superar a ignorância e o determinismo biológico.
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O dualismo espírito-corpo antecipa o sistema platônico, diversas gnores e as soteriologias indianas que pregam a separação entre o eu e o mundo material.
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