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mitologia:eudoro:sacrificio-mitra

Mitra

SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.

O caso do Mitra-matador-do-touro é tanto mais esclarecedor, quanto maior é o número de representações plásticas, dispersas por todo o mundo antigo, até os extremos limites que alcançaram as hostes do império romano. Nas cavernas, ordinariamente pouco extensas e profundas, o touro dominado, caído no solo, com as patas posteriores estendidas e as anteriores dobradas sob o seu tronco. Mitra, sobre o dorso da fera, levanta com a mão esquerda o focinho do animal, de modo que ele, olhando o céu, recebe o golpe mortal de um facão empunhado pela dextra do deus; a cauda do touro, em riste, termina num feixe de espigas de trigo. Em algumas variantes, as espigas brotam da ferida escancarada, em lugar do sangue. Segundo algumas páginas de Loisy (Les mystères païens et le mystère chrétien, Paris, 1930, pp. 188 e segs.) no que condizem com Lommel (citado por Jensen, Das religiose Weltbild…, pp. 89 e segs., e do próprio Lommel, em seu belo estudo «Mithra und das Stieropfer», em Paideuma, 111,1949, pp. 207 e segs.), a tradição avéstica conservou a lenda do touro imolado na origem do mundo, donde saíram as plantas, cujo sêmen recolhido e purificado pela lua dera nascimento às espécies de animais úteis. A gordura do touro, misturada ao suco do Haoma será uma beberagem de imortalidade para os eleitos. As espigas da cauda, ou que jorram do ferimento mortal, mostram que o trigo provém do touro sacrificado. O sacrifício do touro tinha, pois, tão amplo significado como o derrube do pinheiro de Atis, o sacrifício do javali em que se deve basear um de seus mitos mais importantes. E também de Átis, no tempo do sincretismo greco-romano (?), se dizia que ele representava o grão ceifado, como muito antes se disse de Osíris. Acrescentamos aqui, bem a propósito, que entre os monumentos do Egipto Antigo, não faltam representações que falam por si: do corpo de Osíris assassinado também brotam abundantes feixes de espigas de trigo. Mas o touro primordial, ninguém o comera, nem sequer o desmembraram: a vida saíra do seu corpo, pululando por toda a terra.

Demos agora a palavra a Lommel, expressa no segundo trabalho acima mencionado. «Este touro (o dos santuários rupestres) é Haoma. Se bem que em parte alguma isso esteja testemunhado, a identificação é óbvia… (p. 212). O sêmen do touro é o Haoma criador de vida e a taça que recolhe a força vital do touro moribundo é, ela própria, a lua, portanto, a lua mais uma vez, e quando ouvimos dizer que o sêmen do touro é levado para a lua, há que entender que ele já lá se encontra, quando é recolhido na taça (pp. 214 e segs.). E demais, bem corresponde à doutrina do Haoma, que só da lua nasce uma nova vida e que toda a vida animal surge com a terrena espécie taurina. A divindade do Haoma já não se conhece na religião mitríaca, greco-romana… Seguindo um método rigoroso, talvez fosse mais conveniente não sair do domínio da tradição irânica. Mas a exposição torna-se mais clara, se, mais uma vez, eu recorrer ao domínio da tradição védica… À imagem primordial do sacrifício, ou do drama ritual (heilige Handlung) dos deuses, terá de se consumar o sacrifício celebrado pelos homens. Os deuses queriam levar a cabo um sacrifício de Soma. Naturalmente. Pois a preparação do suco do Soma não é outra coisa: preparação da chuva mediante prensagem pela trovoada e filtragem através do velo lanigero das nuvens, e a chuva caindo. A chuva, libação dos deuses, derramada sobre a terra, provém, consequentemente, de um sacrifício, isto é, de um drama ritual, sacrificium dos deuses. Pela prensagem do suco obtém-se do caule do Soma, que ferido com pedras, lhe esmagam os rebentos. Portanto, Soma é assassinado. Para poder levar a termo o sacrifício, os deuses têm de matar, assassinar Soma, um de seus iguais. Fazem-no todos juntamente (como juntamente ‘os homens que viveram antes dos homens’ assassinaram Hainuwele); nenhum deles é designado por seu nome, a não ser Mitra, e precisamente porque se recusa a participar na acção. ‘Mitra’ é o amicus, e diz que, se participasse do assassínio, se tornaria ‘a-mitra’, inimicus. No entanto, os deuses conseguem a participação de Mitra no crime santo, movê-lo a praticar a benéfica matança… Tudo isto parece, superficialmente considerado, coisa inteiramente diversa do que acontece na morte do touro, pela versão da religiosidade mitríaca do mundo greco-romano… Se, agora, nos lembrarmos que Soma é, ao mesmo tempo, touro e planta… mas, especialmente, quando comparamos o mito védico com o irânico, em que o touro é morto, aquele traço contraditório adquire um pleno significado. Os bois afastar-se-iam de Mitra, porque ele matara ao mesmo tempo o Soma-planta e o Soma-touro… A ritual matança de Soma, na forma de brotos vegetais, no sacrifício védico, e o mito do assassínio do Haoma-touro, na religião mitríaca, situam-se, por conseguinte, adentro de uma vasta conexão etnológica e são como que a ariana contemplação de um mito e um culto primordial e pré-histórico (p. 216).» As últimas quatro ou cinco linhas vêm depois da citação de algumas passagens do livro de Jensen, acerca das Dema-Gottheiten.

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