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DEUS-BODE

JAMES HILLMAN. PAN AND THE NIGHTMARE. THOMPSON, CONN: SPRING PUBLICATIONS

  • A tese de Roscher é que o demônio do pesadelo na Antiguidade é o grande deus Pã em qualquer de suas formas, e que a experiência desse demônio era similar à relatada na psiquiatria e na psicologia do próprio tempo de Roscher — conclusão que permite ir além: Pã ainda está vivo, experienciado principalmente por meio de perturbações psicopatológicas.
    • Os deuses reprimidos retornam como núcleo arquetípico de complexos sintomáticos — relação que faz da mitologia uma disciplina indispensável para a formação de psicoterapeutas.
    • O monógrafo de Roscher, que vincula mitologia e patologia já no título, seria um texto básico para a psicoterapia.
  • Devido à natureza sátiro-bode-falo de Pã, tanto a ansiedade de pânico do pesadelo quanto seus aspectos eróticos podem ser subsumidos por uma única e mesma figura — não como imagem projetada ou complexo psicopatológico, mas como realidade mítica.
    • O que emerge do ensaio de Roscher é a intuição genial: o entrelaçamento, a própria unidade do mitológico e do patológico.
    • Mesmo quando Roscher recorre à visão racionalista-materialista de Borner — segundo a qual roupas de cama com pelo de bode e dispneia dariam origem à experiência de Pã —, a “explicação” do pesadelo ainda repousa sobre a epifania de Pã, que permanece como realidade vívida nas páginas de Roscher.
  • Ao discutir pânico e pesadelo em animais, Roscher revela consciência do nível instintual do pesadelo — particularmente sua sexualidade —, compartilhando a luta com o “problema sexual” que emergia naquele tempo entre seus contemporâneos psicológicos.
    • Havelock Ellis, Auguste Forel, Ivan Bloch e Freud, além de pintores e escritores do fim do século, redescobriam o bode-sátiro fálico nas camadas mais profundas do impulso humano, expressando seus insights nas configurações do mito grego — Freud com Édipo, Roscher com Pã.
    • Patricia Merivale, em seu livro, reuniu uma coleção impressionante de exemplos da devoção do século XIX a Pã — período que ela designa como o apogeu de Pã na literatura.
    • Pã foi a figura grega favorita na poesia inglesa, superando seus rivais mais próximos — Helena, Orfeu e Perséfone — em aparições estatísticas em proporção de quase dois para um.
  • O mito grego situou Pã como deus da natureza, mas o significado desse termo deve ser discernido a partir das qualidades associadas a Pã — sua descrição, sua aparição nas imagens, seu estilo de comportamento —, pois a palavra “natureza” foi analisada em pelo menos cinquenta noções diferentes.
    • A paisagem original de Pã, a Arcádia, é ao mesmo tempo uma localização física e psíquica — uma paisagem interior, uma metáfora.
    • As “cavernas obscuras” onde Pã podia ser encontrado — conforme o “Hino Órfico a Pã” — foram elaboradas pelos Neoplatônicos como os recessos materiais onde o impulso reside, os buracos escuros da psique de onde surgem o desejo e o pânico.
  • O habitat de Pã na Antiguidade — assim como o de suas formas romanas posteriores, Fauno e Silvano, e de seus companheiros — eram sempre vales, grutas, águas, bosques e ermos, nunca os assentamentos murados e cultivados da civilização.
    • Era um deus dos pastores, dos pescadores e caçadores, um errante sem sequer a estabilidade fornecida por uma genealogia definida — os lexicógrafos do mito registram pelo menos vinte paternidades possíveis de Pã.
    • Entre os possíveis pais figuram Zeus, Urano, Cronos, Apolo, Odisseu, Hermes ou a multidão de pretendentes de Penélope — espírito que pode surgir de quase qualquer lugar, produto de muitos movimentos arquetípicos ou por geração espontânea.
    • Uma tradição o tem como filho de Éter, substância tênue invisível mas onipresente, palavra que originalmente designava o céu luminoso ou o tempo atmosférico associado à hora do meio-dia de Pã.
    • Apolodoro (Frag. 44b) e Sérvio (Sobre as Geórgicas de Virgílio) optaram por não lhe atribuir paternidade alguma.
  • A linhagem materna de Pã é obscura — o relato principal, do “Hino Homérico a Pã” e retomado por Kerényi em Os Deuses dos Gregos, narra que Pã foi abandonado ao nascer por sua mãe ninfa dos bosques, mas envolto na pele de uma lebre por seu pai Hermes e levado ao Olimpo, onde foi recebido com alegria por todos os deuses — especialmente por Dioniso.
    • Envolto na pele da lebre — animal sagrado para Afrodite, Eros, o mundo báquico e a lua —, Pã recebe a investidura dessas associações e é iniciado nesse universo de consciência.
    • Hermes como patrono confere aspectos herméticos às ações de Pã — elas são modos de comunicação, conexões portadoras de sentido.
    • O prazer de Dioniso expressa a simpatia entre eles — esses deuses formam o agrupamento arquetípico no qual Pã se encaixa e onde mais se pode esperá-lo constelado.
  • Os mitologemas — “a criança abandonada”, “envolto em pele animal” e “aprazível aos deuses” — merecem longa ponderação, pois sua exegese, que advém de viver seus significados, revela muito sobre o comportamento semelhante ao de Pã em momentos de fraqueza e perdição, bem como sobre a luxuria erótica.
    • O que começa suave torna-se áspero — sob o pelo do coelho se oculta o bode; contudo os deuses sorriem para a criança de patas de bode e a acolhem como presente ao divino, cada um encontrando nela uma afinidade.
  • Como deus de toda a natureza, Pã personifica para a consciência aquilo que é total ou apenas natural — comportamento em seu estado mais ligado à natureza, transcendente ao jugo humano dos propósitos, impessoal, objetivo, implacável.
    • A causa desse comportamento é obscura e surge subitamente, de modo espontâneo — assim como a genealogia de Pã é obscura, assim o é a origem do instinto.
    • Definir o instinto como mecanismo inato de liberação, ou falar dele como espírito ctônico e impulso da natureza, é transpor para conceitos psicológicos obscuros as experiências obscuras que outrora podiam ser atribuídas a Pã.
  • A experiência de Pã está além do controle do sujeito volitivo e de sua psicologia do ego — mesmo onde a vontade é mais disciplinada e o ego mais intencional, como nos homens em batalha, Pã aparece e determina o resultado do combate por meio do pânico.
    • Na Antiguidade, Pã apareceu duas vezes — em Maratona e contra os Celtas em 277 a.C. — e os gregos obtiveram a vitória; ele foi comemorado com Nike.
    • A fuga de pânico é uma reação protetora, mesmo que em sua cegueira o resultado possa ser a morte em massa.
    • O aspecto protetor da natureza que aparece em Pã manifesta-se em sua afinidade pelos pastores, na raiz da palavra que dá origem a “pastor”, “pastoral” e pabulum (“nutrição”), e em seu papel no cortejo de Dioniso, onde carrega o escudo de Dioniso na marcha rumo à Índia.
  • No conto de Eros e Psique narrado por Apuleio, Pã protege Psique do suicídio — a alma desolada, sem o amor, sem o auxílio divino, entra em pânico, lança-se no rio que a recusa, e nesse mesmo momento Pã aparece com seu lado reflexivo, Eco, e traz à alma algumas verdades naturais.
    • Pã é ao mesmo tempo destruidor e preservador — quando se entra em pânico, nunca se pode saber se não é o primeiro movimento da natureza que, se for possível ouvir o eco da reflexão, produzirá uma nova compreensão da natureza.
  • Como afirma Reinhard Herbig em seu monógrafo, Pã é sempre um bode e o bode é sempre uma força divina — Pã não é “representado” por um bode, nem o bode é “sagrado” para Pã; antes, Pã é o deus-bode, e essa configuração de natureza animal distingue a natureza ao personificá-la como algo peludo, fálico, errante e caprino.
    • A natureza como Pã não é mais um espetáculo idílico para os olhos — é quente e próxima, com seu cheiro animal e sua ereção, como se a força arbitrária e caprichosa da natureza e seu mistério inquietante se condensassem nessa única figura.
  • A “união de deus e bode” — expressão retirada de O Nascimento da Tragédia de Nietzsche — significou para o mundo pós-nietzschiano o modo dionisíaco de consciência e a loucura final de seu promulgador.
    • Jung escreve que, na biografia de Nietzsche, há prova irrefutável de que o deus que ele originalmente pretendia era na verdade Wotan — portanto, ao compreender a união de deus e bode, é preciso evitar confundi-la com o Dioniso de Nietzsche, em cujo fundo estava o germânico Wotan.
    • Nietzsche penetra um enigma da existência caprina ao falar do horror da natureza e do horror da existência individual — o bode solitário é ao mesmo tempo a Unidade e a solidão, uma existência nômade e amaldiçoada em lugares vazios, seu apetite os tornando ainda mais vazios, e sua canção sendo a “tragédia”.
    • Esse não é o Pã gordo e jovial de algumas estátuas, nem o flautista élfico chamado Peter, nem o “eu emocional profundo” do Pã de D. H. Lawrence — mas o Pã do Hino Homérico, chamado na tradução renascentista de Chapman de “magro e sem amor”.
  • A luxúria de Pã é secundária, assim como sua fertilidade — ambas surgem do anseio seco da natureza solitária, daquele que é eternamente uma criança abandonada e que, em inúmeros acasalamentos, nunca se aparea de verdade, nunca troca plenamente o casco fendido pela pata de coelho.
    • Pã é chamado de “azarado no amor”, e os humanos sentem sua tristeza na melancolia da natureza — há um tom fúnebre nas flautas da natureza ao qual se recua em momentos românticos, anelante, solitário e desesperado.
    • Pã agrada aos deuses, mas nunca chega ao Olimpo; ele se une, mas nunca desposa; faz música, mas as musas favorecem Apolo.
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