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MEDO

JAMES HILLMAN. PAN AND THE NIGHTMARE. THOMPSON, CONN: SPRING PUBLICATIONS

  • O medo, considerado um afeto primário desde São Tomás e Descartes e confirmado por fisiologistas e etólogos — entre eles Cannon, que o inclui entre as quatro reações fundamentais, e Lorenz, que o toma como um dos quatro complexos básicos de impulso —, é abordado pela tradição ocidental de modo negativo, como problema moral a ser superado pela coragem.
    • O encontro com o medo desempenha papel central nas cerimônias de iniciação — o medo deve ser enfrentado e gerenciado pelo herói em seu caminho para a virilidade.
    • Tão arraigada é a abordagem moral dos eventos psicológicos que a psicologia teve de recorrer à fisiologia e ao estudo dos animais para encontrar um caminho livre de moralismos.
  • A fisiologia reconhece a função protetora do medo, mas a emoção do medo é geralmente considerada um acompanhamento dos padrões instintuais de fuga ou esses mesmos padrões retidos no organismo — inibição do comportamento motor com excitação aumentada e prolongada do sistema nervoso vegetativo, o que se chama “ansiedade”.
    • Há dois rostos do pânico: vivido em relação a um estímulo, chama-se medo; retido sem estímulo conhecido, chama-se ansiedade — o medo tem um objeto; a ansiedade não tem nenhum.
    • Tanto o medo em pânico quanto a ansiedade em pânico podem ser fatais — relatórios psicanalíticos e psicossomáticos, pesquisas sobre sonhos e estudos antropológicos — como os sobre a morte vodu — fornecem exemplos das consequências fatais do pânico.
  • O sonho de ansiedade pode ser distinguido do pesadelo no sentido clássico — o pesadelo clássico é uma visita terrível de um demônio que oprime o sonhador até a paralisia, corta-lhe o fôlego e só libera com o movimento; o sonho de ansiedade é menos preciso, sem demônio nem dispneia, mas com a mesma inibição do movimento.
    • Um protótipo literário do sonho de ansiedade, enfatizando uma peculiaridade inibida do movimento, ocorre na Ilíada — Aquiles na perseguição de Heitor: “Como num sonho um homem não é capaz de seguir aquele que foge dele, nem o fugitivo consegue escapar, nem o outro persegui-lo, assim ele não conseguia alcançá-lo em sua velocidade, nem o outro se desvencilhar.”
    • Na perspectiva positivista e behaviorista, a ansiedade permanece uma reação substituta, secundária e inadequada.
  • A filosofia existencial contemporânea confere à ansiedade, ao terror ou ao Angst uma interpretação mais intencional e opressiva — o Angst revela a situação ontológica fundamental do homem, sua conexão com o não-ser, de modo que todo medo não é apenas terror da morte, mas do nada sobre o qual todo ser se funda.
    • O Budismo vai ainda mais longe: o medo não é apenas um fenômeno subjetivo e humano — todo o mundo está em medo, árvores, pedras, tudo — e o Buda é o redentor do mundo do medo.
    • Daí a significação do Abhaya mudra — o gesto de ausência de medo —, que não é meramente um sinal de conforto, mas de total redenção do mundo de seu “medo e tremor”, de sua sujeição ao Angst.
    • O amor perfeito do Buda, nas palavras dos Evangelhos, “expulsa o medo”.
  • O mundo da natureza — o mundo de Pã — está num estado contínuo de pânico subliminar, assim como está num estado contínuo de excitação sexual subliminar, e ambos pertencem à mesma constelação.
    • Como o mundo é feito por Eros, mantido unido por essa força cosmogônica e carregado com o desejo libidinal que é Pã — visão arquetípica apresentada mais recentemente por Wilhelm Reich —, seu outro lado, o pânico, reconhecido pelo Buda, pertence à mesma constelação.
  • Brinkmann apontou para a falência de todas as teorias do pânico que tentam tratá-lo sociológica, psicológica ou historicamente, e não em seus próprios termos — os termos corretos, diz Brinkmann, são mitológicos.
    • É preciso seguir o caminho aberto por Nietzsche, cuja investigação dos tipos de consciência e comportamento por meio de Apolo e Dioniso pode ser estendida a Pã — o pânico deixaria então de ser visto como mecanismo de defesa fisiológico ou reação inadequada, e passaria a ser visto como a resposta certa ao numinoso.
    • A fuga precipitada torna-se então uma irrupção para fora da segurança protegida em direção à “estranha vastidão da existência elementar”.
    • O pânico sempre existirá porque está enraizado na natureza humana como tal — seu manejo deve seguir um procedimento ritual e mitológico de gestos e música.
  • A enumeração de pânicos animais feita por Roscher remove a discussão do nível exclusivamente humano e psicológico para hipóteses mais universais, como as oferecidas pelos existencialistas, pelos budistas e pela psicologia arquetípica exibida em Pã.
    • Se o terror de Pã é uma forma de infecção psíquica que ataca tanto humanos quanto animais, trata-se de um evento arquetípico que transcende a psique exclusivamente humana, situando o pânico do pesadelo num âmbito profundo de experiência instintual compartilhado pelo menos com os animais.
    • Se o pânico nos animais não é substancialmente diferente do pânico nos humanos, a hipótese de Jones sobre o pesadelo não é suficiente — nem mesmo o freudiano mais ousado estendeu a universalidade do complexo de Édipo e do desejo/medo de incesto reprimido além do pastor até as ovelhas.
  • A hipótese de Freud e Jones explica o pesadelo intrapsiquicamente — o desejo reprimido retorna como ansiedade demoníaca —, mas Roscher abre o caminho para uma perspectiva mitológica: o demônio instiga tanto o desejo quanto a ansiedade, e eles não se convertem um no outro por meio de censores freudianos.
    • A fórmula de Jones: “A intensidade do medo é proporcional à culpa dos desejos incestuosos reprimidos que buscam gratificação imaginária, cujo equivalente físico é um orgasmo — frequentemente provocado por masturbação involuntária. Se o desejo não estivesse em estado de repressão, não haveria medo, e o resultado seria um simples sonho erótico.”
    • Dessa fórmula se conclui que o pesadelo é doentio, resultado de uma psique defeituosa — numa paródia reichiana de uma ideia mais antiga: o orgasmo perfeito expulsa o medo.
  • A perspectiva elaborada neste ensaio — com foco em Pã e seu papel no pesadelo — toma muitos dos mesmos fenômenos relatados por Jones, mas os vê como evidência para outra hipótese: a ansiedade não é resultado secundário da sexualidade subliminar; ansiedade e desejo são núcleos gêmeos do arquétipo de Pã, nenhum sendo primário.
    • O próprio Jones traz evidência de apoio para a ideia de que ansiedade e sexualidade aparecem juntas — citando Börner: “Às vezes sentimentos voluptuosos estão acoplados aos de Angst; especialmente com mulheres, que frequentemente acreditam que o demônio noturno copulou com elas. Os homens têm sensações análogas pela pressão exercida nos genitais, seguida na maioria das vezes de emissão seminal.”
    • Jones cita também: “É importante lembrar com que frequência aparece um traço voluptuoso nos ataques de Angst no estado de vigília; com efeito, isso frequentemente chega à emissão real durante o ataque — fenômeno ao qual Loewenfeld chamou a atenção no caso dos homens, e Janet no caso das mulheres.”
    • As investigações laboratoriais sobre ereções penianas durante o sono, em vez de simplificar a compreensão da relação entre sexualidade e sonho, convenceram todos de que o campo é mais complexo do que fora vislumbrado por Jones e Freud.
  • Ansiedade e sexualidade são palavras que cobrem uma gama imensamente sofisticada de experiências — experiências que não são apenas ações ou reações, mas também metáforas para situações de consciência governadas por fantasias arquetípicas.
    • Um desses padrões metafóricos é fornecido por Pã — ao situar a ansiedade, o medo ou o pânico contra esse fundo, não se resolve o questionável “o que é o medo?”, mas se ganha discernimento sobre os tipos de experiência para os quais se usa essa palavra.
  • Jung, em seus Seminários, discute o problema do medo, encontrando nele um caminho legítimo a seguir — não como o Herói que encontra o Dragão para superá-lo, mas como sabedoria do corpo que fornece uma conexão com a natureza igual à da fome, da sexualidade ou da agressão.
    • Quando Jung disse que é preciso aprender a temer novamente, retomou o fio do Antigo Testamento — “o princípio da sabedoria é o temor do Senhor” — e lhe deu uma nova torção: a sabedoria é agora a do corpo que entra em contato com o divino, como o pânico com Pã.
    • Ser sem medo, sem ansiedades, sem terror, invulnerável ao pânico, significaria perda do instinto, perda da conexão com Pã — os que não temem têm seus escudos, construções que previnem emergências.
  • Em termos de fórmula análoga à de Jones: o pânico e a paranoia podem mostrar uma proporção inversa — quanto mais suscetível ao pânico instintual, menos eficazes os sistemas paranoicos.
    • Primeiro corolário: a dissolução de qualquer sistema paranoico libera pânico.
    • Segundo corolário: as afirmações psicanalíticas sobre paranoia e o medo da homossexualidade podem ser expandidas para além do erótico, incluindo o outro núcleo implícito do arquétipo de Pã — o pânico.
    • Terceiro corolário: qualquer complexo que provoque pânico não foi integrado numa construção e não deveria ser — portanto é a via regia para desmantelar as defesas paranoicas, o caminho terapêutico do medo que conduz para fora dos muros da cidade e para o campo aberto — o país de Pã.
  • O pânico, especialmente à noite, quando a cidadela escurece e o ego heroico dorme, é uma participação mística direta na natureza — uma experiência fundamental, até ontológica, do mundo como vivo e em terror.
    • Os objetos tornam-se sujeitos; eles se movem com vida enquanto o próprio ser está paralisado pelo medo — quando a existência é experienciada por meio dos níveis instintuais de medo, agressão, fome ou sexualidade, as imagens ganham vida própria e compulsiva.
    • O imaginal nunca é mais vívido do que quando se está conectado com ele instintualmente — o mundo vivo é, naturalmente, animismo; que esse mundo vivo seja divino e imaginalizado por diferentes deuses com atributos e características é o panteísmo politeísta.
    • Usando o termo de Whitehead, “Natureza Viva” significa Pã — e o pânico abre de par em par uma porta para essa realidade.
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