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Édipo

KERÉNYI, Karl; HILLMAN, James. Édipo e variações. Tradução: Edgar Orth; Tradução: Gustavo Barcellos. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2025.

O conteúdo da tragédia “Édipo Rei”, de Sófocles, provocou um movimento espiritual de nova autocompreensão chamado psicanálise, a partir do impacto que a peça causou em Freud.

  • A familiaridade do arquétipo de Édipo no mundo moderno decorre da forte impressão que a tragédia sofocliana exerceu sobre Freud, que nela encontrou o arquétipo do procedimento analítico.
  • O efeito da tragédia começou sob uma única pessoa, Freud, que acolheu ou redescobriu em si a obra, sendo difícil traçar uma linha divisória entre acolhimento e descoberta.

As versões da lenda de Édipo anteriores a Sófocles apresentam o matriciamento matriarcal do poder em Tebas e a figura do herói como um ser colérico e de natureza fálica, associado à terra.

  • Laio escolheu Jocasta como esposa, e por meio dela seu irmão Creonte exerceu domínio sobre Tebas, pois a lenda indica que Jocasta era a fonte do poder real em relações matriarcais.
  • O oráculo de Delfos preveniu Laio de que Tebas seria salva se ele morresse sem filhos, mas, vencido pela paixão e pelo vinho, gerou Édipo, que mandou expor após o nascimento.
  • O nome Édipo significa “Pé-inchado”, e uma explicação arcaica para o nome o liga a um ser sobremaneira fálico, um dáctilo nascido da terra, filho da grande mãe dos deuses, que nunca temeu o incesto.
  • Na versão mais antiga da história, após matar Laio, Édipo fugiu para as montanhas, apossou-se da mãe como presa e, por meio dela, conseguiu o domínio sobre Tebas, um acontecimento possível no tempo do matriarcado.
  • Homero conhecia um desfecho no qual a mãe, Epicasta, se enforcou por vergonha, mas Édipo continuou a reinar, entrou em batalhas e recebeu honras, sem ter se vazado os olhos.

Sófocles, em “Édipo Rei”, utilizou a ironia trágica para mostrar que o homem régio, que crê estar tudo em ordem consigo, sofre de uma desordem inconsciente, sendo ele próprio o doente que precisa de cura.

  • O espectador sabe desde o início o que as personagens enredadas no destino ignoram, como quando Édipo diz a todos que estão doentes, menos ele, numa famosa ironia trágica.
  • O coro canta que ninguém é feliz além da aparência e que, após a aparência, vem o fim de tudo, sendo Apolo aquele que destrói a aparência.
  • Após se cegar, Édipo grita que foi Apolo quem lhe impôs o sofrimento, proclamando a sabedoria da religião de Apolo de que o homem é um sonho de sombra.
  • A palavra “doente”, pronunciada no começo e no fim da tragédia, aponta para um sofrimento humano que Freud buscava constantemente, interpretando o pecado sem saber do herói como a expressão da natureza inconsciente de sua tendência criminosa.

Sófocles, em “Édipo em Colona”, transformou o assassino do pai e marido da mãe em um herói benéfico que, ao final da vida, é acolhido no seio da deusa-mãe dos ínferos.

  • O túmulo de herói de Édipo começou na Beócia, onde foi enterrado secretamente em Eteono, na sagrada circunscrição de Deméter, a grande mãe da terra.
  • O poeta presenteou seu demo de nascimento, Colona, com a tragédia que mostra o cego Édipo chegando à colina consagrada a Deméter e passando para o reino dos mortos, em uma obra visionária escrita aos noventa anos.
  • O emissário informa que um chamado vindo dos deuses conduz Édipo, e o cego já vê Hermes, o guia, e a rainha Perséfone ao gritar “Este é o caminho!”, numa cena essencial para a compreensão da essência da tragédia grega.
  • Versos pessimistas da peça afirmam que não ter nascido supera tudo, mas a canção deixa de ser negativa ao se referir à entrada junto aos bondosos deuses do mundo inferior e à senhora maternal do reino dos mortos.

Freud interpretou “Édipo Rei” como uma obra cujo efeito se baseia no reconhecimento do complexo de Édipo pelo espectador, mas Eurípides, em “As Fenícias”, e Sêneca, em seu “Édipo”, ofereceram tratamentos distintos do tema do incesto.

  • Freud acreditava que o espectador reage ao sentido oculto da saga como se descobrisse em si, pela autoanálise, o complexo de Édipo, embora reconhecesse que a tragédia é no fundo uma peça imoral que suprime a responsabilidade moral.
  • Eurípides, na tragédia perdida “Édipo”, dividiu a descoberta da identidade em duas fases e trouxe duas mulheres de origem régia para o palco, sendo que Jocasta, desconhecendo que o cego Édipo é seu filho, quer segui-lo em total submissão em um dueto do matrimônio perfeito.
  • Sêneca tomou “Édipo Rei” de Sófocles para uma reprodução latina, substituindo a análise trágica por um juramento de morte e pela violenta abertura do mundo dos ínferos, onde Laio é conjurado a sair do reino dos mortos e revela todo o segredo.

As adaptações francesas de Corneille e Voltaire diluíram a tensão espiritual da tragédia sofocliana ao introduzir o amor como tema e ao dar um tratamento político ao enredo, afastando-se do efeito freudiano baseado no incesto.

  • Corneille teve dificuldade para levar seu “Édipo” aos palcos franceses porque os atores não encontravam amor suficiente na peça, e ele mesmo introduziu o amoroso Teseu e sua amante Dirce, inventada como filha de Laio e Jocasta.
  • Voltaire foi criticado por misturar o amor ao terrível do grande tema, mas tornou Édipo atual ao expandir o elemento político, de modo que o espectador acreditava identificar referências a governantes conhecidos da época.
  • Voltaire colocou na boca de Jocasta, destruída pelo destino de Édipo, a frase “Fiz corar os deuses que me forçaram ao crime”, algo que Freud esperava de Eurípides como um pioneiro do pensar.

Platen, em sua comédia “O Édipo romântico”, realizou uma defesa objetiva da insuperabilidade clássica de “Édipo Rei” por meio de uma reductio ad absurdum do caminho trilhado por Corneille e Sêneca.

  • A tragicomédia de Platen começa com o “amor” francês do par Diágoras e Zelinda (esta sendo Peribeia, a mãe adotiva de Édipo), e o relacionamento do par com Teseu e Dirce e com Filoctetes e Jocasta contribui para a comicidade.
  • Na parábase da comédia, Platen introduz uma fala do coro sobre a “Lüneburger Heide” como símbolo da Alemanha, cuja raça de ovelhas oferece um autêntico coro aristofânico de animais.
  • A obra contém uma advertência de que a arte trágica suportaria somente a pura humanidade das paixões, e Platen se apresenta como um autêntico discípulo de Sófocles e aluno de Aristófanes.
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