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Hermes

KERÉNYI, Károly. Miti e misteri. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.

1. O que é problemático na ideia Hermes
  • A busca pela essência de Hermes para os gregos remete a uma realidade que transcende o psíquico e se manifesta como uma personalidade definida desde Homero.
    • Realidade psíquica e transcendente.
    • Personalidade delineada a partir de Homero.
    • Significado próprio que determina o caráter do deus.
    • Superação da visão moderna de Hermes como um simples nada ou força amorfa.
  • A origem de um deus a partir de elementos considerados baixos ou antiespirituais exige uma compreensão da sublimidade imanente na ideia helênica de divindade.
    • Walter Friedrich Otto e a interpretação moderna dos deuses gregos.
    • Conciliação de traços antigos com a natureza divina.
    • Caráter anticientífico de conjecturas que ignoram a sublimidade.
  • A figura de Hermes revelada na epopeia homérica e conservada em épocas posteriores representa um mundo integral animado e dominado pelo deus.
    • Qualquer coisa que se pensasse de Hermes nos tempos antiquíssimos — lemos na conclusão daquela excelente análise de Hermes —, num determinado momento uma luz deve ter atingido os olhos do profundo, para que estes reconhecessem um mundo no deus e o deus no mundo inteiro. Esta é a origem da figura de Hermes, tal como Homero a conhecia e as épocas posteriores a conservavam.
    • Esfera organizada por uma lógica particular.
    • Mundo das vitórias e dos favores divinos que não exclui as perdas.
    • Espírito de uma formação da existência que conhece o ganho e o desperdício.
  • A lógica particular de Hermes organiza uma forma fundamental da realidade viva que se distingue das imagens primitivas das colunas quadrangulares itifálicas.
    • Ermas quadrangulares e itifálicas.
    • Estátuas de Priapo.
    • Carateres titânicos e espectrais.
    • Unidade da ação e significado da figura como ideia.
  • A totalidade da figura divina grega pode apresentar aspectos inquietantes e contraditórios que desafiam as compreensões históricas e filosóficas imediatas.
    • Não sou um livro inventado, — Sou um deus com toda a sua contradição.
    • Caráter não familiar e perturbador da totalidade do deus.
2. Hermes na Ilíada
  • A poesia homérica fornece as bases para o entendimento de Hermes, sendo as omissões na Ilíada justificadas pela distância entre o mundo heroico e a esfera do deus.
    • Ilíada, Odisseia e Hino Homérico a Hermes.
    • Razões para o silêncio sobre determinados traços do deus.
    • Diferença entre o mundo do poema da viagem e o mundo heroico.
  • O mundo da Ilíada é dominado pelo destino irreparável de heróis como Aquiles, onde a morte é um fim autônomo sem a presença de Hermes como condutor de almas.
    • Aquiles e o destino de vida breve.
    • Ulisses no mundo da Odisseia.
    • Ker particular como demônio fatal do herói.
    • Patroclo e Heitor como vítimas da coragem heroica.
  • A ausência de Hermes como guia de almas na Ilíada sugere que, em sua esfera, a morte possui outro aspecto ligado a saídas vitais e transgressões de limites.
    • Morte como antípoda conclusivo da vida heroica.
    • Transgressão clandestina de limites e leis.
    • Procriação e parto como recursos da vida.
  • Hermes manifesta—se na Ilíada como doador de riqueza e procriação em contextos vitais, mantendo—se alheio aos eventos de caráter puramente heroico.
    • Forbas e a riqueza em rebanhos.
    • Polimele, filha de Filas, e o nascimento de Eudoro.
    • Sopro vital de fecundidade em meio à atmosfera de fatalidade.
  • A arte de Hermes na Ilíada caracteriza—se pelo expediente não heroico e pela habilidade no furto, como demonstrado no resgate de Ares.
    • Argifonte como epíteto que recorda o fato titânico da morte de Argos.
    • Espada de foice semelhante à de Crono e à de Perseu contra Medusa.
    • Indolor como tradução para o epíteto akaketa.
    • Leto, Ártemis e Zeus em relação aos conflitos divinos.
    • Furto de Ares da prisão.
  • A função de acompanhante de Hermes revela—se no último canto da Ilíada, quando ele guia Príamo de forma furtiva e invisível.
    • Zeus, Príamo e o corpo de Heitor.
    • Íris como mensageira habitual em oposição a Hermes acompanhante.
    • Hermes como aquele que gosta de se associar a um homem e ouvi—lo.
    • Adormecimento dos guardas do campo grego.
  • Os atributos de guia sedutor e mortífero presentes no acompanhante divino da Ilíada preparam a transição para sua função de psicopompo confirmada na Odisseia.
    • Sapatos de ouro que levam por terra e mar.
    • Varinha mágica para adormecer e despertar.
    • Psicopompo doce e sedutor.
3. Hermes na Odisseia
  • O início do último canto da Odisseia apresenta Hermes evocando as almas dos pretendentes para conduzi—las ao mundo dos mortos.
    • Entretanto Hermes, o numen cilênio, os espíritos dos pretendentes — chamava para fora dos membros. Apertava no punho a vara — áurea, bela, com que dos homens os olhos adormece, — aqueles que quer, e outros desperta que jazem no sono. — Conduzia—os com esta, seguiam—no estalando. — Como quando morcegos no cavo de profunda caverna — estalam esvoaçando quando um da rocha cai, — de onde em cadeia pendiam, e unidos se mantêm em enxame: — assim estalando aquelas se moviam; e a todas era guia — o salvador Hermes, pelos caminhos de sombra velados. — Chegaram junto aos rios do Oceano, junto à pedra — Lêucade, junto às portas do Sol, e ao povo dos sonhos — chegaram; e logo dali vieram ao prado de asfódelo, — onde habitam as almas, aparências de gentes defuntas.
  • A evocação de Hermes atua sobre almas de mortos não sepultados, utilizando a vara para um despertar que sugere uma via de saída da própria morte.
    • Morte repentina dos pretendentes como abate de animais.
    • Significado de despertar como saída da morte.
    • Adormecer e despertar com sentidos diversos do sono comum.
  • O brilho dourado da vara de Hermes destaca sua essência divina em contraste com a ausência de essência das almas que ele guia sem lhes causar dor.
    • Horácio e a vara terrível que reúne o rebanho negro.
    • Almas beatas reconduzidas à sede leda pela vara áurea.
    • Epíteto indolor aplicado ao guia nos caminhos dos espectros.
    • Atenuação da vingança de Ulisses pela presença divina.
  • A Odisseia caracteriza—se como o poema da vida permeada por uma morte contínua e onipresente, onde o herói Ulisses permanece em suspensão sobre abismos.
    • Coincidência dos opostos entre vida e morte.
    • Penélope e Telêmaco em estado de suspensão.
    • Mundo oscilante com contato contínuo com o Hades.
  • A condição do viajante no mundo de Hermes difere da do caminhante, baseando—se na volatilização e na abertura ilimitada para o movimento.
    • Viajante como alguém que se volatiliza e foge incessantemente.
    • Companheiros de viagem como almas nuas.
    • Viagem de núpcias como rapto hermético.
    • Ilhas e grutas de Circe e Calipso como abismos de amores.
  • O mundo do caminho e dos trilhos marítimos constitui o reino de Hermes, onde a mobilidade é constante mesmo na aparente imobilidade.
    • Hermes como enodios e hodios encontrado em todos os caminhos.
    • Estátua de bronze de Ercolano que retrata o deus prestes a passar.
    • Hermes como mensageiro dos deuses.
  • O papel de mensageiro divino torna—se possível quando os limites entre vida e morte se tornam fluidos e volatilizam—se como na atmosfera da Odisseia.
    • Hécate como detentora das chaves do inferno e mensageira.
    • Íris e a distância do fenômeno celeste do arco—íris.
    • Mensagem de Píndaro como filha de Hermes.
    • Egisto e o aviso divino.
  • A presença de Hermes na ilha de Circe manifesta sua natureza de salvador e conhecedor de artes mágicas diante de situações espectrais.
    • Sobre a Piéria chegado, mergulhou do éter no ponto — sobre as cristas das ondas lançando—se, igual à gaivota — que atrás dos peixes, pelos horríveis redemoinhos do mar infinitos — se lança, e imerge na salmoura suas asas densas: — semelhante àquela, corria sobre os vórtices inumeráveis Hermes.
    • Entrega da erva moly contra a poção mágica.
  • O parentesco entre Ulisses e Hermes por meio de Autólico estabelece uma linhagem marcada pela astúcia, pelo perjúrio e pela capacidade de transformação.
    • Autólico, avô de Ulisses e filho de Hermes.
    • Arte do perjúrio e invisibilidade de Autólico.
    • Ulisses como o muito versado.
    • Eumeu e o reconhecimento de Hermes como doador de graça e glória.
4. Hermes no Hino Homérico
  • O Hino Homérico a Hermes aprofunda o caráter titânico e preolímpico do deus, integrando o mito do nascimento na ordem clássica.
    • Musa, canta Hermes, de Júpiter filho e de Maia, — ele que Cilene e a Arcádia nutriz de rebanhos tutela, — dos Imortais arauto.
    • Arcádia e monte Cilene como locais de culto.
    • Epíteto eriounios relacionado à velocidade da morte e ao deus ctônico.
  • O nascimento de Hermes decorre de um amor furtivo entre Zeus e a titânida Maia no segredo de uma gruta profunda.
    • Maia como ninfa de belos cachos e filha de Atlas.
    • Elementos do tornar—se: amor furtivo, noite profunda, sono e segredo.
    • Perspicácia de Zeus manifesta no projeto divinamente cumprido.
  • A manifestação de Hermes ocorre de forma gradual, revelando um deus versátil, ladrão de bois e senhor dos sonhos.
    • Um criancinha deu à luz versátil, fino de mente, — pronto para roubar, ladrão de bois, senhor dos sonhos, — afeito a espiar de noite diante das portas.
    • Epíteto polytropos compartilhado com Ulisses.
    • Pyledokos como aquele que espreita na porta durante a noite.
  • O desenvolvimento das gestas de Hermes segue uma cronologia sagrada que vincula o nascimento, a invenção da lira e o roubo dos bois.
    • Nascido ao amanhecer, ao meio—dia já tocou a lira, — de tarde roubou os bois de Apolo que longe fere — naquele quarto dia do mês em que a poderosa Maia o tinha parido.
    • Conexão estável com o número quatro e o mês Hermaios em Argos.
    • Forma quadrada das ermas e o número quadratus segundo Marciano Capela.
  • O encontro de Hermes com a tartaruga exemplifica a transformação de um acaso em um ganho espirituoso e artístico.
    • Salto para fora do berço.
    • Encontro com a tartaruga como sinal de imensa felicidade e riqueza.
    • Conceito de hermaion como achado afortunado.
    • Diferença entre o acaso e a obra hermética.
    • Hermes, Hércules e o mito do tesouro encontrado pelo estúpido.
  • A transformação da tartaruga em lira revela a ironia divina e a crueldade titânica subjacentes à criação da música.
    • De Júpiter o benevolente filho — olhou—a, riu, e estas palavras logo disse: — Auspício és para mim proveitoso; e eu não te desprezo. — Salve, agradável objeto, que fausto me apareces, ó dos bailes — guia, aos banquetes companheira. De onde vens, ó suave — brinquedo, carapaça versicolor, montanhesa tartaruga? — Agora te pego, para casa te levo, e te ponho a serviço, — não te descuido: serás a coisa que primeiro me ajude. — É melhor estar em casa, nocivo é ficar ao relento. — Dos sortilégios, se tu estivesses viva, serias ministra; — mas se morreres, poderás docíssimo emanar um canto.
    • Morte da tartaruga para a transfiguração da existência em doçura.
    • Presentes da arte hermética: alegria, amor e doce sono.
  • O canto inicial de Hermes celebra o amor e a riqueza com uma impudência que remete à natureza essencialmente fálica do deus.
    • E do Cronida cantou, de Maia de sandálias belas, — como a primeira vez os uniu um colóquio de amor; — e recordou no canto como ele mesmo nasceu. — Também as servas exaltou da Diva, e a fúlgida casa, — e da casa os tantos caldeirões, e os trípodes.
    • Impertinência comparada aos cantos juvenis de escárnio.
    • Diálogo entre Apolo e Hermes sobre Afrodite na rede de Hefesto.
    • Oarizein como termo de conotação fálica.
  • A consciência de Hermes sobre sua própria origem e a genealogia dos deuses constitui o fundamento de sua sabedoria espiritual e memória cósmica.
    • Nomeando sua ilustre linhagem.
    • Genealogia como representação da mitologia.
    • Mnemosine como mãe das Musas e demônio do destino de Hermes.
    • Impossibilidade de esquecimento e posse do saber dos fundamentos primordiais.
  • O roubo dos bois de Apolo e a fundação do sacrifício cruento demonstram a transição do ato titânico para a revelação divina hermética.
    • Ganância por carne comparada à de um leão.
    • Instituição do sacrifício às doze divindades.
    • Participação simbólica no sacrifício sem ceder à voracidade imortal.
    • Invenção do novo furto que substitui a violência pela inventividade e astúcia.
  • A fuga e o retorno furtivo de Hermes à sua gruta revelam sua natureza aérea e capacidade de se tornar imperceptível.
    • Sandálias de tamargueira e ramos de mirto para confundir rastros.
    • De soslaio penetrou na gruta, através da fechadura, — como a névoa, como a brisa que sopra de outono.
    • Diálogo entre Maia e Hermes sobre a busca por honras e ofertas iguais às de Apolo.
    • Ameaça de Hermes de saquear o templo de Apolo em Delfos.
  • O confronto entre Apolo e o recém—nascido destaca a astúcia do primeiro sofista e sua conexão com a esfera dos mortos.
    • Menino que jaz no berço, responde—me logo onde estão — as vacas ou a contenda entre nós será pouco cortês; — já que te lançarei entre a névoa do Tártaro horrendo, — no escuro de onde nunca se volta; nem pai nem mãe — poderão à luz mais reconduzir—te: sob a terra, em malora, — sobre gentes perdidas provar deverás tuas fraudes.
    • Gentes pequenas como imagem dos exaustos de vida.
    • Surgimento da imagem do psicopompo e do Hermes Logios.
  • O perjúrio solene de Hermes diante de Apolo e Zeus consolida sua posição como mestre dos embustes e amigo dos ladrões.
    • Juramento pela cabeça do pai.
    • Riso de Apolo diante da mentira do irmão.
    • Privilégio de ser chamado, para sempre, amigo dos ladrões.
    • Gesto grosseiro de Hermes no colo de Apolo como antípoda da pureza apolínea.
  • A conciliação entre Hermes e Apolo delimita as esferas de atuação divina, conferindo a lira a Apolo e a custódia dos rebanhos a Hermes.
    • Riso de Zeus que garante a inocuidade da herança titânica.
    • Frusta como símbolo da pastorícia hermética.
    • Vara áurea de três folhas como doadora de riqueza.
  • A divisão das funções oraculares reserva a Apolo o conselho de Zeus, enquanto Hermes recebe o domínio sobre o oráculo das três irmãs abelhas.
    • Virgens que voam lofas de rápidas penas: três são, — e têm todo o corpo polvilhado de branca farinha. — Têm sob um desvão do monte Parnaso a casa, — e ensinam em separado suas profecias.
    • Abelhas como almas puras e o delírio menádico.
    • Dependência da divinação em relação ao estado de plenitude ou vacuidade das almas.
  • A nomeação de Hermes como mensageiro único perante Hades vincula o deus a iniciações místicas e ao cuidado com as almas.
    • Único será junto a Hades mensageiro perfeito, que não o menor dom dará, sem ser por isso remunerado.
    • Significado de consagrado ou iniciado para o termo tetelesmenos.
    • Relação com os mistérios dos Cabiros.
    • Hermes como companheiro de deuses e homens que frequentemente engana a progênie humana na noite profunda.
5. Hermes e a Noite
  • A tradição clássica e as representações figurativas apresentam Hermes como uma figura desconcertante em diversas idades e funções.
    • Vasos funerários de fundo branco com cenas de guia de almas.
    • Representações de Hermes com a espada de foice ou evocando espíritos com a vara.
    • Lekythoi sepulcrais áticos e a quarta dimensão psíquica.
  • Hermes constitui um dado histórico irredutível que engloba tanto o caráter fálico quanto o espiritual, a sem—vergonhice e a doçura.
    • Crítica à limitação da essência de Hermes apenas ao guia mágico ou ao ganho súbito.
    • Inseparabilidade entre potência geradora e condução graciosa.
    • Rejeição da ideia de Hermes como mera personificação da ajuda divina ou malignidade.
  • O mundo de Hermes integra aspectos do mundo real como uma forma adaptada à matéria, mantendo conexão com a totalidade cósmica.
    • Ideia e mundo como epifania espiritual.
    • Hermes como aspecto do mundo que compreende outros mundos.
  • A experiência da noite reflete traços análogos aos de Hermes, onde o espaço perde a medida e o encontro ocorre como um milagre súbito.
    • Desaparecimento de distâncias e proximidades.
    • Sentimentos incertos entre calma e desassossego.
    • Perigo à espreita na forma de bandidos ou espectros.
    • Noite como mãe de toda paz, protetora de amantes e furbos.
    • Música como linguagem da calma noturna.
  • A noite fornece a matéria de Hermes, mas o deus distingue—se pela atividade viril e arrogante em oposição à passividade noturna.
    • Espírito da noite como benignidade, magia e inventiva.
    • Vigilância aguda e clareza do espírito nas trevas.
    • Saber raro e precioso que precipita como estrela cadente.
  • O mundo de Hermes abrange a entrada e a saída da existência através das noites da procriação e da morte.
    • Noite do psicopompo e noite da geração.
    • Unidade entre a noite interna e a externa.
  • Hermes extrai sua matéria das profundezas do mundo através da experiência humana, apresentando—se com uma inocência divina alheia ao pecado.
    • Ladrão ou raptor primordial que não sugere a noite externa.
    • Inocência do devir que provém das fontes da vida.
    • Ausência de relação com a culpa ou a expiação.
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