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Mito e Mistério

KERÉNYI, Károly. Miti e misteri. Torino: Bollati Boringhieri, 2017.

Essa bipolaridade da mitologia — ou seja, o fato de ela ser “teologia” e “antropologia” ao mesmo tempo — sempre foi levada em consideração, de forma mais ou menos consciente, nas pesquisas do autor. De forma plenamente consciente, ela aparece pela primeira vez em Prometeu. Mas a referência da mitologia ao homem já constitui o tema dos Mistérios dos Cabiros (1944: o terceiro estudo deste volume), que justamente por isso recebem o subtítulo “introdução ao estudo dos mistérios”. O essencial nos mistérios antigos é que eles tornavam presente, ou melhor, tangível, essa referência humana e, com isso, também a referência divina do homem: não com base em uma doutrina ou para um fim teórico, mas quase como expedientes para representar o divino nos segredos mais naturais e, no entanto, indizíveis da vida humana, como isso é mencionado naquele estudo. Antecipe-se aqui – para encerrar estas palavras introdutórias – o que é dito naquele texto: «A indizibilidade dos mistérios naturais – por exemplo, os autênticos mistérios das origens da vida – talvez nos seja compreensível, se a considerarmos em dois planos distintos: o existencial e o puramente conceitual. No plano existencial, agimos e sofremos, e o nosso agir e sofrer nos atinge em um ponto tão profundo que ali há apenas um acontecer, mas nenhuma palavra adequada para expressá-lo. No plano puramente conceitual, esse acontecer pode ser facilmente descrito na terminologia clara, unívoca e desprovida de emotividade da biologia ou – acrescentemos – na da psicologia. Mas será que é ainda o mesmo acontecimento, aquele que me diz respeito, um fato meu? A descrição puramente conceitual capta apenas o genérico, separado do caso individual; ela fala do meu fato – quase como se fosse sobre o meu fato –, mas não o pronuncia: ele é indizível. Somente a “representação cultural” — a ação mística, cujo conteúdo é desenvolvido pelo mitologema — “pode elevar o meu acontecimento a um plano de universalidade de tal forma que ele permaneça, no entanto, algo que me é próprio: o meu mistério indizível, comum ao de todos os homens”.

A autêntica mitologia constitui o grau imediatamente posterior à representação cultual do indizível: nem sempre o grau cronologicamente posterior – ela pode ser até mais antiga do que as cerimônias realizadas –, mas sim como uma forma mais livre de expressão do espírito humano. Ela oferece paráfrases e variações de mistérios semelhantes, e toda verdadeira interpretação da mitologia — certamente, porém, sem as qualidades de uma arte primordial — faz o mesmo.

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