Mulher celta
MARKALE, Jean. La Femme celte: Mythe et sociologie. Paris: Payot, 1972.
Introdução
1. O mal-estar em que mergulhou a sociedade ocidental do século XX não pode ser superado por soluções reformadoras, simples remendos que tapam fissuras à espera de outras e prolongam uma situação de espera, como peças trocadas num motor gasto, tornando apenas mais espetacular o acidente final, nem por revoluções que se limitem a mudar estruturas, frequentemente velhas fórmulas rebatizadas, mas apenas por uma verdadeira mudança de mentalidade, já que as estruturas são abstrações que só ganham realidade pela ação dos homens e valem o que eles valem e sobretudo o que eles querem.
2. A sociedade atual, herdeira de um longo passado cultural, repousa sobre uma gigantesca fraude que começa timidamente a ser denunciada e que se esconde atrás dos problemas políticos, religiosos, sociais, econômicos e culturais que lhe servem de álibi, a relação entre o Homem e a Mulher, que condiciona o casal e a família, célula de base de toda a sociedade, de modo que denunciar a absurdidade dessa relação milenar é muito mais grave do que proclamar a luta de classes, pois, provada a fraude, toda a sociedade ocidental, inclusive a marxista, que não passa de uma heresia sua, perderia seu postulado fundamental de que o Homem é biologicamente superior à Mulher.
3. Mais sólidas que os costumes e as rotinas, que evoluem ao ritmo da História, são as estruturas mentais, imutáveis desde a aurora da civilização, transmitidas de geração em geração sob roupagens por vezes novas, mas sempre idênticas, cuja permanência é condição da própria existência social, elementos de uma axiomática ajustada à grandiosa síntese judaico-romano-cristã, sendo a sociedade apenas um modo operatório necessário, sem o qual o homem perderia a sociabilidade, criado pelo espírito humano e adaptado às necessidades, aos limites e, embora isso seja esquecido, às aspirações da espécie.
4. Todo modo operatório repousa sobre convenções e postulados fundamentais, e as matemáticas, extraordinário instrumento de progresso técnico, não escapam à regra, pois durante séculos se apoiaram no postulado de Euclides segundo o qual por um ponto fora de uma reta passa uma e uma só paralela, proposição indemonstrável, mas nunca discutida, sobre a qual se edificou um sistema lógico, coerente e de resultados práticos inegáveis, que se tornou assim uma estrutura mental transmitida sem contestação.
5. Esse postulado, além de indemonstrável, não corresponde à realidade profunda, já que a linha reta não existe, o que permitiu a Riemann afirmar que por um ponto fora de uma reta não passa nenhuma paralela e a Lobatchevski que passam infinitas, fundando sistemas igualmente coerentes que puseram fim ao reinado da geometria euclidiana e abriram caminho às explorações mais audaciosas de uma realidade que as estruturas mentais estabelecidas ocultam sob brumas semelhantes às ilusões enganadoras discernidas por Pascal no fundo de cada ser humano.
6. O postulado fundamental da sociedade, a superioridade do Homem sobre a Mulher, raramente posto em dúvida, menos ainda pelas próprias mulheres, apoia-se na pretensa incapacidade feminina para os trabalhos de força, desmentida pela antiga camponesa no campo e pela maior longevidade das mulheres, cujo único ponto fraco real é a mortalidade no parto, e a mulher nem sempre foi considerada fraca, pois, assim como a dependência entre indivíduos nasce, segundo o Discurso sobre a Origem da Desigualdade de Rousseau, da divisão do trabalho, também a desigualdade entre os sexos surgiu dessa divisão, que reservou ao Homem as tarefas nobres, garantes de liberdade e autoridade, e relegou a Mulher às tarefas obscuras.
7. Orientada para o rendimento, questão por vezes de vida ou morte para a espécie, a civilização afastou da vida ativa tudo o que pudesse diminuí-lo, sobretudo a Mulher, suspeita de captar a energia masculina em proveito da sexualidade, confinando-a ao papel indispensável de reprodutora, e, sem pretender que tenha havido períodos felizes de equilíbrio entre os sexos nem exaltar supostos matriarcados arcaicos contra o patriarcado atual, trata-se de remontar o curso da História, sem negligenciar os Mitos, reveladores do que ela esqueceu, para desmistificar um postulado talvez caduco numa época em que o trabalho de força desaparece e a sociedade passa do rendimento ao consumo.
8. A ideia da superioridade masculina, estrutura mental tão poderosa e normal que é adquirida quase ao nascer, fundamenta toda a educação da criança, ensinando ao menino que não deve chorar nem ser delicado como a menina, que deve assumir suas responsabilidades e as dela, protegê-la, isto é, mantê-la em estado inferior, preparar o futuro e dedicar-se a jogos viris, e à menina que certas coisas não são para ela, que deve brincar de boneca, manter-se apagada, reservada e tímida, aceitar o segundo lugar, convencer-se de sua fraqueza e preparar-se para o papel inferior e privativo de liberdade de boa dona de casa e mãe de família.
9. São as mães que transmitem essa estrutura mental aos filhos, como suas mães fizeram com elas, sem mudança há milênios, mantida pela moral de essência masculina desde Moisés e pelas religiões, sobretudo pelo cristianismo, que, no entanto, se apresentara de início como doutrina de libertação da mulher, resignação que levou Freud e os psicanalistas a formular a teoria mais ridícula, reacionária e antifeminista, a da inveja do pênis, quando o que falta à mulher é de ordem puramente psicológica, retirado pelos homens numa época indeterminada da História com a cumplicidade inconsciente das mulheres, fraude masculina que hoje desequilibra uma sociedade cujas estruturas mentais já não correspondem às necessidades da espécie.
10. Numa hipótese de base marxista, mas sem conclusões conformes ao materialismo histórico, e abstraídas as tradições mítico-religiosas, simbolização posterior, a espécie humana pouco se distinguia de início das espécies animais com que competia, e, ao passar de Homo faber a Homo sapiens e tomar consciência de sua inteligência, desenvolveu uma dialética rudimentar em que as condições materiais engendram estruturas mentais que, por sua vez, transformam e transcendem essas condições, origem do progresso humano, a partir da tríade primitiva de alimentar-se, proteger-se e procriar, cujas soluções organizam a vida e se impõem como estruturas mentais sobrepostas ao real.
11. Tendo existido provavelmente várias raças ou espécies humanas, prevaleceu a de estruturas mentais mais eficazes, e no Paleolítico superior, por volta de 40.000 antes da nossa era, o Homem torna-se pela primeira vez artista, filósofo e homo religiosus, vivendo em hordas nômades que seguem os rebanhos selvagens e completam a subsistência com a coleta, até que a época glacial acrescenta à caça a preocupação com o abrigo nas grutas e a rarefação da caça leva à criação de animais, origem do nomadismo pastoril, de que a Bíblia judaica é um dos mais antigos testemunhos.
12. Essas transformações devem ter abalado profundamente as estruturas mentais, talvez eliminando as hordas incapazes de renová-las, mas delas só se conhece a expressão artística, cenas de caça nas paredes das grutas e figurações femininas como as Vênus de Lespugue e de Willendorf, cujos caracteres sexuais exagerados ao extremo provam que a Mulher e seus atributos sexuais constituíam uma das maiores preocupações desses povos.
13. A Mulher é o maior dos mistérios, e os estudos etnológicos mostram que sua função reprodutora sempre suscitou nos povos ditos primitivos um espanto misturado de temor, uma das raízes da misoginia, ou antes da ginofobia, das sociedades evoluídas, temor tanto maior quanto o macho nem sempre tinha noção precisa da fecundação e duvidava de seu próprio papel, pois, segundo Gustave Welter, um ato tão rápido e banal quanto a cópula parecia incapaz de produzir um acontecimento tão extraordinário quanto o nascimento, atribuído então a um Espírito que introduzia um germe no corpo feminino, crença que transparece nos textos rabínicos sobre Eva, manchada pela serpente.
14. Antes do culto do Falo e de Príapo, que marcou a inversão dos valores e a compreensão do papel masculino na cópula, a mulher era um ser mágico em relação com as divindades, indispensável à sobrevivência da espécie, protegido e precioso, que se ia raptar nas tribos vizinhas, sem que fecundidade e sexualidade estivessem ligadas, sendo provável, embora sem provas, que essas sociedades arcaicas conhecessem uma liberdade sexual muito mais ampla, uma espécie de promiscuidade comparável ao casamento coletivo praticado por certos grupos contemporâneos.
15. Essas crenças conferiram à Mulher um papel social predominante e deram origem ao culto de uma Deusa ou de uma divindade de traços femininos, presente na aurora de todas as civilizações, de coloração matriarcal, embora não se possa afirmar a generalização de um matriarcado puro, configurando uma idade de ouro da Mulher que contradiz a tese freudiana do Pai primitivo de Totem e Tabu, talvez marcada pela lembrança traumática de Freud da mãe prestes a lançar-se com ele sob um trem, pois mitologia e etnologia concordam em que a humanidade primitiva atribuía à Mulher a responsabilidade da procriação e rendia seu primeiro culto a uma Deusa-Mãe.
16. Quando o macho passou a afirmar seu papel preponderante na fecundação, as antigas estruturas mentais desmoronaram de uma vez, numa revolução tão importante quanto a da roda, da agricultura ou da metalurgia, mas pouco considerada, que fez do homem, antes inferior ou igual, superior à Mulher, traduzindo-se miticamente pelo surgimento de deuses-esposos da Deusa-Mãe, e o macho, enganado durante séculos e consciente de seu poder, passou diretamente da igualdade à dominação para tomar sua revanche.
17. Essa revolução fundiu-se na descoberta da agricultura, por volta de 8000 antes da nossa era no Oriente e de 4000 no Ocidente, período neolítico que tornou a humanidade sedentária e está na base de todas as sociedades modernas, mesmo industriais, transformando radicalmente as condições de vida e as estruturas mentais, pois o Macho, apoiado em seu papel fecundador, arrogou-se todos os direitos e os penosos trabalhos agrícolas, relegando a mulher às tarefas domésticas, de modo que a mulher do lar, inventada no Neolítico, permanece no casal do século XX como estrutura mental que não se pode abolir sem rasgar a tela que dissimula os defeitos da Sociedade.
18. Com a agricultura surge nitidamente a divisão do trabalho entre os que cultivam, os que guardam rebanhos, os que caçam e os que fabricam instrumentos, e, segundo Rousseau, a desigualdade nasce da dependência mútua até que aquele cuja atividade é essencial submeta os demais, não necessariamente o mais forte, mas o mais hábil, como mostra a casta dos Ferreiros, depois rejeitada à margem da sociedade, lembrança da Revolta contra o Pai simbolizada pelo coxo Hefesto banido nas entranhas da terra e por seu substituto celeste, Zeus, castrador de Cronos, imagem purificada, justa e dispensadora.
19. A Mulher paga o preço dessa operação, pois todas as sociedades passam a organizar-se segundo o tipo patriarcal, ou antes paternalista, e às novas estruturas mentais correspondem novas lendas mitológicas, com o aparecimento do Herói solar ou Herói de Cultura, cujo tipo perfeito no mundo mediterrâneo é Héracles e o mais misterioso Apolo de Delfos, vencedor da serpente Píton, figuração feminina da Divindade-Terra, deus-sol resultante da masculinização da Deusa-Sol primitiva, relegada à Lua sob o nome de Ártemis.
20. Assim como o cristianismo nunca venceu as estruturas mentais pagãs e muitas vezes apenas abençoou crenças herdadas do druidismo e de outras religiões, os novos mitos não eclipsaram inteiramente os antigos, pois Ártemis permanece, Afrodite ganha importância, Hera faz cenas a Zeus, Deméter continua a governar as estações e o próprio Apolo precisa da Pítia para fazer-se compreender pelos homens, enquanto os mitos femininos incômodos são ridicularizados ou invertidos em proveito de personagens masculinas e a mulher é mostrada sob seu aspecto mais sombrio, como em Pandora, em Eva e sobretudo em Lilith, enterrada no mais profundo do inconsciente hebraico como a mais perigosa e subversiva para a ordem masculina estabelecida.
21. Múltiplas razões provocaram essa ocultação da Mulher e do que ela representava primitivamente, que atingiu seu ponto extremo na Grécia clássica, com as funções quase oficiais das cortesãs e hetairas e a pederastia como sistema de educação, na Roma primitiva simbolizada por Catão, o Velho, na França do início da feudalidade e na Europa ocidental do fim do século XIX e início do XX, triunfo do puritanismo, da misoginia e da hipocrisia.
22. Ao estender seu império, Roma eliminou tudo o que podia ameaçar sua organização sociopolítica, perseguindo os druidas até fazê-los desaparecer da Gália e da Bretanha, porque sua ciência e filosofia contradiziam radicalmente o conformismo romano, já que os romanos eram materialistas e os druidas espiritualistas, os romanos concebiam o Estado como estrutura monolítica hierarquizada e os druidas como ordem moral livremente consentida de centro puramente mítico, os romanos fundavam o direito na propriedade individual do chefe de família e os druidas defendiam a propriedade coletiva, os romanos viam na mulher reprodutora e objeto de prazer e os druidas a associavam à vida política e religiosa, ameaça de vida ou morte para a ordem romana que explica a facilidade com que se eliminaram as elites gaulesas e bretãs.
23. O cristianismo, herdeiro das estruturas do Estado romano, prosseguiu a destruição sistemática dos valores celtas, perigosos para as instituições temporais da Igreja, como mostram a luta do Papado contra os particularismos da Igreja celta da Irlanda, da Bretanha e da Armórica, o favor concedido à Igreja saxã contra a bretã, que abriu a ilha à conquista saxã, e a entrega da Irlanda a Henrique Plantageneta no século XII, tendo as sociedades paternalistas sempre tratado como suspeito tudo o que era celta, daí o sufocamento da cultura celta pela greco-latina mesclada de germanismo inofensivo, sendo significativo que as épocas de valorização feminina, como a cortês dos séculos XII e XIII, coincidam com renascimentos do celtismo e que os grandes santuários marianos, como Le Puy-en-Velay e Chartres, ocupem antigos lugares consagrados a divindades femininas celtas.
24. Não se trata de idealizar a sociedade celta, bretã, galesa, irlandesa ou gaulesa, que foi e continua paternalista, já que os celtas eram indo-europeus, missionários ardentes dessa concepção, mas, como elite guerreira e intelectual pouco numerosa em relação às populações autóctones submetidas, impuseram seus usos, sua língua e uma religião única e ao mesmo tempo assimilaram sistemas alheios dos sobreviventes das civilizações anteriores reunidos na franja atlântica, como provam os arcaísmos de influência não indo-europeia muito mais marcados no País de Gales e na Irlanda cristãos do que no continente.
25. Entre os povos indo-europeus portadores das estruturas mentais do paternalismo, os celtas apresentam-se na encruzilhada, como herdeiros de sociedades não paternalistas, constatação essencial baseada no conhecimento correto de seu direito, em que a Mulher gozava de prerrogativas que fariam inveja às romanas da mesma época e em que havia entre os sexos um equilíbrio fundado não na superioridade de um sobre o outro, mas numa igualdade em que cada um se sentia à vontade, sem cair no abuso inverso de uma colonização do Homem pela Mulher, que deixaria a sociedade igualmente manca.
26. Como nem tudo era perfeito na sociedade celta e os celtas, de espírito anti-histórico, sonharam sua história mais do que a viveram, é nos Mitos da Mulher que se deve buscar o fundo de seu pensamento, reveladores em dois graus, por transmitirem simbolicamente as realidades do Passado e por transcenderem a realidade como expressão mais pura das estruturas ideais do pensamento de um povo, reflexo fiel de uma mentalidade que a História não revela.
27. Os Mitos existem para ser interpretados, sem o que seriam apenas belas histórias para crianças, ainda mais porque a lógica celta difere da educação greco-romana, e, se se afirma hoje que o ser humano revive e reatualiza os mitos por não poder viver sem encarnar um mito que o transcenda e o ligue a um valor superior, político, religioso ou artístico, encarnar um mito é também interpretá-lo, pois o Mito, necessariamente fecundo e de extrema tenacidade, constitui uma realidade do pensamento, uma história verdadeira, segundo Mircea Eliade, por referir-se sempre a realidades.
28. Segundo um raciocínio marxista, o Homem deve conhecer a História, interpretá-la e projetá-la no futuro, mas no domínio celta a História é o Mito, e essa realidade de pensamento adquire valor operatório capaz de influir sobre a vida, pois, se Evêmero via nos mitos deformações de acontecimentos históricos e nos deuses heróis divinizados, captava apenas um aspecto de uma dialética ambivalente, História-Devir-Mito, reversível em Mito-Devir-História, e, sem decidir qual precede o outro, como na querela do ovo e da galinha, é certo que o Mito sempre agiu sobre a História, determinando a ação e a vocação de seus grandes personagens.
29. Depois de uma incursão pelo direito celta, de fonte autêntica, a interpretação dos mitos celtas relativos à Mulher deve conduzir a duas constatações, uma documental, sobre o papel e a situação da Mulher nas civilizações que ainda não haviam atingido plenamente a estrutura paternalista, e outra teórica, sobre o que o Mito, como situação ideal transmitida pelas literaturas celtas ou de inspiração celta, pode ensinar sobre o problema da Mulher no século XX, atualizando um passado negligenciado e ajudando a repensar as estruturas mentais de uma sociedade mais amplamente humana, em que Homem e Mulher deixem de travar o combate dissimulado que os enfraquece há séculos.
