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GILGAMESH

Roger Lipsey

“A Busca”, Jean Sulzberger (org.), trad. Octavio Mendes Cajado. Pensamento, 1989

O trecho culminante da antiga Epopeia de Gilgamesh talvez não seja estranho ao leitor: é uma espécie de texto escolar e recebeu homenagens momentâneas de muitos dentre nós — muitas vezes no primeiro ano do colégio, quando todo o peso da vida ainda nos era amplamente desconhecido, e a extraordinária precisão do sentido da epopeia nos escapava. Pertence a uma classe especial dos mais antigos artefatos, com as pinturas de cavernas de Lascaux, por exemplo, que prestam um testemunho simples e comovente da condição humana e nos permitem estudar-nos a nós mesmos através de analogias que sobre-passam em muito o nosso nicho subjetivo no tempo.

A epopeia, tal qual nos chegou, foi traduzida de tabuinhas de barro fragmentárias, encontradas na biblioteca do palácio do rei assírio Assurbanípal (Nínive, sétimo século a.C.) e de fontes fragmentárias babilônicas, que datam do segundo milênio a.C; a crermos nas conjeturas dos entendidos, a história foi compilada de fontes orais no transcorrer do terceiro milênio. Os fios tecidos numa narrativa contínua chegam, dessarte, além das eras que conhecemos mas, por estranho que pareça, alguns personagens, incidentes e locais da epopeia sobreviveram em contos populares que sentimos nossos: o jardim dos deuses visitado por Gilgamesh, com as suas árvores de ouro e folhas de gemas preciosas, não difere do jardim cruzado pelas Doze Princesas Dançarinas. A perenidade de tantos elementos da epopeia pode não ajudar, mas nos alerta para a presença aqui de alguma magia, de alguma sabedoria integral, conhecida de nossos antepassados, da qual hoje só nos restam fragmentos.

A história é uma história de busca — a busca de Gilgamesh, apôs o choque provocado pela morte do amigo mais íntimo, do segredo da imortalidade. O cosmo em que se move Gilgamesh é o mesmo a que pertencem, de uma forma ou de outra, todos os heróis tradicionais. A busca é longa, naturalmente, e seu caminho passa por uma porta ameaçadora, pela treva selada debaixo de uma montanha, pelo jardim dos deuses onde o herói é entrevistado por diversas divindades e, com alguma relutância, ajudado a continuar, e dali pelo oceano da morte em companhia de um barqueiro que não se cansa de insistir com Gilgamesh para empurrar o barco com o varejão. Finalmente, o herói alcança o objeto da sua busca, Utnapishtim, o Noé babilônico, o único que, entre os homens, conhece o segredo da imortalidade. O “Noé” está longe de ser generoso, como o leitor terá ensejo de descobrir, e apenas pela compadecida intervenção da esposa de Utnapishtim, Gilgamesh pode deixar-lhes a ermida com alguma coisa mais do que um notável conjunto de roupas, que, segundo lhe dizem, continuará novo durante toda a viagem de volta. A intervenção da mulher, como tantas outras coisas na história, pode parecer especifica a esta narrativa e insignificante talvez, até nos lembrarmos de que “ela” intervém com frequência na busca do herói e, ao fazê-lo, insinua uma relação: em A Vida de Milarepa, por exemplo, história tibetana de busca religiosa do século XII d.C., é a esposa do guru que anima o deslumbrado aspirante a “cheia” toda a vez que Marpa, o Tradutor, se recusa a tomá-lo por aluno. A epopeia de Gilgamesh, por conseguinte, se relaciona com toda a literatura de busca, e pode tocar-nos diretamente, pois as exigências feitas ao herói são, não raro, enigmaticamente análogas às exigências ainda hoje experimentadas pelas pessoas. Por exemplo, pede-se a Gilgamesh que corte 120 varas na floresta, cada uma das quais deverá ser usada para uma remada apenas enquanto ele é transportado num barco sobre o oceano da morte, e largada assim que tiver servido ao seu propósito. Pensamentos interpretativos desgarrados e objeções lutam entre si na mente do leitor — que isso é um desperdício de boa madeira e, ao mesmo tempo, necessário, porque Gilgamesh não podia permitir que a menor gota da água da morte o tocasse — até compreendermos, repentinamente, a absoluta necessidade, inerente a toda a busca, desse tipo de desafio, aqui centrado na exigência da completa renovação em cada fase da busca, expressa por uma imagem tão grandiosa que é quase absurda. Mas era através de paradoxos que o homem antigo estava talvez mais certo de captar a atenção do público e transmitir-lhe o conhecimento.

A parte final da epopeia foi recontada por Paul Jordan-Smith, utilizando transcrições das mais antigas fontes disponíveis — as versões sumeriana, acadiana e babilônica — assim como o saber de Samuel Noah Kramer, N. K. Sandars e outros.

Gilgamesh fracassa no fim, volta à sua cidade de mãos vazias, mas a história nos diz que nem o sucesso nem o fracasso têm algum valor: só a busca importa. O fato de Gilgamesh ter vivido por tanto tempo na mente dos homens é prova disso.

Franz Rosenzweig

ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982

Desde antes do desafio trágico de Sansão e de Saul, o Oriente Próximo mais antigo inventou o protótipo do herói trágico com a figura que se encontra no limite entre o divino e o humano, com Gilgamesh. A trajetória de vida de Gilgamesh passa por três pontos fixos: o início é o despertar do Si humano no encontro com Eros; segue-se a linha reta de feitos notáveis, que se rompe abruptamente no episódio último e decisivo, o encontro com Tânatos. Este último é concretizado com força na medida em que não se trata, inicialmente, da própria morte que aguarda o herói, mas da morte do amigo; apenas com ela, ele sente o medo da morte em geral. As palavras lhe faltam neste encontro; ele “não pode nem gritar nem silenciar”, mas também não se submete; toda sua existência consiste em passar com sucesso por este encontro; sua vida recebe a morte, sua própria morte vislumbrada na morte do amigo, como único conteúdo. Para ele, tanto faz que a morte acabe por levá-lo também; o essencial já está atrás dele; a morte, sua própria morte, tornou-se o evento que domina sua vida; ele próprio entrou na esfera onde o mundo, com sua alternância de gritos e silêncios, torna-se estranho ao homem; ele entrou na esfera do mutismo puro e soberano, a esfera do Si.

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