mitologia:schwaller-de-lubicz:isha:hbd:1
1 A Questão
SCHWALLER DE LUBICZ, Isha. Her-Bak Disciple: De la sagesse égyptienne. Illustrations de Lucie Lamy. Paris: Flammarion, 1956. (Reedição: Paris: Le Courrier du Livre, 1979).
- O momento indeciso em que a noite termina com o anúncio da aurora impõe silêncio, e entre o ensinamento já passado do Templo exterior e a luz prometida, Her-Bak espera.
- Uma resposta é proveitosa na proporção da intensidade da busca, e o problema claramente considerado e a questão nitidamente definida contêm em si os elementos da solução.
- Antes de ser introduzido entre os discípulos do Templo, Her-Bak deve passar pela prova de escolher a única questão à qual atribuiria interesse principal, pesando as razões da escolha e expondo-as em palavras concisas.
- Her-Bak revisa os temas de sua busca apaixonada, escava suas bases e se esforça por podar os argumentos fúteis para libertar as raízes essenciais.
- Ao amanhecer, surge a silhueta do mensageiro, e Her-Bak se deixa conduzir sem medo, consciente de ter dado sem negligência a medida de sua possibilidade atual.
- O candidato é introduzido na sala hipostila, onde a luz viva e a obscuridade se combatem, e guardas impedem a aproximação de estranhos.
- À direita do Sábio estão três homens venerados no Templo como Mestre da Mística, Mestre das Medidas e Mestre do Símbolo, cuja dignidade nada no traje revela, mas que são os verdadeiros pilares do Templo.
- A poucos passos do Peristilo, os rumores e as querelas já parecem distantes, e Her-Bak, prostrado, deseja ao menos permanecer como humilde servidor dessa majestade caso não seja recebido.
- Chegada a hora de provar que o esforço está à altura do sonho, Her-Bak pede para expor sua busca na ordem em que se desenrolou, pois segurou uma ponta da corda sem saber aonde ela o conduzirá.
- A primeira questão nascida do coração foi por que se está na Terra, mas ela se mostra insuficiente, pois não se sabe o que se é nem o que é a Terra.
- A Terra é o que não é nem o céu nem a Duat, segundo a fórmula do que há no Céu, na Terra e na Duat, e o homem está sobre a Terra e sob o céu.
- O homem nasce, vive e morre, estava antes de nascer em seu pai e sua mãe, e surge a pergunta sobre a origem do primeiro pai.
- Quando o homem morre, volta à terra, e a Terra permanece, mas muda de aspecto com as estações, governadas pelo Sol, pela Lua e por Sothis, das quais depende a vida terrestre e, portanto, a do homem.
- Coloca-se a questão de saber do que dependem o Sol, a Lua e Sothis, se há forças acima deles e qual a estrela mais poderosa, pois saber isso seria saber o que comanda o Mundo.
- Se a Terra se transforma, o Sol, a Lua e Sothis também podem transformar-se, e o que pode mudar parece destinado a morrer, o que faria da morte o mais forte de tudo.
- A morte é o fim de uma existência, e isso reconduz à questão do fim da existência, que não pode ser a morte, sob pena de o Mundo ser horror e loucura.
- Antes disso seria preciso saber se o próprio homem escolhe seu fim ou se este lhe é imposto por uma vontade ou uma lei que o arrasta como arrasta o Sol, a Lua e Sothis.
- Se o homem fosse conduzido apenas pelas leis da Natureza, não teria liberdade nem fim, e não haveria o que buscar nem razão de ser para o Templo.
- O Templo existe e ensina a Sabedoria desde os tempos antigos, e o fato de se poder merecer ou perder seu acesso prova uma certa liberdade.
- A aquisição da Sabedoria poderia ser o fim do homem, e quem nada sabe não tem o direito de concluir que os Sábios de todos os tempos mentiram, e como eles afirmam que se pode aceitar ou recusar o caminho da verdade, essa escolha é uma liberdade.
- Essa liberdade parece ultrapassar as leis da Natureza, pois o animal tem liberdade menor e nem a planta nem a pedra podem dominar essas leis.
- Para saber de onde vem a liberdade, é preciso perguntar o que é o homem, e embora o homem seja o ser mais completo da Terra e conhecê-lo permitisse conhecer o resto, o próprio homem não se conhece.
- O médico que ensina no Peristilo não explica a origem do primeiro homem, nem o fim da Vida, nem o sentido da morte.
- Diante dos funerais, a morte aparece como fim das coisas, e se fosse fim total, a ciência seria inútil, o cantor que exalta o gozo da vida teria razão e o Templo, a Sabedoria e os ritos funerários seriam absurdos.
- Seria outro absurdo, porém, concluir sem provas.
- Her-Bak declara que seu coração se recusa a crer que a morte seja fim total, mas que deve buscar sua questão sem se ocupar daquilo em que crê, e os Mestres aprovam.
- O amor por Nadjar fez compreender a separação: antes da morte ele respirava o mesmo ar e via as mesmas coisas, e agora seus olhos não veem e suas narinas não sentem.
- Se nada dele vê ainda, há aniquilação total, e se algo vê, talvez veja coisas que os vivos não veem, de modo que os olhos dos vivos estariam mortos para esse outro mundo e as duas vidas estariam separadas apenas por uma diferença.
- Um Mestre marceneiro afirmou que a morte é transformação, mas o corpo mumificado não pode mais mudar, e o BA e o KA, que podem retornar, não têm mais corpo para comer, o que conduz à questão do que é estar vivo.
- O Sábio reconhece que Her-Bak buscou em verdade e ousou falar, e os Mestres concordam em ajudá-lo a elaborar sua questão.
- Para elaborar uma questão, é preciso ir ao coração do problema, que é o impulso que governa toda a vida de cada ser.
- O impulso de Her-Bak é aprender o que deve saber para que sua existência cumpra seu fim essencial, e por isso deve começar por buscar esse fim.
- Todo axioma de verdade deve poder exprimir-se geometricamente, pois todo fenômeno se situa no espaço como resultante de movimentos e ritmos que lhe dão forma e caráter pelo número.
- Linhas de força e números determinaram o nascimento de cada um, e a existência revela características harmônicas que conduzem a um fim, sendo esse o campo de busca.
- A existência termina na morte e talvez em algo desconhecido, e o fim definitivo não pode ser conhecido sem conhecer o término definitivo.
- As linhas de força ou tendências de cada ser determinam seu fim atual, que é fatalmente orientado por seu término e seu fim definitivos, e o fim atual de Her-Bak é conhecer seu verdadeiro término.
- A tendência do mineral é definida por sua inércia, pela qual espera e sofre a transformação imposta à sua passividade.
- A tendência do vegetal, limitada por sua fixação ao solo, consiste em encontrar condições favoráveis à respiração, à nutrição e à fecundação, e seu fim é a produção da semente.
- A tendência do animal é buscar alimento, abrigo e acasalamento, e seu fim é a continuação da espécie e a satisfação dos instintos.
- As tendências e o fim da natureza animal jamais bastarão às aspirações de Her-Bak, e a medida em que sua tendência e seu fim superarem os dos outros seres medirá a qualidade de seu término e de seu fim definitivos.
- O coração crê na continuidade da vida após a morte do corpo sem ter provas, e é preciso escutar primeiro essa convicção, mesmo que pareça absurda ao raciocínio.
- Se há um conjunto de leis que liga todas as formas da Vida, ele estabelece entre elas relações sensorialmente incontroláveis que escapam à lógica racional e podem ser chamadas absurdas até que a experiência mostre que o fato concreto pode resultar do intangível.
- A recusa indiscriminada desse absurdo fecha a possibilidade de conhecer tais leis, e é preciso distinguir entre a certeza do coração, ou Fé, e a crença, adesão cega a palavras.
- A crença cega deve ser rejeitada, mas a Fé é indispensável para entrar no conhecimento divino, e a certeza do coração deve ser aceita provisoriamente para depois buscar as provas de sua verdade ou de seu erro.
- Uma questão se formula como conclusão de dúvidas e respostas insatisfatórias, procedendo por eliminação.
- A morte é o fato inegável, enquanto a vida não é um fato, mas um conjunto de efeitos de uma causa incompreensível e abstrata, e por isso é preciso partir do fato da morte.
- Pela aparência, a morte parece um fim do qual resulta o nada, mas resta um resíduo tangível, o cadáver.
- A mudança que transforma o corpo em cadáver admite duas possibilidades: se a vida cessou definitivamente e foi aniquilada, a morte é subtração, e se algo se separou do corpo residual, a morte é divisão.
- A tarefa que se impõe é buscar o que pode ter saído do corpo.
- Para encontrá-lo, é preciso observar na Natureza o que provoca a morte e como ela se manifesta, e o que a provoca é a cessação ou realização de uma razão de viver, que a própria morte revela.
- Mesmo a morte acidental pode ser permitida ou provocada pela cessação da razão de viver.
- A Natureza mostra a relação entre morte e fim: a flor morre quando nasce a semente, o trigo morre quando o grão amadurece, certos insetos machos morrem na cópula e em todos os animais a decrepitude começa com o esgotamento das funções procriadoras.
- Entre os homens há uma diferença, pois homens e mulheres que, pelas faculdades do Intelecto, já não são escravos dessa função têm uma razão de viver que ultrapassa o fim animal, e para eles a morte pode ter outro sentido.
- A morte se manifesta pela parada do movimento e pela cessação do calor, e seu primeiro efeito aparente é o fim do impulso incompreensível que dava movimento ao coração e ao corpo.
- O corpo é então abandonado a transformações destrutivas, o que prova que aquilo que o abandona era o que o mantinha em continuidade, e isso é chamado de alma animante.
- O primeiro movimento vem do instante incompreensível em que o germe desperta na matriz, pois sem matriz a semente nada pode, e a Natureza lança sementes em profusão, muitas das quais se perdem por não encontrar matriz.
- O ser fêmea recebe a semente, concebe o germe, nutre-o com sua própria substância e murcha quando essa função se esgota nela.
- A terra é a mãe que gera e nutre sem cessar os germes, nutriz de todos os vegetais e, por meio deles, dos demais seres, mãe dos minerais e destino de todo corpo.
- A terra pode empobrecer à força de dar, mas volta a beber das fontes da Natureza para transmitir a vida, e somente um fogo sethiano excessivo pode deter seu poder regenerador, como na terra vermelha desértica.
- Tudo o que nasce deve sofrer a morte, e por isso uma mãe que não morra não pode ter nascido nem ter forma corporal, pois é sobre o corpo que a morte exerce seu poder.
- Essa mãe, nutriz da Vida, é necessariamente da natureza daquilo que dá a Vida e que se chama alma.
- A possibilidade da Mãe-que-não-morre revela o sentido da morte como passagem do ser pelo ventre da grande Mãe Nut, que provoca todas as transformações.
- Se a morte é um momento de transformação, resta fora do corpo inerte algo que continua a viver, e esse algo é a própria Vida.
- A questão fundamental formulada por Her-Bak é o que é a Vida, se ela é algo além de aparência passageira, maturação de semente e transição entre nascimento e morte.
- Her-Bak não escolheu como questão o que é o Neter, embora sempre o tenha perguntado, por começar a crer que essa é a última coisa a buscar.
- É inútil buscar o Neter: se ele não está no homem, não será encontrado em parte alguma, e se está, revelar-se-á nele mesmo e será então descoberto em todas as coisas.
- O desejo mais profundo de Her-Bak é sentir a Vida em si e em todas as coisas, e por isso deve aprender a conhecer o mundo em si, mas nunca buscar a si mesmo no mundo, onde apenas transporia suas ilusões pessoais.
- Her-Bak quer conhecer o mais verdadeiro, mesmo que não seja agradável, e deve buscá-lo nos Números e na função geométrica, cujos resultados se impõem e não podem ser desviados por considerações pessoais ou sentimentais.
- Her-Bak quer dar aos outros o que tiver adquirido, mas para dar é preciso ter, e para ensinar é preciso conhecer a natureza, isto é, o símbolo daqueles a quem se dá, estudando homens e coisas pelo simbolismo.
- Para o Mestre da Mística, o Homem é o Naos do Verbo divino.
- Para o Mestre Geômetra, o Homem é a medida do Universo.
- Para o Mestre do Símbolo, o Homem é a estátua viva do Grande Mundo, cujos símbolos ele resume todos.
- O Sábio promete responder no dia seguinte à questão sobre o que é a Vida, por ocasião da entrada de Her-Bak no Templo interior.
- Her-Bak oferece sua obediência e sua fé e acrescenta que, se o Mestre lhe ensinar o que é a Vida, lhe dará sua vida.
mitologia/schwaller-de-lubicz/isha/hbd/1.txt · Last modified: by 127.0.0.1
