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1 Primeiro dia

SCHWALLER DE LUBICZ, Isha. Her-Bak “Pois Chiche”: Visage vivant de l'Ancienne Égypte. Illustrations de Lucie Lamy. Paris: Prosveta, 1954. (Reedição: Paris: Flammarion, 1955; Paris: Le Courrier du Livre, 1978).

I POIS CHICHE

  • Um menino montado em seu burro percorre uma região nova para ambos, onde o caminho se perde entre areia e campos e é margeado por uma longa muralha que parece não ter fim.
  • A paisagem egípcia se desenha sob um céu de luminosidade ofuscante, com cumes áridos no horizonte oriental e a areia pedregosa do deserto detida bruscamente pelos campos cultivados no limite dos canais de inundação.
  • As tamareiras erguem suas coroas de palmas sobre as casas de terra parda, e a poeira amarela do deserto convive com o ouro das espigas e o verde intenso dos campos recém-semeados.
  • O Egito é uma terra sem meio-termo, feita de contrastes absolutos entre seca e inundação, entre esterilidade da areia e fertilidade exuberante do limo.
  • Duas potências rivais, o Sol e o rio, disputam a terra como esposa comum, que espera deles a fecundação ou sofre a consumpção sem concessão, sem artifício e sem desculpa.
  • O Egito é saudado como a terra dos Neter, os princípios divinos.
  • A altura da muralha desperta no menino a convicção de que ela esconde algo imenso, nunca visto, cuja volta completa exigiria longo tempo.
  • O pai do menino é um grande cultivador que recebeu do senhor um novo domínio, mais belo que o anterior, porém mais distante do mercado.
  • O menino rejeita o destino de cultivador e se apega à decisão paterna de que ele será escriba.
  • Movido pela curiosidade, o menino faz o burro parar à sombra de um sicômoro e sobe até o alto da árvore, mas a muralha continua alta demais para revelar seu segredo.
  • Ao tentar usar o burro como escada, o menino descobre que o animal se afastou, e ao segui-lo encontra uma porta na muralha.
  • Esquecido do burro, o menino procura uma fresta entre as tábuas da porta e se pendura nos batentes, até ser surpreendido pelo guarda da cabana vizinha.
  • O burro aparece amarrado junto à cabana e despojado de sua carga, e o menino acusa o guarda de ter roubado seus pães, suas nozes de dum e seu cesto de sal.
  • O guarda zomba do menino chamando-o de nascido de ontem e filho de seu burro, ao que este responde ter atado a cintura na véspera e exige ser tratado como homem.
  • O menino invoca a posição do pai junto ao nomarca e seu futuro de escriba para ameaçar o guarda, que reage virando-o de cabeça para baixo e aplicando-lhe uma surra.
  • O tapa-sexo recém-conquistado, o daïou, fica rasgado nas mãos do guarda, e o menino nu se lança contra ele com fúria de gato selvagem, arranhando e mordendo.
  • Em vingança, o menino lança o sal do cesto na jarra de água fresca do guarda, enquanto o pano precioso termina devorado por uma cabra.
  • A perda do daïou, símbolo orgulhoso de sua jovem masculinidade, provoca no menino um pranto desesperado e uivos de lobo para a Lua.
  • O guarda insulta o menino chamando-o de chacal maldito e ameaça espancá-lo, mas um homem de presença imponente detém seu braço.
  • Quem blasfema o nome dos animais sagrados é declarado maduro para o chacal, e o guarda, dominado pelo olhar altivo, prostra-se e lambe os pés do Mestre.
  • Diante do Mestre, guarda e menino expõem suas queixas mútuas, e o menino lamenta não poder voltar à casa do pai sem seu tapa-sexo.
  • O Mestre pergunta ao menino se antes de atar a cintura ele não andava nu, e a criança percebe com espanto que não sabia estar nua.
  • Com um largo sorriso, o Mestre toma a pequena mão do menino e o conduz através da porta do mistério.
  • O menino atravessa pórticos, pátios e caminhos ladeados de altos muros, até se deter, estupefato, diante de dois colossos que flanqueiam um pilone e reduzem homem e criança a proporções minúsculas.
  • Os colossos não são deuses, mas reis, e o Mestre se declara servidor deles, o que leva o menino a perguntar por que o servidor é tão pequeno.
  • O nome do menino é Pois Chiche, ou Grão-de-Bico, e o Mestre afirma que um dia ele saberá que esse nome é belo.
  • Diante de um falcão de ouro coroado com o alto pschent, o Mestre apresenta ao menino sua própria imagem e o chama de Her Bak, face de falcão, pequeno Hórus no ovo.
  • Os olhos, os ouvidos e o nariz do menino são os mesmos do falcão, diferindo apenas por uma língua mais sábia, e o deus estará nele no dia em que seu coração nutrir o coração do falcão.
  • O nome do deus é o nome do próprio menino, pois o rosto do falcão está gravado no grão-de-bico, e a Natureza nunca mente em suas imagens.
  • Para o menino, um deus é alguém que sabe tudo o que os homens não sabem e também todo o resto.
  • Os pássaros sabem infalivelmente quando o Sol nasce, culmina e se põe, mesmo quando o homem dorme ou tem os olhos vendados, e nisso são mais fortes que ele.
  • Os pássaros e as coisas da natureza respondem a quem observa bem, e a resposta vem do próprio coração de quem pergunta.
  • O modo de interrogar a natureza consiste em calar, calar e olhar.
  • A frase “hoje é o primeiro dia” marca o despertar do menino, e feliz é quem pode pronunciá-la em tão tenra idade.
  • Absorvido pelo encontro, o menino esquece a própria nudez e pede ao Mestre que o guarde consigo, oferecendo-se para fazer cerveja com os pães, como a mãe.
  • O Mestre recusa com tristeza, pois o menino precisa antes aprender muitas coisas e decifrar outro livro que não o dos escribas.
  • A terra é a ama do menino, e as árvores, as flores e as sementes que germinam ensinam mais a quem sabe olhar do que sabem os escribas que contam milhares e pretendem tudo compreender.
  • O pai do menino ainda não encontrou o seu primeiro dia, razão pela qual não alcançou a verdadeira sabedoria.
  • Ao subir no alto pedestal de um colosso para medir sua pequena estatura, o menino é esbofeteado por um sacerdote que o acusa de profanar com pés impuros o pedestal divino.
  • Se o coração é puro, os pés também o são, e o Mestre ordena ao sacerdote que traga um tapa-sexo novo para seu novo discípulo.
  • O sacerdote questiona com desdém se tal discípulo já saberia ler, e o Mestre submete o menino à prova dos hieróglifos gravados na parede.
  • O menino reconhece um olho e um pé e compreende os sinais de modo vivo, dizendo que o olho o observa e que o pé quer andar.
  • O sacerdote expõe uma leitura erudita e formalista dos sinais, com valores fonéticos, orientações e acepções canônicas, crendo provar a ignorância do menino.
  • Entre o saber do sacerdote e o olhar vivo da criança, o Mestre escolheria o segundo, ainda que pudesse apagar cinquenta anos de sua vida.
  • Os caracteres sagrados de Thot e de Sechat estão inscritos nas palmas, no bico do íbis e no grito do corvo antes de estarem nos muros, conhecimento que escapa ao cérebro erudito do sacerdote.
  • Embora chamado de amigo, o menino não será guardado pelo Mestre, pois outro mestre o espera para despertar seu coração.
  • Esse outro mestre se encontra no jardim e no campo de cevada do menino, e ele nunca o encontrou porque não sabia procurá-lo.
  • O verdadeiro mestre ama as perguntas de criança, e o caminho consiste em perguntar ao grão como se abre, contar os brotos da palmeira, aprender as horas com os pássaros e indagar dos ventos do Norte e do Sul a origem de seu sopro vivificante e de seu fogo.
  • Quem responderá a essas perguntas é aquele cujo nome o menino carrega, o Hórus que nele habita.
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