User Tools

Site Tools


mitologia:sousa:1973:5

5 Existência dos deuses

SOUSA, Eudoro de. DIONISO EM CRETA e outros ensaios. Lisboa: Imprensa Nacional, 2004

1. A filosofia grega não refutou a existência dos deuses, apenas os desalojou do mundo descrito pelo culto e pela poesia, preparando assim o paganismo para a morte que só outra religião, o cristianismo, poderia lhe dar.

1.1. Embora a história da filosofia antiga trate a religião como um erro que os filósofos buscaram corrigir, a especulação filosófica pouco ou nada influi na origem, no desenvolvimento e no fim de um culto, e os antiquíssimos cultos da Hélade só deixaram de ser celebrados quando outra religião os preteriu, não apenas como sinal de erro, mas sobretudo como testemunho de colaboração com o mal.

1.2. Para os filósofos gregos, a falsidade da religião não estava em cultuar os deuses, mas em não os cultuar segundo sua verdadeira dignidade, de modo que a crítica filosófica nunca negou a existência das divindades, apenas sua presença no mundo descrito por sacerdotes e poetas, e somente o cristianismo as negou de forma absoluta ao bani-las também do outro mundo que os filósofos lhes haviam destinado, sem deixar lugar de onde pudessem retornar a este mundo.

1.3. O papel da filosofia na dissolução do paganismo não foi decisivo, pois nenhum filósofo grego supôs que a física, a ética ou a política lançariam no esquecimento os nomes e as honras dos deuses, que, exceto talvez os olímpicos, não morrem na filosofia, já que uma religião só morre em outra religião, embora a filosofia tenha cumprido seu papel histórico na preparação evangélica ao preparar o paganismo para a morte trazida pelo cristianismo.

2. Compreender como a filosofia alterou o modo de existência dos deuses exige saber como eles existiam antes dessa alteração, questão que a historiografia obscurece ao apresentar como fatos as construções de uma filosofia da religião primitiva incapaz de apreender a religiosidade autêntica.

2.1. A filosofia não mata os deuses, apenas altera seu modo de existência, e se ela preparou a religião antiga para a morte que lhe daria a religião moderna, a natureza dessa preparação deve exprimir-se nessa mesma alteração, o que torna essencial determinar como os deuses existiam antes que a filosofia interviesse.

2.2. O problema se enuncia de modo simples, mas não se resolve simplesmente quando o caminho passa pela história, pois os historiadores, filosofando tacitamente sobre as religiões primitivas, impedem a apreensão da essência religiosa, e seus fatos são quase sempre feitos de uma filosofia que desmente a religiosidade autêntica, como ao identificar nas origens a ação ritual com a operação mágica, sem perceber que a magia já é degeneração do religioso, cujo ato originário é gratuito e tem em si mesmo sua razão de ser.

2.3. A identificação entre rito e magia nas formas elementares da vida religiosa, produto de uma historiografia inábil e de uma filosofia inepta, foi refutada por obras renovadoras que abrem caminho para uma nova compreensão da religiosidade antiga, pois os fatos históricos mudam quando são feitos por outra filosofia, cabendo verificar como esta responderá à pergunta sobre o modo de existência originário dos deuses.

3. Na origem, a religião grega é o drama do encontro entre homens e deuses num mundo cujo sentido é a própria presença divina, mundo que ainda ignora a natureza e no qual culto e cultura se identificam, de modo que os gregos jamais cultuaram conscientemente entes naturais.

3.1. Responder à pergunta equivale a reintegrar homens e deuses no mundo descrito pelo drama ritual, onde podiam encontrar-se, pois a religião grega, como qualquer outra, é em sua origem o drama desse encontro efetivo, e uma filosofia da religião atenta às origens deve reconhecer que ou os homens encontram os deuses no mundo ou o culto carece de fundamento razoável, já que a religião é sempre atitude humana na presença divina e, do contrário, seria farsa e não o drama cujos atos são as verdadeiras épocas da história.

3.2. Se o mundo da religião grega primitiva se define pela possibilidade do encontro entre deuses e homens, a presença dos deuses é também o sentido desse mundo, o que significa que na origem culto é cultura e não existe outra cultura senão aquela cujos elementos representativos são atos de culto.

3.3. A veracidade dessa afirmação implica consequências igualmente verdadeiras que ainda não receberam a atenção merecida.

3.4. O mundo da mitologia e do ritual define-se apenas pela presença dos deuses, pois ainda não existe uma física que descreva outro mundo do qual eles se ausentaram, sendo a única física possível desse mundo o mito, o rito, a poesia e a religião, razão pela qual é errado afirmar que os gregos pré-filosóficos explicavam fenômenos naturais por causas sobrenaturais, já que nada sabiam do sobrenatural por ignorarem a própria natureza, e quem conhece árvores, fontes e montanhas sagradas pode ainda não vê-las como natureza, assim como quem conhece a natureza pode já não vê-las como divindades vivas.

3.5. Os gregos nunca prestaram culto consciente a entes naturais, pois ou esses entes ainda não eram naturais, quando se ignorava a natureza e os deuses estavam patentes, ou, conhecida a natureza, cultuava-se a divindade que neles havia marcado sua presença, ficando então os deuses ocultos, de modo que natureza e deuses jamais se mostraram simultaneamente no culto tradicional, como atestam a ausência de templos para o Deus-Kosmos e a Deusa-Physis dos filósofos helenísticos ou para Urano, Nix e Hemera dos poetas-teólogos.

4. A natureza descoberta pelos filósofos de Mileto é outro mundo, definido pela ausência dos deuses, incomunicável com o mundo mítico, o que invalida toda exegese alegórica e mostra que o mito não nasce da perplexidade racional, sendo resposta a uma pergunta que ninguém formulou.

4.1. A natureza dos milésios é o primeiro aspecto de um outro mundo onde se apresenta o divino depois que os deuses se ausentaram do mundo ritual, e assim como a presença divina dava sentido a este, a ausência dos deuses dá sentido àquele, motivo pelo qual uma natureza assim definida jamais poderia explicar os mitos, cabendo antes aos mitos explicar todo o acontecer num mundo que ainda não era natureza, e por isso a alegorese, que relaciona os deuses com aquilo que só existe porque eles já não existem, foi corretamente rejeitada pelos apologistas cristãos, pois se os mitos dissessem o mesmo que a física, não haveria razão para os gregos deixarem de crer neles.

4.2. A mitologia não se explica pela ânsia de resolver problemas nem pela perplexidade do homem que raciocina sobre a natureza, já que a razão apenas apazigua momentaneamente perplexidades que logo geram outras, ao passo que as soluções míticas não resultam de interrogação alguma sobre o acontecer, sendo o mito, em sua ambiência religiosa, resposta a uma pergunta de ninguém e solução de um problema jamais enunciado.

4.3. O alegorismo antigo e moderno supunha que mitologema e filosofema respondiam, cada um a seu modo, à mesma interrogação ansiosa, mas tal interrogação não é demonstrável na mitologia, a não ser por fatos produzidos por uma filosofia que pressupõe a natureza antes de sua descoberta, ignorando que uma natureza ainda desconhecida não pode envolver, na consciência de quem a ignora, acontecimentos vividos como puras teofanias.

4.4. O mundo físico e o mundo mítico são incomunicáveis, e entre eles não existe caminho pelo qual os deuses possam transitar.

5. Os deuses não existiam como existem os entes naturais, e o equívoco romântico de identificar a divindade com a natureza, assim como a dedução histórica da filosofia a partir do mito, decorre da falsa concepção da linguagem como mero instrumento do pensamento, que também sustenta o positivismo.

5.1. Antes da filosofia, os deuses não existiam como os entes de uma natureza definida por sua ausência, e supor que fossem a própria natureza constitui o glorioso equívoco dos românticos, contra o qual a filologia clássica, de Lobeck a Wilamowitz e de Hermann a Kern, argumentou de modo irrefutável ao recusar o símbolo-natureza de Bachofen, pois a natureza dos filósofos desde Tales, embora ainda não fosse a máquina do universo da física moderna, já não era o cenário dos dramas cosmogônicos e antropogônicos narrados pela mitologia.

5.2. O romantismo abraçou a nuvem julgando abraçar Juno, pois aquilo que tomava por natureza reveladora dos mitos era apenas outro véu que ocultava o mundo original cujo sentido era a presença viva dos deuses, e seu equívoco consistiu em supor que esse mundo, descrito pelo gesto ritual e significado pela imagem mítica, permaneceria intacto quando arrastado da noite da pré-história e do subconsciente para o meio-dia da história e da consciência.

5.3. Esse procedimento, romântico ou não, assenta numa convicção difícil de extirpar, a de que se pode dizer de outro modo a mesma coisa, quando na verdade outro modo de dizer implica outra coisa dita, sendo uma a existência divina dita pelo mito e pelo rito e outra a dita pela física, e só a concepção da linguagem como instrumento do pensamento permitiu deduzir historicamente a filosofia do mito e aceitar como natural a passagem da teologia à metafísica e desta à ciência positiva, concepção que foi o fator mais decisivo na difusão do positivismo, cujo último reduto talvez sejam hoje as ciências da linguagem.

6. A singularidade grega reside na ausência dos deuses de um mundo antes significado por sua presença, momento marcado pela descoberta da natureza e pela invenção do Homem, que se instala entre o mundo físico e o mítico, fechando o antigo mundo divino, embora os deuses tenham subsistido de forma críptica até o advento de Cristo.

6.1. A Grécia levou a termo, segundo os historiadores, o processo pelo qual a mitologia se transmuta racionalmente em teoria do acontecer natural, humano e divino, mas a história não explica por que assim devia acontecer, sendo certo apenas que a Grécia se separou da Antiguidade quando seus deuses se ausentaram do mundo, momento assinalado pela descoberta da natureza e pela invenção do Homem, cuja presença nos confins dos dois mundos explica a incomunicabilidade entre o físico e o mítico.

6.2. O Homem será o sentido da Natureza assim como os deuses o foram de um mundo ainda não composto de entes naturais, mas repleto de daimones e de signos hierofânicos dispersos, e ao determinar um centro com sua posição na natureza, interiorizou e fechou o antigo mundo divino, que não tinha dentro nem fora, restando depois apenas o Homem do lado de dentro.

6.3. Talvez caiba à filosofia, como à história, apenas descrever esse processo de dessacralização do mundo, cujo resultado foi a humanização do Homem, a naturação da Natureza e a divinização de Deus, constatando que a Grécia é o espaço e o tempo em que humanos, naturais e sobrenaturais caminham para a Humanitas, a Naturitas e a Divinitas, e que o Homem guarda as fronteiras do natural e do humano contra o retorno dos antigos deuses, mas talvez também possa mostrar que, além da história e sob a consciência, os deuses de sacerdotes e poetas subsistiram de modo críptico até Cristo, vivendo a vida que dava sentido ao mundo anterior ao Homem e à Natureza.

7. A existência originária dos deuses, preservada apenas na celebração ingênua do rito e incompreensível para o pensamento naturalista, era uma vida condicionada pela morte, razão pela qual o cristianismo, ao assegurar a imortalidade, encerrou esses cultos como colaboração com o mal.

7.1. O romantismo errou novamente ao supor que mito e rito participaram da vida consciente dos gregos pelo que realmente eram, quando na verdade só o fizeram pelo que nunca foram, enquanto pelo que sempre foram jamais chegaram à plena consciência, constituindo, como componentes de uma única realidade dramática, toda a substância da religiosidade grega genuína, de modo que os deuses só sobreviveram enquanto celebrados ingenuamente nos rituais e definiam um mundo que o pensamento naturalista não podia entender, como a vigília não entende o sono profundo nem a norma do dia entende a paixão da noite.

7.2. As fronteiras que o Homem defende contra o retorno dos deuses são os limites inferiores de sua humanidade, entre o humano e o natural, o que explica que o cristianismo tenha encerrado os cultos antigos como colaboração com o mal, pois seria mau que, confirmados os pressentimentos de um destino imortal, os homens continuassem a celebrar uma vida que só é vida enquanto irremediavelmente ligada à morte.

7.3. A existência dos deuses antes da filosofia era uma vida condicionada pela morte, e embora se afirme que na Grécia o divino se distingue do humano apenas por não sofrer a morte, o que caracteriza, por exemplo, o Zeus da Teogonia de Hesíodo não é a ausência da morte como termo final, mas sua presença como termo inicial, na forma de despotenciação, de modo que a subexistência tartárica de certos deuses condiciona a soberania olímpica de outros e o trono de Zeus imortal se ergue sobre o túmulo de Cronos.

8. O corpo humano, limite da humanidade, é também o vestígio de um rito originário de culto aos deuses que morrem, e o sacrifício cruento, vilipendiado pela filosofia, revela que esses deuses existiam como vida do corpo sacrificado, vida condicionada pela morte, sendo ao mesmo tempo vítima e sacrificante.

8.1. O corpo é o limite da humanidade do Homem, mas também o estereograma de um rito originário de culto aos deuses que vivem uma vida condicionada pela morte, deuses sem lugar na natureza circundada pelo divino imortal, e o último testemunho involuntário do grego a esses deuses primordiais foi manter a sacralização de seu corpo mortal, razão pela qual a filosofia, de Heráclito a Porfírio, condenou o sacrifício cruento como solenização máxima da corporeidade, com razão, pois quem pretende purificar-se do sangue com sangue não sabe o que são os deuses revelados pela teorese, embora os que assim agiam também já não soubessem como os deuses existiam antes da filosofia.

8.2. Sendo o sacrifício um ato de culto e o culto o drama do encontro entre homens e deuses no mundo, cabe perguntar que deuses vinham ao encontro dos homens no momento do sacrifício, pois ou havia deuses presentes aos sacrificadores ou o ato sacrificial jamais teve sentido algum, e quais eram esses deuses que exigiam o sacrifício de um corpo vivo e o que esperavam do sangue derramado e da carne consumida.

8.3. A filosofia da religião compreende mal a importância do corpo e de seu destino para a determinação da essência dos deuses porque compreende mal o papel da ação cultual, já que na origem os homens nada dizem dos deuses senão o que fazem diante deles, e o corpo é o primeiro factum ou sacrificium, o primeiro drama cultual e poema cultural das origens, resultado substantivado de um fazer que é também um dizer, de modo que os deuses a quem se sacrificava um corpo vivo existiam como vida desse corpo, condicionada pela morte, sendo ao mesmo tempo vítima e sacrificante, e no princípio fenomenológico todos os atores do drama estão fora de si, imersos na matriz indiferenciada de onde a mitologia poética recortou suas formas históricas.

9. O pensamento religioso grego, de Homero a Platão, separa firmemente a vida da morte num pessimismo que nega a continuidade desta vida além do nascimento e da morte, ao passo que os deuses originários, mortos no sacrifício, instauram uma vida que a morte não encerra, modelo que persiste nas divindades que morrem e ressuscitam e até no Kosmos e na Physis da filosofia tardia.

9.1. O pensamento religioso grego brilha nos poetas e filósofos que buscam despotencializar a morte, e Homero e Platão, apesar das diferenças, assemelham-se pela firmeza com que separam vida e morte, afirmando que na vida não há lugar para os mortos nem na morte para os vivos, atitude que, sem negar a realidade da morte, merece o nome de pessimismo, pois consiste em não admitir que esta vida persista aquém e além do nascimento e da morte, sendo boa apenas a vida vivida fora do túmulo, seja o que guarda o corpo morto, seja o próprio corpo vivo.

9.2. Essa vida única e infinita, que o nascimento não inicia nem a morte encerra, num mundo ilimitado por nenhum outro, é a vida dos deuses que se apresentam aos homens pelo sacrifício, no qual se mata um deus cuja morte inicia uma vida sem fim, negando a morte como término e trazendo-a para o meio da vida, deuses que ainda existem entre os povos primitivos e provavelmente entre os povos mediterrâneos anteriores aos gregos, e talvez não haja nas grandes civilizações antigas divindade que morra e ressuscite que não tenha sido originalmente esse deus que confere à morte a potência desta vida, de modo que, no fim da filosofia grega, frustrada tentativa de reafirmar o que negara no início, o Kosmos e a Physis querem viver como o mundo antigo, uma vida cujo princípio é a morte de um deus.

10. Os deuses originários não criaram o mundo, mas transformaram-se nele ao morrer, e esse mistério da morte iniciadora da vida terrena, expresso na teocosmogonia pressuposta por Hesíodo e celebrado nos mistérios, forneceu a linguagem simbólica de todas as escatologias gregas e do próprio cristianismo antigo.

10.1. Os deuses que os antigos continuaram a cultuar nos mistérios, apesar de a filosofia demonstrar que não podiam existir na Physis e no Kosmos, não criaram de fora o mundo a que davam sentido, pois esse mundo existe na medida em que os deuses, morrendo, se transformam nas coisas vivas, razão pela qual os antigos celebram sem cessar o mistério da morte, comum a todas as religiões como morte que inicia a vida terrena ou a sobrenatural, embora na origem pré-histórica e subconsciente do povo grego o único mistério fosse o da morte que inicia uma vida que, antes da descoberta do espírito e da natureza, não é natural nem sobrenatural.

10.2. Os deuses não criaram o mundo, mas transformaram-se nele, e essa metamorfose como substância da mitologia ainda unida ao rito aparece nas primeiras páginas da poesia mitológica grega, pois o poema de Hesíodo pressupõe uma teocosmogonia cujo argumento é como o mundo vive a morte dos deuses sem que estes deixem de viver nele, e se o poeta beócio divide em dois esse processo outrora uno e depois os entrelaça é porque a natureza já começava a revelar-se como outro mundo definido pela ausência divina, sendo a Teogonia um hino a Zeus Olímpico já em vias de identificação com o divino circundante da natureza.

10.3. Os deuses primordiais, especialmente os celebrados nos mistérios, transformam-se ao morrer nas coisas que dão sentido à existência neste mundo, e o Mediterrâneo pré-helênico interessou-se tão profundamente pelo mistério da morte iniciadora da vida terrena que criou a linguagem mais rica, expressiva e verídica desse mistério, de modo que, descoberta a Natureza e pressentida a morte como início de uma vida sobrenatural, todas as escatologias gregas tiveram de usar o simbolismo dos antigos mistérios, e por isso o cristianismo, novo mistério da morte, não teve linguagem própria até o fim da Antiguidade.

mitologia/sousa/1973/5.txt · Last modified: by 127.0.0.1