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REVOLUÇÃO RELIGIOSA
BREUIL, Paul. Zarathoustra: Zoroastre et la transfiguration du monde. Paris: Payot, 1978.
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Zarathoustra operou uma revolução radical do pensamento religioso ao fundir visão transhistórica, inteligência especulativa, sensibilidade penetrante e autenticidade mística, usando a letra do politeísmo ariano apenas como referência para conduzir o crente a um domínio abstrato inteiramente novo.
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O espírito introduzido por Zarathoustra no esquema mazdeu importa mais do que a mera constatação de que nomes preexistentes tiveram seus sentidos modificados.
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A análise deve recair sobre a dimensão espiritual da inovação, não sobre a reutilização terminológica da teologia mazdena.
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A comparação de Zarathoustra com reformadores cristãos como Lutero e Calvino é totalmente inadequada, pois estes apenas depuraram práticas abusivas do clero latino, enquanto Zarathoustra inaugurou uma ordem inteiramente nova.
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A doutrina zarathoustriana, rapidamente misturada ao mazdismo tradicional e ao sincretismo dos magos, apareceu por longo tempo apenas como um evento de moralização no interior do mazdismo.
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Se Zarathoustra é considerado simples reformador apesar de suas inovações radicais, então Jesus o é ainda mais, tendo sido visto pelos judeu-cristãos como alguém que “cumpriu a Lei”.
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Se Jesus inaugurou a era original da Boa Nova, então Zarathoustra deve ser reconhecido como autor de uma etapa ainda maior do pensamento religioso, para além do mazdismo e de outras tradições.
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Sem a chave da espiritualidade zarathoustriana, qualquer análise permanece prisioneira dos domínios fechados da filosofia e da história das religiões, incapaz de alcançar as fontes da Sabedoria que as Gathas efetivamente propõem.
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A tríade sagrada dos pensamentos puros, das palavras puras e das ações puras constitui o instrumento necessário para decifrar o mensaje das Gathas em sua plena dimensão.
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O acento de necessidade prática que permeia constantemente as Gathas revela a preocupação do Profeta em atingir o crente no mais profundo de sua consciência, onde se opera o escolha das ações.
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Zarathoustra não pretendia formular um ensinamento hermético reservado a iniciados, valendo-se da terminologia da teologia mazdena de modo análogo ao uso das parábolas campestres por Jesus.
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Segundo o Avesta, as Gathas são santas não tanto como documento literário sagrado da comunidade zoroastriana, mas pela ação santificante que uma leitura piedosa e inteligente opera sobre o crente disposto a aplicar as exigências da ética zarathoustriana.
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Essas exigências são de ordem completamente diferente das práticas religiosas e dos ritos propiciatórios de cultos zoomorfos ou antropomorfos.
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Falar apenas de “reforma” do mazdismo é insuficiente, dado que o Autor das Gathas se expressou com palavras tomadas da teologia mazdena ou do panteão indo-iraniano apenas para não permanecer hermeticamente inacessível.
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Aquele que queria a mobilização imediata dos crentes para iniciar o programa milenar de transfiguração do mundo não podia deixar de usar referências anteriores, modificando-lhes o substrato e rejeitando boa parte delas para não sobrecarregar seu sistema.
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O fato de a doutrina de Zarathoustra ter sido compreendida apenas por uma minoria é consequência secundária do nível em que ela se expressa, não de qualquer hermetismo intencional, pois qualquer pessoa pode a ela aderir, para além de todo exclusivismo religioso ou racismo.
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A condição para a adesão é a capacidade de operar a escolha entre a via reta e os caminhos tortuosos das trevas ahrimanianas.
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Essa escolha é imposta pela mistura metafísica da criação, resultante da ação do Espírito do Erro, Ahra Mainyu/Ahriman, introduzido na criação originalmente pura de Ahura Mazda.
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Zarathoustra, como Buda a seu modo, esforça-se por definir a única medicina salvadora diante de um mundo originalmente bom encontrado em estado de decrepitude.
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Platão, no Teeteto, ressoa esse pensamento ao afirmar que dois modelos são propostos ao homem na natureza: um benigno e divino, outro ateísta e miserável, e que as más ações aproximam o homem do segundo e afastam-no do primeiro.
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A época contemporânea ouve mal a linguagem de Zarathoustra, contaminada pelas demagogias que nivelam tudo ao denominador do maior número e que, ao lisonjear o homem na mediocridade, recusam o super-homem ao qual cada um é chamado pelo cultivo dos valores morais e espirituais.
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Zarathoustra, em seu tempo, já empreendeu a audaciosa revolução alquímica da consciência humana, ultrapassando os quadros sociais sem tocar neles.
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Essa revolução interior, exigente mas não mais utópica do que as lentas mutações das espécies na evolução, visa a transfiguração progressiva da humanidade.
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Como Jesus faria sete séculos depois, Zarathoustra não poupou os poderosos, kavis e karапans, cujos atos traíam consciências tenebrosas, colocando a ética acima de qualquer estrutura ou pretensão teológica.
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Diferentemente de Confúcio, que respeitou os cultos populares e preservou o conteúdo das estruturas, superstições e crenças espiritualmente castrativas, Zarathoustra recusou negociar com a mediocridade religiosa.
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Com Condorcet, que reserva o termo “revolução” para aquela cujo objetivo é a liberdade, Zarathoustra pode ser considerado o maior revolucionário de todos os tempos.
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A revolta de Zarathoustra declara uma guerra impiedosa e sem trégua ao Responsável original pela imperfeição da criação e pela miserável condição humana que toma consciência dessa tragédia cósmica.
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Apenas a visão superior dessa luta ultrapassa suas formas secundárias para atacar sua essência.
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O homem, artesão da reabilitação cósmica em sua escala, deve libertar-se das aporias religiosas que o fazem tomar Deus pelo que é apenas sua sombra.
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A liberdade verdadeira é a vida transfigurada, liberta da máscara da morte pela reabsorção da mentira cósmica introduzida na criação por Ahra Mainyu/Ahriman.
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Sob a palavra de Zarathoustra, o pensamento religioso deu um salto tão avançado que aqueles que viram nele apenas um “reformador” não mediram a extrema vigor com que ele estigmatizou as práticas do clero mazdeu tradicional.
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A violência da condenação dos sacrifícios de animais, fontes lucrativas do clero indo-iraniano, conforme os Yasnas 32.12/14, 44.20 e 48.10, basta para provar que Zarathoustra quis aplicar ferro em brasa no coração mesmo do ritual mais venerado: o sacrifício propiciatório.
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Uma obra enciclopédica sobre as religiões observa que a pregação de Zoroastro é visivelmente dirigida contra uma religião estabelecida, cujos fiéis são, a seus olhos, “homens da mentira e da hipocrisia”, e que a reforma proposta é uma verdadeira revolução, pois rompe com todas as crenças de ritual mágico para afirmar que a verdade da religião reside em sua significação moral, não nas práticas exteriores de valor imaginário.
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O termo “reforma” se impôs porque o mazdismo tradicional continuou a existir e a dominar por seus ritos; para todo o resto, a pregação de Zarathoustra porta todos os caracteres de uma revolução sistemática.
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Essa revolução se resume em: instauração de um monoteísmo absoluto acima dos dois Espíritos confrontados; escatologia prodigiosamente desenvolvida em torno da grande batalha cósmica do Bem e do Mal; eliminação de todo ritual e de todo sacrifício que não seja o interiorizado da santificação do pensamento, das palavras e dos atos; e formulação do respeito pela vida animal, na figura dos bovinos, como protótipo exemplar.
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Os dois aspectos maiores dessa revolução espiritual são a revolução teológica e a revolução animal, a primeira modificando totalmente a essência da divindade e a natureza das relações entre o homem e Deus, a segunda alterando os rapports do homem com o animal e introduzindo uma ética sem igual exceto no budismo.
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A revolução teológica transformou radicalmente a concepção do divino e a forma como o homem se relaciona com ele.
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A revolução animal não apenas reconfigurou a relação do homem com os animais, mas introduziu a vida metafísica dos animais na filosofia e até na oração dos homens.
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