mitologia:zoroastro:breuil:start
PAUL DE BREUIL
BREUIL, Paul. Zarathoustra: Zoroastre et la transfiguration du monde. Paris: Payot, 1978.
-
O nome Zoroastro, transliterado da fonética grega, é ainda mais conhecido no Ocidente do que a forma antiga Zarathoustra, mais próxima da pronúncia restaurada pela filologia orientalista e da transcrição em iraniano moderno do termo Zartoushti, que designa os zoroastrianos modernos ou Guebros do Irã.
-
O propósito do livro não é reconstituir simplesmente uma história de Zarathoustra, mas perseguir simultaneamente um desígnio menos técnico e uma ambição mais vasta, acompanhando as grandes etapas do pensamento zoroastriano e as nuances impostas pelas múltiplas correntes que vieram purificar-se na ética de Zarathoustra.
-
Observa-se grosso modo um desenvolvimento cronológico desde a antiguidade proto-iraniana.
-
A empresa não pode ser saudavelmente conduzida sem convicção íntima da grandeza da mensagem zarathoustriana, assim como é preciso amar Chopin para bem interpretá-lo.
-
A maioria das obras sobre Zarathoustra consiste em estudos analíticos de especialistas cuja crítica filológica permanece obscura mesmo para o público culto, situando-se entre as primeiras publicações europeias sobre a lenda parsi do século XVIII e os ensaios modernos que tentam tornar Zarathoustra mais acessível.
-
De um lado, houve um fluxo de sábias controvérsias reservadas às esferas acadêmicas; do outro, o herói de Friedrich Nietzsche em Assim Falava Zarathoustra (1882-1884), que, sem recorrer à filologia nem à história tradicional, revela-se às vezes mais zarathoustríano em sua busca do Super-homem do que muitas mutilações cientificamente operadas.
-
Nietzsche teve ao menos o mérito de devolver ao público a imagem de um rosto romanceado, mas engrandecido e liberto do microscópio dos laboratórios.
-
Desde os autores gregos e latinos, o Ocidente cristão opôs ao conhecimento objetivo do Sábio do Irã antigo uma barreira dogmática, considerando-o fundador da grande heresia dualista.
-
Uma objetividade verdadeira impõe-se hoje, e a filologia a ela chegou quando conduzida por sábios capazes de pensar com um cérebro liberado do contexto cultural da religião em que nasceram, reconhecendo a elevação espiritual do mensaje zoroastriano e sua influência considerável sobre ideias filosóficas e crenças às quais o Ocidente permanece devedor.
-
Eminentes filólogos, arqueólogos e historiadores do século XX, entre os quais Benveniste, Christensen, Jackson, Foucher, Bousset, Moulton, Dhalla, Bidez, Cumont, Dumézil, Duchesne-Guillemin, Meillet, de Menasce, Messina, West, Massé, Ghirshman, Herzfeld, Wikander, Bailey, Bartholomae, Oldenberg, Lommel, Nyberg e Widengren, sublinharam frequentemente o aspecto autenticamente espiritual dos textos do Avesta.
-
Comparatistas de renome internacional e estudiosos de outras disciplinas religiosas, como Mircea Eliade no Tratado de História das Religiões e J. Murphy em Origem e História das Religiões, confirmam a visão objetiva que se impõe para além da miopia das críticas demasiado especializadas.
-
Desde o século XIX, pensadores e eruditos de várias origens contribuíram para uma apreciação crescente do zoroastrismo, desde Samuel Laing, que viu em Zarathoustra um profeta moderno de doutrina racional, até Amir Mehdi Badi, cujo Zarathoustra de 1961 oferece uma interpretação serena das Gathas, passando por A. V. William Jackson, pelos eruditos parsis de Bombaim como Sir J. C. Coyajee, por R. P. Masani e pelos trabalhos estruturados de Widengren em Religiões do Irã (1968).
-
A abordagem filosófica de Zarathoustra exige a busca de sua hermenêutica espiritual, cuja chave indispensável é a trilogia sagrada dos pensamentos puros, das palavras puras e das ações puras: Humata, Hukhta, Hvarshta, sem a qual a interpretação do pensamento do Profeta permanece falsa, como ocorre com quem lê uma pauta sem conhecer a clave.
-
Contra a letra que tantas vezes mata o espírito das expressões místicas, busca-se recuperar toda a amplitude espiritual de Zarathoustra, mais próximo da História do que da lenda, mas que transborda por todos os lados o quadro de seu país de origem e da religião mazdena que o viu nascer.
-
Perseguindo constantemente a altitude do pensamento zoroastriano no espírito das Gathas e dos comentários posteriores que o respeitaram, evitam-se os elementos tardios do sincretismo mazdeu prejudiciais à plenitude da expressão zarathoustriana, mantendo proximidade com as conclusões acadêmicas mais objetivas sem fazer obra de filologia, mas também sem sacrificar o voo filosófico a uma matemática fastidiosa.
-
A abordagem proposta visa seguir o filão esotérico que fecundou discretamente religiões prestigiosas, em paralelo a uma tradição mazdeo-zoroastriana logo carregada de elementos exteriores ao Avesta original, mas ainda admiravelmente representada por duas minorias no Irã e na Índia, e cujo vetor transhistórico permite reencontrar, para além das fontes do cristianismo, talvez a mais alta visão filosófica que o mundo conheceu, capaz de oferecer às almas modernas o sentido hoje extraviado do bem e do mal.
-
Com Descartes, espera-se que os críticos não sejam tão parciais a ponto de recusar ouvir as razões expostas apenas por serem explicadas em língua comum.
-
mitologia/zoroastro/breuil/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
