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VISÃO UNIFICANTE
CTIC
- O sábio, enquanto pensa como homem, distingue o eu do outro e uma coisa da outra, mas ao se render ao Céu trata tudo como uno, e como toda linguagem diferencia — distinguindo pelos nomes as coisas das quais se diz “isso é” ou “isso não é” —, o sábio não encontra palavras para a totalidade que experimenta.
- Hui Shih formulou o paradoxo “tudo é um” como última de suas proposições
- Chuang-tzŭ examina essa possibilidade no capítulo “A ordenação que nivela as coisas” e a rejeita
- Ao acrescentar à unidade a proposição de que ela é una, chega-se a dois — ponto semelhante ao de Platão sobre o Um e seu nome no Sofista 244D
- Chuang-tzŭ fala apenas do sábio tratando as coisas como uma, jamais de as coisas serem verdadeiramente uma
- As histórias de habilidade mostram que “tudo é um” seria fórmula insuficiente
- O carpinteiro não apresenta alternativas, mas faz discriminações mais finas do que pode definir em linguagem
- “A maior discriminação é não dita” — enunciação de Chuang-tzŭ
- A unidade entre a madeira esculpida, a mão e o olho do carpinteiro assemelha-se à “unidade na variedade” da estética ocidental
- O processo pelo qual o sábio cessa de diferenciar não é uma fusão com as coisas, mas um desapego delas — as pessoas comuns se enredam nas circunstâncias e sucumbem ao peso de suas posses, enquanto o sábio trata as coisas como coisas sem ser transformado em coisa por elas, retirando-se para um ponto de vista a partir do qual até seu próprio corpo é percebido como externo.
- “Trata as coisas como coisas, mas não é transformado em coisa pelas coisas” — slogan dos capítulos Externos
- Um adepto é descrito como externalizando primeiro o mundo, depois as coisas que sustentam a vida, por fim a própria vida
- Outros são ditos “tratar sua própria carne e osso como externos a si” e “viajar pelo interior da carne e do osso”
- O sábio olha para fora mesmo ao se recolher: “usa o olho para olhar o olho”, “tem ouvidos e olhos como imagens que percebe”, toma seu posto no “olho último”
- O recolhimento não é uma exploração da experiência interior — a atitude de Chuang-tzŭ diante do mundo é decididamente extrovertida
- Ao se desapegar do múltiplo, o sábio retorna à raiz, ao tronco ou à semente de que as coisas brotam — ao ancestral de que descendem, ao portal pelo qual emergem, ao eixo em torno do qual giram —, e é nesse ponto comum de origem que todas se revelam fundidas entre si e com o próprio sábio num todo único.
- Impor uma dicotomia mente/corpo seria equívoco — o sábio não se retira para um reino de puro espírito a contemplar a matéria
- A filosofia ocidental perseguiu a realidade além das aparências, supondo que conhecer a verdade do cosmos ensinaria como viver nele
- A tradição mística ocidental identifica o fundamento das coisas como Ser puro ou Realidade última, cuja visão constitui também salvação pessoal
- A meta da filosofia chinesa é o Caminho pelo qual viver e morrer — sua realização pode ou não implicar o desvelamento de ilusões na visão cotidiana do mundo
- Para o taoísmo, o que importa é que o homem recolhido ao “portal” tem diante de si um curso claro, e todas as suas ações tornam-se “Não-fazer” — movimento espontâneo alinhado ao Caminho
- O sábio torna-se também capaz de espelhar lúcida e concretamente o céu e a terra
- O indiferenciado não pode ser nomeado, pois todos os nomes servem para distinguir, e mesmo chamá-lo de “Caminho” o reduz ao trajeto que revela — ainda assim, como é esse trajeto que se busca nele, “Caminho” é o substituto mais adequado.
- “O termo Caminho é emprestado para que se o caminhe” — enunciação dos capítulos Externos
- Lao-tzŭ chama o indiferenciado às vezes de “o inominável” e também afirma: “não sei seu nome; dou-lhe o estilo de Caminho”
- No chinês clássico, os verbos existenciais são yu (“há”) e wu (“não há”), nominalizáveis como “o que há/algo” e “o que não há/nada”
- As palavras para o real e o ilusório são shih (“sólido/pleno”) e hsü (“tênue/vazio”)
- Apenas as coisas diferenciadas podem ser chamadas de “algo” ou “sólido”; o Caminho pode ser descrito frouxamente como “nada” ou “tênue”, mas transcende todas as dicotomias — o todo do qual as coisas ainda não se dividiram será ao mesmo tempo “sem algo” e “sem nada”
- O mundo físico possui mais ser e realidade do que o Caminho — na medida em que os conceitos chineses e ocidentais podem ser coordenados
- A imagem ilusória de um mundo múltiplo é comparada a um sonho do qual o sábio desperta
- A famosa história do sonho de Chuang-tzŭ em que ele era uma borboleta aponta para outro ponto: a distinção entre vigília e sonho é ela mesma uma falsa dicotomia — se as distinguimos, como saber se agora se sonha ou se está desperto?
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