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GRANDE IMAGEM NÃO TEM FORMA
La Grande Image n’a pas de forme ou du non-objet par la peinture, Seuil, « L’Ordre Philosophique », 2003
- Este ensaio persegue o que por princípio escapa a qualquer perseguição e não se deixa conceber, tomando por objeto o não-objeto — o que é demasiado vago, difuso, evanescente e confundido para ser imobilizado e isolado, mergulhando no indiferenciado e não podendo ter a consistência de um em-si.
- O não-objeto não é assignável nem representável, não pode constituir-se de “ser” nem “situar-se diante” do Olho ou do Espírito recortando suas arestas.
- Dele se faz experiência sem fim, sendo reconduzido à indefinição do fundo das coisas — mas a ciência e a filosofia o abandonam em sua pressa por tratar logicamente das coisas e constituir um “isto” manipulável pelo pensamento em resposta à pergunta “o que é isso?”.
- Em direção a esse inobjetivável do “fundo das coisas”, difícil de recuperar nas redes da grande língua europeia, abre-se aqui um caminho de acesso a partir da rica literatura crítica que os letrados chineses dedicaram à pintura ao longo de quase dois milênios.
- A pintura chinesa se devotou a figurar o insondável no interior do traçado — o Fundo através da forma — e os letrados puderam ao mesmo tempo produzi-la e refleti-la porque se apoiavam no pensamento de um continuum de existência e de sua “via” de imanência, atualizando-se e reabsorvendo-se: o tao, o tao dos taoístas.
- Percorrer com paciência esses antigos tratados de arte da pintura convida a aprofundar o desvio tanto em relação ao estatuto ontológico da forma acoplando-se à matéria quanto em relação ao partido lógico da determinação e à ambição, dita estética, da representação.
- O que se percebe primeiro como pequenos abalos discretos — que perturbam inesperadamente o alicerce do pensamento ocidental — revela progressivamente, em sua fissura, uma outra maneira de se engajar no pensamento: que não se fundaria nem no Ser nem em Deus, na qual a elucidação das coisas se operaria sem arrancamento, e onde soterramento e dessoterramento colaborariam — tomada e abandono — à semelhança do grande processo de existência, em vez de aguardar, numa clareza definitiva e construindo a perspectiva, o desvelamento da Verdade.
- Essa outra possibilidade de pensamento é tornada eminentemente sensível pela pintura evocada nos tratados, que explora a coerência para extrair efeitos que basta contemplar para neles se abrir, fruí-los e partilhá-los.
- Aprofundar metodicamente o desvio não é construir mundos à parte nem fazer a China servir ao papel de “outro” libertador ou compensatório — mas encontrar nela ocasião e modo de retornar ao impensado.
- A questão que se coloca à filosofia é antes de tudo uma questão de tomada: como aproximar-se daquilo a partir do que se pensa, a montante, fazendo alicerce, e que por isso mesmo não se pensa?
- O mais difícil é sempre adquirir recuo no espírito — e passar pela China, desaderindo das próprias coerências, recria itinerário e caminhamento no pensamento.
- A China é aqui um viés para desenterrar possíveis soterrados e reabrir a inteligência.
- Por se tratar do que nunca se pode dizer destacando e proclamando — “trata-se de” —, só é possível cercar o objeto, girar em torno dele; e é assim que, de uma ponta à outra deste trabalho, o mesmo fundo — sem nunca ser o mesmo, pois é sem essência — é abordado por escavações e desimpedimentos sucessivos, deslocamentos e cruzamentos.
- Cada novo desenvolvimento retoma o anterior modificando o ângulo de abordagem, oferecendo ao longo do caminho múltiplas facetas e acessos: da inseparação entre presença e ausência (cap. I) à indissociação entre imagem e fenômeno (cap. XV), com o capítulo VIII — sobre a não-representação — iniciando a meio percurso o retorno; aquém dele é convocado o Laozi, além dele o Zhuangzi.
- Não há outro modo de introduzir na eventualidade de um pensamento outro senão por assimilações progressivas — e simultânea desassimilação dos próprios termos e das próprias tomadas —, pois todo discurso contínuo se encerra em sua tautologia e se torna opaco ao trabalho da diferença.
- Mais do que exposição ou explicação, é necessário processo e viagem, desenrolando-se em derivas organizadas: partir para aportar mais longe, ir de porto em porto e, mal se aportou, mal se recuperou o pé, partir novamente.
- A acumulação de títulos neste ensaio reflete o fato de que a própria reflexão é de vários fundos — sendo seu trabalho abri-los um ao outro e fazê-los comunicar.
- “A grande imagem não tem forma”, como diz o Laozi — o que nos põe a caminho do enigma e, provocando a interpretação, nos guia em direção a sua evidência.
- “Do não-objeto” coloca em causa o estatuto da representação e convida a pensar o indiferenciante no seio do diferenciado — exigindo toda vigilância para tratar da pintura e do pensamento chineses sem cair no subjetivante e no complacente, no fusional e no místico, como avesso do recorte próprio ao racionalismo ocidental do conhecimento.
- “A operação de desontologia” convoca a abrir na língua uma via para esse des- que não seja mais o des- do acabamento realizador e da plena essência — constituindo-se em auto- da autoconsistência —, mas, ao contrário, o do resoterramento e do retraimento, como retorno ao indiferenciado: o de des-fazer, des-pintar, des-representar.
- Este ensaio é apenas um capítulo, sem conclusão, mas constitui um nó no conjunto do trabalho — retomando, a partir da literatura pictural da China, a questão inversa de De l'essence ou du Nu: como, segundo quais condições de possibilidade teórica, foi possível posar um objeto da percepção, ao mesmo tempo isolá-lo, imobilizá-lo e abstraí-lo em forma estável e definitiva.
- O ensaio puxa novamente o fio de um trabalho mais antigo consagrado à “insipidez” no pensamento e na estética chinesas, conduzindo a revisitar os estágios anteriores ou posteriores à atualização da forma — ou do sabor —, quando ela mal se esboça ou se reabsorve, quando as diferenças se esfumam e não se está mais privado por sua disjunção.
- A reflexão sobre a des-representação aqui engajada recorta logicamente análises anteriores — no plano literário — em La Valeur allusive e Le Détour et l'Accès; o presente trabalho é a retomada e o desenvolvimento do capítulo XII deste último ensaio, abrindo a problemática à pintura.
- A questão do esboço — que dá a pensar a plenitude do inacabado, ou a quantidade de vazio necessária para que o pleno possa exercer seu pleno efeito — estabelece ligação com a reflexão do Traité de l'efficacité sobre as condições de efetividade do efeito e a dessaturação necessária para que um efeito possa se desdobrar.
- A propósito da forma e da pintura, este ensaio retoma a problemática da desexclusão tentada em Un sage est sans idée — o Sábio é aquele que não se afunda em nenhum pensamento e não exclui nenhum, para se preservar da parcialidade e manter sua disponibilidade.
- Da mesma forma, a grande imagem é aquela que não se afunda em nenhuma forma e mantém diversas formas compossíveis, preservando-se do anedótico e conservando uma semelhança sem assemelhar-se, para pintar a disponibilidade do fundo.
- Este ensaio prolonga o trabalho anterior voltado a sair do pensamento do tempo e do grande drama existencial que ele organiza — sondando a capacidade do momento que varia segundo a ocorrência e afastando-se da lógica grega da percepção para explorar, na China, uma lógica da respiração.
- O inobjetivável que o pincel dos letrados chineses extrai do fundo de imanência da pintura — e de onde se desdobram as formas renovando-se pela alternância do vazio e do pleno — não é outro, em seu fundo, senão o poder de trans-formação da “vida”.
- Tomar-restituir — ao que a pintura convida na China, isto é, “tomar” a forma e “restituí-la” ao fundo indiferenciado — é o próprio movimento dessa respiração que conduz à renovação.
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