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MATGIOI

Luc Benoist

  • Na renovação da ideia de uma fonte primordial e tradicional de todo conhecimento, a obra de René Guénon foi precedida pela de Albert Puyou, marquês de Pouvourville, que entre 1883 e 1893 exerceu funções administrativas no Tonkin sob uniforme de oficial.
    • Albert Puyou — marquês de Pouvourville — é o nome civil do autor que posteriormente adotaria o pseudônimo iniciático de Matgioi.
    • O Tonkin corresponde à região norte do atual Vietnã, então sob administração colonial francesa.
  • Movido pela curiosidade de penetrar o pensamento das populações que inspecionava, Pouvourville foi gradualmente seduzido pelo espírito metafísico do taoismo, passou a ler manuscritos e a buscar a companhia de letrados capazes de auxiliá-lo na compreensão desses textos, até que teve a fortuna de encontrar um mestre, com quem se reunia todas as noites e que o julgou digno de receber a iniciação por ocasião de sua afiliação a uma sociedade secreta, onde tomou o nome de Matgioi.
    • Taoismo — corrente filosófica e espiritual chinesa centrada na noção do Tao, o princípio universal subjacente à realidade.
    • O nome iniciático Matgioi significa O Olho do Dia.
    • A afiliação a uma sociedade secreta constitui o rito formal de transmissão da iniciação, distinguindo-a do mero estudo intelectual.
  • De volta à França, Pouvourville empenhou-se em difundir os conhecimentos que tivera o privilégio de receber, publicando com Léon Champrenaud — que adotara o pseudônimo de Théophane — a revista La Voie, de duração trienal, e depois, em 1905, La Voie métaphysique, concebida como primeira parte de uma trilogia dedicada aos princípios da Tradição, seguida em 1907 por La Voie Rationnelle, consagrada à sistematização da Tradição sob a forma do taoismo, permanecendo inacabada a terceira parte, que deveria tratar da adaptação política e social dessa Tradição por Kongtseu.
    • Léon Champrenaud — colaborador de Matgioi e cofundador da revista La Voie — assinou seus textos com o pseudônimo Théophane.
    • La Voie métaphysique deveria ser a primeira parte de uma trilogia estruturada em torno dos princípios, da sistematização e da aplicação da Tradição.
    • La Voie Rationnelle — segunda parte da trilogia — trata da sistematização da Tradição sob a forma do taoismo.
    • Kongtseu é o nome chinês daquele que os missionários cristãos denominaram Confúcio, pensador a quem se atribuía a adaptação política e social da Tradição.
  • Não era a primeira vez que o taoismo era apresentado aos letrados franceses, pois um quarto de século antes outro administrador colonial, P.L.F. Philastre — cuja atividade erudita arruinara a carreira diplomática — havia publicado pela primeira vez a tradução do Yi-King em dois grossos volumes nas Annales du Musée Guimet entre 1885 e 1893.
    • P.L.F. Philastre — administrador colonial e erudito — é o responsável pela primeira tradução francesa do Yi-King.
    • Yi-King — também grafado I Ching — é o Livro das Mutações, obra fundamental do pensamento chinês.
    • As Annales du Musée Guimet constituíam a publicação científica do museu parisiense dedicado às religiões e civilizações orientais.
  • O que distinguia a obra de Matgioi era a extrema simplificação e a lucidez de sua exposição, que punha em relevo, como ele próprio exprimiu, a universalidade da síntese e a generalidade dos termos cuja expressão os ideogramas chineses permitem.
    • A clareza expositiva de Matgioi era reconhecida como sua principal contribuição ao entendimento ocidental do taoismo.
    • Os ideogramas chineses — sistema de escrita logográfica — são valorizados por sua capacidade de condensar sentidos universais em formas únicas.
  • René Guénon insistiu muito no caráter puramente metafísico de La Voie Rationnelle, expurgada da duvidosa contaminação sentimental que adultera todas as religiões ocidentais.
    • René Guénon — pensador francês e principal teórico do tradicionalismo integral — reconheceu e valorizou explicitamente a obra de Matgioi.
    • A distinção entre metafísica pura e religiosidade sentimental é central na perspectiva guénoniana e atravessa toda a avaliação da obra de Matgioi.
  • A terceira edição da obra de Matgioi foi completada, como o fora a segunda, por dois apêndices importantes — o primeiro descrevendo uma cerimônia de investidura iniciática extraída de uma obra intitulada De l'autre côté du mur, e o segundo apresentando as partes principais de um discurso que o chefe de uma organização iniciática pronunciou para um discípulo que partia para o Ocidente, discurso que se supõe ser o que o próprio Matgioi ouviu por ocasião de seu retorno à França e que publicou sob o título Les Adieux du Sage na revista La Voie, fundada com Léon Champrenaud.
    • De l'autre côté du mur — obra de Matgioi — é a fonte do primeiro apêndice, dedicado à descrição de uma cerimônia iniciática.
    • Les Adieux du Sage — Os Adeuses do Sábio — é o título sob o qual Matgioi publicou o discurso de despedida que teria ouvido de seu mestre ao partir para a França.
    • O discurso do chefe da organização iniciática constitui uma transmissão oral de ensinamentos tradicionais, preservada e divulgada por escrito por Matgioi.
  • Albert de Pouvourville foi assim um dos primeiros ocidentais a compreender e a denunciar os defeitos da civilização moderna e a preparar uma aproximação espiritual entre o Oriente e o Ocidente.
    • A posição de Pouvourville como pioneiro da crítica à modernidade e do diálogo entre civilizações situa-o na origem de uma corrente de pensamento que Guénon viria a aprofundar.
    • A aproximação espiritual entre Oriente e Ocidente pressupõe o reconhecimento de uma Tradição primordial comum, subjacente às formas particulares de cada civilização.
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