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vedanta:deutsch:1985:4

4 O Si

DEUTSCH, Eliot. Advaita Vedānta: a philosophical reconstruction. Pbk. ed ed. Honolulu: East-West Center Press, 1985.

1. Brahman constitui a realidade, o mundo possui caráter ilusório e o si mesmo não difere de Brahman, de modo que a multiplicidade aparente não compromete a identidade essencial entre a existência humana e o Absoluto.

2. A realização da unidade do real depende do conhecimento de si, que liberta da dor, da ignorância e do aprisionamento, exigindo distinguir o verdadeiro Si mesmo da organização corporal, das atividades mentais e da vida emocional e volitiva com as quais a pessoa habitualmente se identifica.

I

1. O silêncio mantido por Bahva diante das perguntas de Bāṣkali sobre Brahman constitui uma forma de ensinamento que somente se torna compreensível quando se reconhece no próprio silêncio a natureza do ātman.

2. A essência de uma pessoa não pode ser alcançada por seu nome, porque a experiência do espírito e do Absoluto ultrapassa todas as denominações e se realiza no silêncio puro.

3. A atribuição de nomes tende a converter a pessoa em uma coisa determinada, enquanto a renúncia interior a essas convenções permite reconhecer a ausência de uma identidade substancial separada e realizar o silêncio como plenitude do ser.

4. O ātman é a consciência pura, indiferenciada e autoiluminadora, livre de determinações temporais e espaciais e inacessível ao pensamento objetivante, que sustenta a pessoa individual e não difere de Brahman.

5. A consciência do ātman transcende a experiência sensorial e mental ordinária ao superar a divisão entre sujeito e objeto, constituindo um estado incondicionado cuja ausência de diferenciação não representa um vazio, mas a riqueza infinita do ser espiritual.

6. A luminosidade do ātman pertence à sua própria natureza, de modo que sua manifestação não depende de uma iluminação recebida de algo exterior.

7. O ātman não nasce, não se submete a um presente delimitado e não termina no tempo, porque essas determinações pertencem somente à realidade condicionada, enquanto sua realização constitui um agora eterno.

8. O Si mesmo consciente permanece livre de nascimento e morte, pois sua realidade não participa das condições temporais que delimitam os entes particulares.

9. A ausência de determinações espaciais no ātman impede estender a ele as relações que organizam os objetos empíricos, porque o conteúdo da experiência espiritual não pode ser circunscrito pelas condições do espaço.

10. O corpo não pode ser concebido como receptáculo do Si mesmo, porque sua delimitação física não comporta a realidade não espacial do ātman.

11. O ātman é inacessível aos olhos, à fala e à mente, porque sua realidade ultrapassa os meios ordinários de percepção, expressão e pensamento.

12. A grandeza e a luminosidade própria do ātman não o tornam uma forma concebível, pois sua manifestação excede a determinação intelectual.

13. O pensamento opera com formas e multiplicidade, enquanto o ātman constitui um estado simples de ser e o sujeito puro que fundamenta todas as distinções entre sujeito e objeto, tornando seu conhecimento uma revelação de si que não depende da percepção ou dos demais meios ordinários de conhecer.

14. A identidade entre ātman e Brahman, expressa pela fórmula “tu és isso”, representa um movimento que parte da consciência individual, atravessa a consciência universal e alcança a consciência pura, na qual a separação entre particularidade e universalidade é superada.

15. A identidade entre o humano e o divino somente se torna significativa quando suas determinações incompatíveis são removidas e se reconhece a consciência pura como fundamento comum, pois o indivíduo finito e uma realidade transcendente permanecem distintos enquanto considerados segundo seus atributos particulares.

16. A profundidade do ser humano não constitui uma propriedade individual, mas a própria realidade, de modo que a remoção dos desejos, das emoções, das atividades mentais e do ego não revela um nada, mas o espírito como consciência livre e atemporal.

17. Embora o ātman não possa ser objeto do pensamento nem conclusão de uma demonstração racional, a impossibilidade de negar a existência daquele que duvida oferece um argumento preparatório que orienta a mente para o reconhecimento experiencial do Si mesmo.

18. A dúvida sobre a própria existência pressupõe necessariamente a existência de quem duvida, de modo que a tentativa de negar o sujeito depende daquilo que procura negar.

19. A crença na própria inexistência exprime uma condição de ilusão, porque seu enunciado pressupõe a presença daquele que a sustenta.

20. O argumento baseado na impossibilidade de negar o sujeito não demonstra propriamente o ātman, pois estabelece apenas o indivíduo consciente que reconhece um “eu” na vigília, introduzindo uma passagem não justificada entre a autoconsciência condicionada do jīva e a consciência pura da realidade não dual.

II

1. A alma individual não se identifica imediatamente com o ātman supremo por causa das condições limitadoras que a fazem parecer distinta, mas também não lhe é essencialmente diferente, podendo ser compreendida como um reflexo do Si mesmo nos corpos.

2. O jīva reúne realidade e aparência, porque seu fundamento é o ātman, enquanto sua finitude e seu condicionamento pertencem à manifestação empírica, tornando a pessoa individual real na experiência e destituída de independência última diante de sua identidade essencial com o Absoluto.

3. A teoria do reflexo compreende o jīva como a manifestação do ātman no espelho da ignorância, preservando sua identidade essencial com o original apesar da aparência de separação, enquanto as diferentes condições das mentes explicam a diversidade de suas manifestações, assim como o estado da água modifica a imagem nela refletida.

4. A metáfora do espelho indica que a serenidade e a transparência da mente favorecem a manifestação da verdade, pois a redução da agitação, dos desejos e das características particulares permite refletir mais adequadamente a realidade do ātman.

5. A teoria da limitação compreende a individualidade como uma delimitação conceitual da consciência infinita pela ignorância, em vez de um reflexo propriamente dito, porque as condições sobrepostas fazem o Si mesmo parecer múltiplo e finito, assim como o espaço único parece dividir-se quando considerado segundo recipientes e ambientes.

6. A teoria da limitação atribui ao jīva maior consistência prática que a teoria do reflexo, mas ambas reconhecem sua individualidade como aparência condicionada, cuja superação não elimina o Si mesmo e sim revela sua verdadeira natureza como Brahman.

III

1. A análise do si mesmo empírico constitui uma fenomenologia das formas de consciência submetidas à ignorância, voltada a esclarecer o processo de identificação equivocada pelo qual uma aparência individual é tomada como realidade independente.

2. A consciência de vigília constitui uma relação intencional com objetos externos e forma a percepção inicial de um “eu”, mas sua atenção móvel e sucessiva permanece submetida ao tempo, impedindo apreender simultaneamente a totalidade das coisas.

3. A vigília orientada para o desfrute dos objetos produz insatisfação e favorece a identificação com o corpo físico, compreendido como revestimento material ou alimentar, embora esse corpo condicionado, temporal e finito não possa constituir o verdadeiro Si mesmo.

4. A vigília representa o ponto de partida da consciência de si e da investigação filosófica, mas nela o sujeito esquece sua verdadeira natureza ao considerar-se uma coisa entre outras, alienando-se da plenitude do próprio ser.

5. A consciência onírica reelabora impressões, desejos e materiais sensíveis da vigília e influencia experiências posteriores, constituindo uma extensão interna da vida desperta cujos conteúdos são diariamente invalidados pelo despertar, ao contrário da experiência empírica, que somente é transcendida pelo conhecimento de Brahman.

6. O sonho evidencia a continuidade da consciência e uma relativa independência do sujeito em relação aos objetos, mas conserva sua identificação com conteúdos sutis que moldam a personalidade e escapam ao controle voluntário, tornando insuficiente a consciência dos desejos para assegurar liberdade enquanto suas causas permanecem desconhecidas e enraizadas na ignorância.

7. Os revestimentos da vitalidade, da mente e do entendimento constituem o corpo sutil, e o primeiro deles exprime a identificação com a vida orgânica persistente, da qual pode nascer a crença na própria imortalidade, embora o jīva, enquanto indivíduo condicionado, não alcance a imortalidade espiritual antes da realização do ātman.

8. A vida mental articula a mente sensorial, que reúne impressões e favorece o envolvimento possessivo com os objetos, e o intelecto, que discrimina, julga e torna possível o entendimento, formando conjuntamente o órgão interno responsável pelas funções mentais da vigília e do sonho.

9. A identificação com a atividade mental permanece submetida à ignorância porque o conhecimento ordinário conserva a separação entre sujeito e objeto e projeta elementos do conhecedor sobre o conhecido, de modo que o verdadeiro conhecimento de si exige uma transformação da consciência que ultrapasse a totalidade das funções mentais.

10. O sono profundo suspende as distinções e a atividade desejante, produzindo uma felicidade integradora que não equivale à consciência transcendental, pois as diferenças permanecem latentes na ignorância e constituem um corpo causal do qual podem ressurgir os revestimentos manifestos da vigília e do sonho sob a influência da experiência passada.

11. A consciência pura associada ao ātman requer uma descrição que combine negações e afirmações, porque não pode ser adequadamente delimitada pelas características dos estados ordinários de consciência.

12. O quarto estado não consiste em consciência dos mundos interno ou externo, nem em simples consciência ou inconsciência, mas na realidade não dual, pacífica e imutável em que cessam os fenômenos e que permanece além da determinação empírica, da demonstração, do pensamento e da descrição.

13. A consciência transcendental, denominada turīya ou quarto estado, realiza o conhecimento do Si mesmo e conduz à libertação.

14. A distinção entre experiência espiritual determinada e indeterminada esclarece a passagem da individualidade à consciência transcendental e evidencia, por sua diferença em relação ao sono profundo, o caráter rigorosamente não dual da realização do ātman.

15. Na experiência espiritual determinada, a ausência de dualidade torna-se presença consciente da realidade, distinguindo-se do sono profundo, em que as atividades apenas permanecem suspensas, pois o sujeito concentra-se no real e se encontra em passagem da condição individual à realização do ātman.

16. A experiência espiritual indeterminada consuma essa passagem como intuição pura da não dualidade, na qual o Si mesmo deixa de apenas estar consciente da realidade e se realiza como a própria realidade.

IV

1. Os quatro estados manifestam a continuidade de uma única consciência que aparece diversificada pelas identificações e condições limitadoras, formando etapas de ampliação da consciência correspondentes ao mundo fenomênico, ao divino qualificado e à realidade absoluta de Brahman sem atributos.

2. A hierarquia dos estados culmina em uma autotranscendência que invalida a pretensão última dos níveis anteriores, pois a vigília e o sonho prendem o sujeito aos objetos, o sono profundo o liberta temporariamente deles e turīya realiza sua identidade com a realidade, revelando a finitude das experiências precedentes.

3. A multiplicidade de papéis, funções e identificações da pessoa empírica produz a crença em uma individualidade independente e atribui valor absoluto às condições corporais, vitais, mentais e emocionais, enquanto a ignorância impede reconhecer que todo ser, realidade e valor procedem do verdadeiro Si mesmo e que a consciência não possui, em sua identidade com o Absoluto, um limite último.

4. A unidade do Si mesmo com Brahman afirma a natureza essencialmente espiritual do ser humano e sua identidade profunda com a realidade, apoiando-se na experiência e na análise fenomenológica das identificações equivocadas, de modo que o conhecimento dessa não diferença constitui um ato de liberdade e a realização das possibilidades humanas.

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