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2.1 A Natureza e os Resultados da Nesciencia

ALSTON, Anthony John. Śaṅkara on the Absolute. London: Shanti Sadan, 1980. (A Śaṅkara Source-Book, v. 1).

CAPÍTULO II

A DOUTRINA DA NESCIENCIA

1. A Natureza e os Resultados da Nesciencia

1. A doutrina de Śaṅkara resume-se num verso que circula entre os mestres de sua escola, segundo o qual este universo da pluralidade é verdadeiramente uma ilusão, a realidade é o Absoluto indiferenciado com o qual o eu se identifica, e a prova disso reside nos Upanishads, nos grandes mestres que realizaram a verdade da doutrina upanishádica e na própria experiência pessoal.

2. A doutrina da nesciencia, embora cumpra também a função teológica de eliminar contradições entre textos upanishádicos, como entre os que declaram o Absoluto isento de distinções internas e os que o descrevem modificando-se na forma de um mundo diversificado, relegando estes últimos ao ponto de vista da nesciencia, ocupa-se primordialmente da experiência humana, já que os próprios textos pouco valem se não conduzem à anulação da ilusão pela qual alguém se sente identificado com o corpo e a mente individuais, proclamando os Vedas, na interpretação advaita, que o homem em sua verdadeira natureza é idêntico ao Espírito único que tudo sustenta, infinito, eterno, acima de toda diferenciação, mudança, limitação e sofrimento, de natureza de paz perfeita, verdade obscurecida pela ignorância ou nesciencia (avidyā), que reduz o homem a indivíduo que age e sofre, pinta diante dele um mundo de multiplicidade e ilusão e o mantém girando na roda de nascimentos e mortes chamada saṃsāra, de modo que a verdade eterna contida nos textos védicos requer, para ser comunicada ao discípulo, um mestre que a tenha experimentado pessoalmente, cuja orientação amorosa é necessária para extirpar todo apego e demais defeitos psicológicos, sem o que o Espírito não resplandece no coração em sua verdadeira natureza, qualquer que seja a compreensão intelectual alcançada.

3. Da falha original em apreender a verdadeira natureza do Si (agrahaṇa) surgem concepções errôneas positivas (anyathāgrahaṇa), assim como da falha em apreender a verdadeira natureza da corda surgem sobreposições errôneas (adhyāsa, adhyāropa) de imagens como serpente, bastão ou poça d'água, projetando-se por sobreposição inadvertida um não-Si e seguindo-se a falta de discriminação (aviveka) entre o Si e o não-Si, causa próxima da autoidentificação com o corpo e a mente e, portanto, das experiências dolorosas no reino do saṃsāra.

4. A nesciencia opera de modo semelhante aos erros de percepção sensorial da vida cotidiana concebidos pelos filósofos hindus anteriores, tendo a forma de memória (smṛti-rūpa) e dependendo do reavivamento inadvertido das impressões (saṃskāra, vāsanā) de experiências passadas, assim como a serpente pela qual se toma a corda resulta de imagens armazenadas em forma de semente e capazes de se manifestar diante de um estímulo apropriado, o que permite ocasionalmente representar o mundo como mero resultado do reavivamento de imagens derivadas dos atos e experiências passados de seus habitantes.

5. Se num credo ateu como o budismo as ações passadas com suas sementes podem bastar para explicar a continuidade do mundo sem recorrer a um Deus criador e governante nem a almas permanentes como autoras dessas ações, os Upanishads, a Bhagavad Gītā e os Brahma Sūtras, fundamentos do Vedānta, afirmam a existência de um Senhor supremo (Īśvara, parameśvara) que projetou o mundo, nele entrou como princípio de vida e sob cujo controle ele evolui, pois aspectos do mundo da vigília como sua dimensão, ordem e harmonia, a inter-relação das experiências de almas dotadas de cadeias de conhecimento limitadas e mutuamente exclusivas e a livre descida (avatāra) da divindade suprema como Vāsudeva ou sob outras formas não podem ser explicados como simples produto da atividade da massa de almas individuais de personalidades mesquinhas e poderes limitados, exigindo a ordem do mundo objetivo comum a suposição de um Criador e Governante ou Senhor (Īśvara).

6. Nos Upanishads, no Mahābhārata e nos Purāṇas, a forma-semente não manifesta da atividade das criaturas recebe diversos nomes coletivos, como akṣara, avidyā, avyākṛta, māyā, prakṛti, bīja, nidrā, tamas e śakti, de modo que a semente de atividade e experiência deixada pelos atos das criaturas em períodos cósmicos anteriores, que evolui em parte para o mundo manifesto, pode chamar-se avidyā ou nesciencia e, nesse sentido especial, equivaler a māyā, prakṛti e śakti, acepção principal para a maioria dos seguidores de Śaṅkara, sancionada pelas Epopeias e Purāṇas, rastreável aqui e ali em seus textos e tradicionalmente atribuída a ele próprio, sobretudo por obras que a empregam livremente terem sido postas sob seu nome, estabelecendo-se assim a nesciencia (avidyā, ajñāna) como um poder (śakti) que se transforma ou evolui (pariṇāma) na forma dos objetos do mundo e cuja atividade cósmica produziria a sobreposição mútua do Si e do não-Si pela qual a alma individual se imagina limitada e presa.

7. Atendo-se estritamente aos textos do próprio Śaṅkara, porém, a semente do mundo (jagad-bīja), esse nome e forma não manifestos tradicionalmente chamados māyā, prakṛti, avyākṛta e outros, é ela mesma uma sobreposição produzida pela nesciencia (avidyā-kalpita), de modo que não são as sobreposições individuais que dependem da atividade de um poder cósmico presidido pelo Senhor, mas, ao contrário, toda a noção de um mundo objetivo e de um governante divino só faz sentido a partir da experiência de vigília de um sujeito individual, ela própria dependente da sobreposição.

8. Se a nesciencia consiste apenas na falha em apreender o Si em sua verdadeira natureza, seguida da sobreposição de um não-Si e da falta de discriminação entre ambos, as questões sobre a existência de outras almas, de um mundo exterior ao percebedor e de um projetor e governante divino desse mundo resolvem-se pela distinção fundamental entre o ponto de vista (dṛṣṭi) ou estado (avasthā) de nesciencia ou ignorância do Si e o estado de iluminação (bodha) ou conhecimento do Si (ātma-vidyā), pois no estado de nesciencia tudo o que se percebe é real exatamente na forma em que é percebido até ser negado por uma cognição corretora, mas quando a nesciencia é destruída pela disciplina do Vedānta e pela graça do mestre iluminado, o ignorante desperta para sua verdadeira natureza de Ser e Consciência infinitos, sem possibilidade de nova sobreposição, como não se pode voltar a tomar a corda por serpente depois de vê-la claramente, embora uma aparência de experiência empírica possa persistir até a queda do corpo físico, fase em que o iluminado percebe seu estado encarnado sem se iludir quanto à pluralidade.

9. A nesciencia não é um poder (śakti), mas um estado (avasthā), uma condição ou paixão indesejável (kleśa) que aflige o indivíduo, não se tratando de algo concebido como real, mas de uma hipótese construída para explicar a experiência cotidiana em conformidade com a verdade metafísica revelada nos Upanishads e confirmada na experiência do homem iluminado, de modo que, à luz dessa verdade final revelada inicialmente nos textos e confirmada por fim na intuição direta, a experiência empírica, o sentido de eu e meu, a ação e a noção de que o Si colhe em nascimentos futuros as consequências morais de seus atos, assim como a encarnação, a agência, a servidão, o poder de experimentar objetos, a mortalidade, a propensão às ilusões sensoriais e, em sentido mais amplo, todo o universo (prapañca), a própria distinção (bheda) e a experiência da distinção só podem ser atribuídos à nesciencia.

10. Sendo a pluralidade e as outras almas apenas ilusões que aparecem diante de um indivíduo ignorante, as perguntas sobre onde reside a nesciencia, a quem aflige e se é una ou múltipla recebem a resposta de que em verdade não há nesciencia, equivalendo tais questionamentos do discípulo ou opositor a mera queixa de estar pessoalmente afligido por ela, e quem sabe estar afligido pela nesciencia a conhece como objeto, não podendo ela pertencer ao sujeito que a conhece, de modo que o Si apenas parece iludido e apenas parece ser depois libertado, sem que o tempo seja realidade, a libertação um evento real situado num momento fixo, a nesciencia algo real ou a passagem da servidão à libertação uma mudança entre dois estados reais distintos.

11. A quem exige saber a quem pertence esse não-estar-desperto-para-o-Si (aprabodha), responde-se que pertence a quem faz a pergunta, e embora certas passagens dos Upanishads ensinem que ninguém está realmente afligido pela nesciencia por ser ele próprio o Senhor (Īśvara), o Si supremo, quem estivesse desperto (prabuddha) para isso veria que em verdade não existe nesciencia em parte alguma para ninguém.

12. No Comentário à Gītā desenvolve-se argumento semelhante, afirmando-se primeiro que a nesciencia não aflige o verdadeiro Si e respondendo-se ao discípulo que pergunta o que ela aflige que aflige aquilo que se percebe afligido, sendo inútil perguntar ainda o que é isso, pois não se pode perceber a nesciencia sem perceber quem ela aflige, conduzindo-se o raciocínio até o discípulo admitir que, não podendo deixar de perceber o afligido pela nesciencia, não pode ele próprio ser esse afligido, de modo que a servidão é ilusão, a iluminação não implica nenhuma mudança real de estado e, mais do que destruir a nesciencia, revela que ela jamais existiu.

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