User Tools

Site Tools


xivaismo:danielou:dspt:musica

Música

DANIÉLOU, Alain. Shiva and the Primordial Tradition: From the Tantras to the Science of Dreams. Rochester: Inner Traditions International, Limited, 2006.

Música: A Linguagem dos Deuses

1. Na filosofia shivaíta, como na teoria pitagórica, a música é considerada uma espécie de chave das ciências e um meio de comunicação entre diferentes estados do ser, entre o humano e o sobrenatural, a linguagem dos deuses, atribuição tão pouco arbitrária quanto a representação popular do mundo criado pelo ritmo do tambor de Shiva, pois para a cosmologia hindu a matéria como tal não existe e o universo é formado apenas por relações de elementos energéticos, tensões, vibrações e movimentos.

2. Mesmo a dimensão do tempo só existe em relação a comprimentos de onda, ritmos vibratórios cuja duração se percebe por uma espécie de relógio interior, hoje chamado ritmo alfa do cérebro, e a aparência do mundo deve-se às limitações dos sentidos, de modo que pareceria totalmente diferente a seres dotados de outros sentidos operando em outros limites.

3. Os fenômenos da vida, do sentimento, da percepção, da consciência e do pensamento derivam das mesmas fórmulas que fundam a formação da matéria, e por isso a comunicação é possível.

4. Há assim um vínculo fundamental entre matéria e percepção, que só existem uma para a outra e uma pela outra, e raros são os domínios em que o paralelismo entre o físico, o mental, o sensorial e o emocional é facilmente discernível e redutível a dados comparáveis ou fórmulas comuns, sendo a música o exemplo mais evidente, pois as relações das vibrações sonoras, redutíveis a simples relações numéricas, são percebidas como estimulantes emotivos e meios de manipulação psicológica, evocam imagens, criam sentimento estético e emoção e estabelecem uma comunicação entre esferas aparentemente distintas e até entre diferentes formas de ser.

5. Graças a essa ubiquidade, os sons organizados em forma musical (nada) ou verbal (shabda) podem guiar a busca das fórmulas mais gerais que estão no fundamento da criação e na origem de todas as formas de matéria e de vida, fórmulas que Shiva utiliza em forma rítmica para dançar a criação e dar nascimento às diferentes formas de ser, permitindo a música, pela existência desses arquétipos comuns a todos os aspectos da criação, evocar uma ordem de existência dentro de outra e comunicar-se com espíritos e deuses.

MÚSICA OCIDENTAL MODERNA

1. Os mecanismos da percepção são de natureza proporcional e independentes da dimensão, pois um quadrado é quadrado seja grande ou pequeno, e toda estética, inclusive a música, baseia-se em proporções, razão pela qual o piano temperado, que pretende substituir um sistema proporcional por um sistema aditivo, igualando, isto é, mutilando os intervalos e trocando as relações harmônicas por uma divisão logarítmica, constitui uma aberração estética e psicológica.

2. Esse sistema orientou singularmente o desenvolvimento da música ocidental por mais de dois séculos e dificultou muito o estudo do fenômeno musical em seu conjunto, sendo aberrante, por exemplo, estudar músicas orientais ou étnicas usando como medida os centésimos de semitom temperado, que mascaram completamente as relações proporcionais em que se funda toda música e que, só elas, explicam sua ação mágica.

3. A modificação, ou esterilização, dos intervalos na escala temperada priva a maior parte da música ocidental de sua correspondência cósmica e psicológica e conduz logicamente a uma estrutura musicalmente neutra, sem centro definido, que leva a formas abstratas despojadas de sentido e de impacto emotivo, afastadas de toda realidade universal e atraentes apenas na medida em que traem seus próprios princípios e deixam entrever algo de real por suas aproximações, como sugere a observação da mulher de Xenakis de que, apesar de suas teorias, Yannis era ainda assim um músico, aplicável aos mais importantes compositores modernos.

FATORES 2, 3 E 5

1. A verdadeira substância da música, o material sonoro formado pelo conjunto de sons utilizáveis e utilizados em toda música, funda-se em progressões harmônicas baseadas nos fatores 2, 3 e 5, os mesmos encontrados nas estruturas básicas da matéria e nos princípios da vida, razão precisa pela qual uma pode agir sobre a outra.

2. Do ponto de vista da percepção humana, os intervalos discerníveis e dotados de significado preciso numa oitava, incluindo o som de base e sua oitava, são cinquenta e quatro, sons derivados de diferentes combinações dos fatores 2, 3 e 5 dentro de certos limites, que formam o vocabulário de toda música.

3. A outra forma de linguagem sonora, a linguagem falada, compõe-se igualmente, segundo semanticistas hindus como Nandikeshvara e Bhartrihari, de cinquenta e quatro possibilidades de articulação, vogais e consoantes, base de todas as línguas do mundo, de modo que toda expressão e comunicação por meio do som emprega esses 108 elementos constantes dos mecanismos perceptivos e dos poderes de classificação mental e de cognição, razão pela qual o número 108, soma dos cinquenta e quatro sons musicais e dos cinquenta e quatro sons articulados, é considerado sagrado como símbolo do Verbo Criador.

AS AÇÕES DAS DIVISÕES RÍTMICAS

1. As divisões rítmicas e sua ação psicofisiológica baseiam-se em fatores semelhantes aos das divisões harmônicas, não havendo diferença de natureza entre a altura de um som e seus ritmos, pois abaixo de dezesseis vibrações por segundo as frequências sonoras são percebidas como batidas, coordenáveis em quadros rítmicos correspondentes aos quadros harmônicos e produtoras das mesmas reações psicofisiológicas.

2. Os compassos em ciclos de 2, 4, 8 ou 16 tempos formam a estrutura dos desenvolvimentos rítmicos e correspondem às oitavas da escala melódica, os elementos rítmicos em ciclo de 3 tempos criam movimento e os ritmos em ciclo de 5 tempos provocam reações emotivas, sendo por isso muito empregados na música destinada a produzir efeito psicológico e nas cerimônias e danças de caráter extático ou mágico.

3. Nas músicas de ação psicológica ou cosmológica exige-se extrema precisão dos intervalos e dos ritmos para que sejam eficazes, embora processos adicionais como diferenças de volume, toque, cor ou nuances métricas ou rítmicas possam às vezes compensar deficiências nas relações de altura, como na música para piano ou nos gamelões indonésios, ao passo que a imprecisão rítmica elimina a maior parte do impacto fisiológico da música, que deixa de induzir o estado extático e de servir de meio de comunicação com o sobrenatural.

TRÊS ASPECTOS DA MÚSICA

1. Para os seres humanos a música possui três aspectos principais, ritual ou mágico, cosmológico e psicológico, às vezes misturados e confundidos, embora fundamentalmente distintos.

Aspectos Mágicos

1. A música ritual ou mágica visa estabelecer comunicação com o invisível, com as forças transcendentes que governam o mundo, com os princípios cósmicos e o mundo misterioso dos deuses e espíritos, sendo a base de todo rito extático e de toda prática mágica, pois não há rito sem algum elemento sonoro.

2. Embora toda música construída segundo as leis naturais da acústica e da audição possua potencial mágico e aspectos rituais, certas formas sonoras servem exclusivamente à comunicação com o invisível.

3. Graças aos paralelismos entre certas fórmulas musicais e aquelas em que se baseiam as estruturas da matéria e da vida, é possível evocar os seres sutis chamados espíritos e deuses e permitir que se manifestem e atuem, sendo as danças extáticas meio de contato com forças sobrenaturais que se exprimem pela boca do dançarino aparentemente possuído, como nas danças de possessão e nas antigas práticas de tipo dionisíaco ainda observáveis no zikhr do Oriente Médio e nas danças dos feiticeiros africanos, que usam fórmulas rítmicas repetitivas para criar um estado de semiconsciência, rompido por quebras súbitas do ritmo que provocam um choque psicológico e um transe em que a personalidade do dançarino se dissolve e se torna permeável a influências externas que nele se encarnam.

4. Curiosamente, no Ocidente moderno a música com traços próximos da música extática não se encontra nos lugares de culto, mas em lugares como as discotecas, onde os dançarinos experimentam o isolamento hipnótico necessário à experiência mística, que, bem dirigida, poderia levar à percepção de realidades suprassensíveis, estando os deuses muito mais próximos na exaltação dos concertos de rock do que nos cânticos desbotados das igrejas e seus corais disciplinados, assim como os hippies vagabundos estão mais próximos dos errantes místicos, os loucos de deus, do que os monges frustrados confortavelmente instalados em seus ricos mosteiros.

5. O nível sonoro também desempenha papel importante na eficácia dos ritos hipnóticos e na comunicação com os mundos invisíveis, pois certas formas sonoras rituais não se destinam a agradar ao ouvido humano, tendo o estrondo ritual papel decisivo na evocação dos seres sutis, seja no sarva vadyam dos templos indianos, em que todos os instrumentos tocam juntos, no estrépito dos sinos de harmônicos estranhos que enlouquecem quem está perto demais, no fragor dos tambores dos ritos africanos ou nas batidas de tábuas de madeira nos templos budistas e nos mosteiros do Monte Athos, e chegando a resultado semelhante o emaranhado de harmônicos do órgão sob as abóbadas das catedrais, que cria um tecido sonoro independente da peça executada, através do qual forças sutis podem materializar-se.

6. Certas formas de música religiosa não visam fazer os deuses descer até os homens, mas elevar os homens ao divino, constituindo formas de meditação melódica, como a música de caráter místico ligada à palavra, a exemplo dos bhajanas, maravilhosos poemas cantados que evocam o amor divino e as lendas dos deuses, de natureza emotiva aparentada à da canção profana.

7. Existem ainda formas de música solene de tipo profano usadas para realçar a grandeza cerimonial, como as missas para grande orquestra, com paralelos em todas as civilizações.

Aspectos Cosmológicos

1. O segundo aspecto da música é de ordem cosmológica e de caráter social, evocando as estruturas do mundo natural, o ciclo das estações e o movimento dos astros e procurando controlar seu impacto sobre a sociedade humana, influência sobre a atmosfera social à qual certos sistemas musicais atribuem grande importância.

2. Segundo a teoria chinesa, a precisão das escalas e a altura do diapasão influem no equilíbrio da sociedade e na prosperidade do país, numa música que não busca impacto psicológico, geralmente pentatônica, indicadora de movimento ou energia e sensível apenas quando se desvia um pouco do sistema, razão pela qual tubos sonoros padrões, os lyu, eram outrora cuidadosamente conservados no palácio imperial para evitar desvios na afinação das orquestras capazes de causar desordens, fome e conflitos sociais.

3. No Oriente Médio, as danças cósmicas dos zoroastrianos, das quais as danças dos dervixes são uma sobrevivência, visam criar uma atmosfera astrologicamente favorável à integração do homem no cosmos, cerimônias de natureza astrológica praticadas também na China, na Índia e nas civilizações ameríndias.

4. Por seus aspectos matemáticos, a música de caráter cosmológico aparenta-se aos yantras, diagramas simbólicos aplicados também no jogo de números e proporções que funda as artes plásticas, e sobretudo aos diagramas que servem de base à arquitetura sagrada, pois as estruturas dos templos, das catedrais e das casas, sua orientação, a posição de portas e janelas, suas proporções e cores criam um ambiente de influência sutil, não sendo fruto do acaso a atmosfera de uma catedral, ao passo que a nova sala de audiências do Vaticano não tem mais atmosfera espiritual que uma garagem ou um cinema.

5. O mesmo vale para as sedes do poder estatal, cuja orientação e proporções influem no comportamento e na atitude dos que nelas tomam decisões graves e de grandes consequências, de modo que a orientação para o norte da Câmara dos Deputados e do Senado franceses, contrária à ordem cósmica, pouco favorece a sabedoria das leis ali promulgadas.

6. Muita música contemporânea tende a formas arquitetônicas, mas, negligenciando aspectos fundamentais do significado das relações sonoras, pode ter efeito deletério sobre o equilíbrio e a veracidade humanos, assentando-se, como a maioria dos conceitos sociais ou éticos atuais, em desenvolvimentos mais ou menos lógicos baseados em postulados e orientações errôneos.

7. A chamada música moderna só poderá recuperar um papel benéfico e um valor humano se mudar não tanto suas estruturas quanto seus fundamentos, que, do ponto de vista cosmológico, devem muitas vezes ser considerados demoníacos e contribuem para a desordem moral da época.

8. Certas formas de arte musical pertencentes à concepção cosmológica, em que predomina o elemento estrutural, têm apenas fraco impacto psicológico, como algumas obras de Bach.

Aspectos Psicológicos

1. O terceiro aspecto da música, de natureza psicológica, diz respeito ao impacto dos sons organizados sobre os mecanismos emotivos do ser humano, capaz de comovê-lo até o fundo da alma, enternecê-lo e exaltá-lo, construindo-se a música do Oriente Médio, derivada da grega, e a dos ragas da Índia com base na correspondência entre fatores harmônicos e psicológicos, à mesma família pertencendo a música marcial que arrebata multidões e o uso de formas sonoras para fins médicos e psicológicos, a musicoterapia.

2. Do ponto de vista do impacto psicológico, a sintaxe mais eficaz, isto é, o modo de organizar os sons, é a modal, predominante no Oriente Médio e na Índia e base da música do mundo mediterrâneo até época relativamente recente, sistema que divide a oitava em doze áreas que contêm os cinquenta e quatro sons de repercussão psicológica sob a forma de nuances expressivas.

3. A principal peculiaridade do sistema modal, do ponto de vista psicológico, é seu som de base fixo, a tônica, mantido durante toda a execução de um modo, o que faz com que todas as notas escolhidas para a escala tenham altura constante e correspondam sempre às mesmas frequências, de modo que um intervalo associado a determinado sentimento, como a terça menor à ternura ou à tristeza, será sempre representado pelo mesmo som e tornar-se-á cada vez mais agudo pela repetição.

4. Na Índia, os modos musicais chamam-se ragas, estados de espírito, e podem definir-se como escala teórica, conjunto de intervalos proporcionais ou complexo de sons dotados cada um de impacto psicológico ou significado preciso, que em conjunto criam uma atmosfera emotiva ou estado de espírito.

5. A psicologia indiana distingue nove espécies de disposições ou estados afetivos, chamados rasas, sabores, ligados a fatores numéricos, o que permite entrever o funcionamento dos mecanismos cerebrais e a natureza das reações estéticas e emocionais, associando-se frequentemente a atmosfera emotiva dos ragas às que prevalecem em diferentes horas do dia e da noite ou nas estações do ano, já que, como o mundo vegetal, o ser humano reage diferentemente pela manhã ou à tarde, na primavera ou no outono.

6. A música modal só pode ser improvisada, pois formas melódicas preestabelecidas prejudicam a consciência modal, a visão interior centrada na escala do modo e na atmosfera que ela cria, devendo o músico navegar livremente no ambiente interior criado pelo modo sem jamais sair dele, experiência muito intensa e extraordinária que exige total abstração do mundo exterior e constitui uma forma de meditação que facilmente se torna mística.

7. O ouvinte é também gradualmente influenciado pela natureza do modo, imerso numa espécie de banho sonoro que evoca um sentimento bem definido e com cujo cenário emocional pouco a pouco se identifica, razão pela qual uma boa execução de música modal pode afetar profundamente o público, tornando-o melancólico, desconfiado, calmo, empreendedor, agressivo ou terno segundo a atmosfera criada pelo intérprete.

8. Toda música que busca comover, como a chamada música romântica, exige abandono ao sentimento evocado, que prevalece sobre o formato técnico, razão pela qual se aconselhava aos guerreiros gregos não ouvir certos modos que estimulam uma espécie de langor erótico e se recomendava o modo dório, estimulante da coragem e da energia, e pela qual a Igreja, sempre sexófoba, proibiu na Idade Média os modos tidos por sensuais, para não falar da quarta aumentada, que abre de fato horizontes para o invisível e era considerada diabólica, o diabolus in musica.

9. Para ouvir música modal de tipo indiano é preciso mudar um pouco os hábitos e renunciar a todo espírito analítico ou crítico, deixar-se penetrar, embalar e impregnar pelos sons, perder toda noção de tempo e abandonar-se sem reservas ao clima mágico que pouco a pouco envolve o ouvinte, silenciando, como na meditação do yoga, as agitações inúteis da mente, até ver abrir-se gradualmente uma paisagem musical desconhecida e maravilhosa, experiência não muito diferente das causadas por certas drogas, porém muito mais rica e suscetível de variedade infinita, tornando-se então a música escola de sabedoria, chave do verdadeiro conhecimento e meio de comunicação com o invisível, com o mundo misterioso dos gênios e dos deuses.

xivaismo/danielou/dspt/musica.txt · Last modified: by 127.0.0.1