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SOM SAGRADO
Mantras, palavras sagradas de poder
- A crença universal no poder mântrico, embora historicamente difundida, não elucida a verdadeira natureza dos mantras, e anedotas tibetanas sugerem que a eficácia pode residir na fé, independentemente da forma ou multiplicidade das sílabas.
- A narrativa Lam-rim Zin-dr'ol Lag-chang relata uma mulher que, pela fé, transformava pedras em alimento com um mantra imperfeito — e perdeu esse poder ao corrigi-lo.
- O texto She-nyan Ten-tsül Nyong-la Né-tu K'a-wa narra um tibetano que alcançou realização espiritual repetindo por engano um gesto de despedida como se fosse mantra e mudra.
- Ambas as histórias insinuam que a fé inabalável pode substituir a forma correta do mantra.
- A multiplicidade de mantras ensinados em sequência crescente de importância contradiz a ideia de que qualquer som arbitrário seria suficiente.
- O progresso nos estudos iogues fez com que questões sobre efeitos espetaculares ou milagrosos dos mantras perdessem relevância prática.
- A transformação de um tigre em gatinho, ainda que fascinante, é colocada em perspectiva diante da urgência de dispersar o ego entre nascimento e nascimento.
- O aspecto mágico dos mantras nunca perdeu inteiramente sua atração, e o capítulo final oferece especulações sobre a natureza dos mantras e seus possíveis efeitos sobre objetos externos.
- O conceito hindu de shabda — som sagrado dotado de poderes criadores, transformadores e destrutivos — é difícil de descrever com clareza, e comparações com vibrações físicas trivializam esse princípio metafísico sublime.
- O shabda ressoa com a afirmação de São João: “No começo era o Verbo… e o Verbo era Deus.”
- O conceito gnóstico de Logos implica alguma relação com o som, tornando esse termo inevitável.
- O shabda corresponde ao som comum de modo análogo ao prana-vayu — chamado ch'i em chinês — que corresponde ao ar respirado: o ar é apenas o condutor do prana, não o prana em si.
- O prana é energia cósmica absorvida pelos poros e narinas, cujo condutor é o ar comum.
- Shabda e prana são energias misteriosas compreensíveis apenas pelos iogues mais avançados.
- Escritores ocidentais contemporâneos cometem o equívoco recorrente de reduzir o shabda a fenômenos eletrônicos ou vibratórios, rebaixando um conceito metafísico elevado ao nível da física material.
- O Dr. Evans Wentz, apesar de ter convivido com mestres tibetanos eruditos, usa a expressão “grau particular de vibração” para indicar a qualidade shábdica.
- Philip Rawson, no livro Tantra, descreve a textura dos objetos como “de uma espécie relacionada com vibração” e reduz as diferenças entre coisas materiais a “padrões de interferência produzidos entre frequências combinadas.”
- Tal concepção deixaria perplexos os expoentes tibetanos da ioga mântrica.
- O Lama Govinda, cujo conhecimento sobre a operação dos mantras é profundo, usa o termo “sutil vibração”, o que impede o descarte total do conceito de vibração, mas exige que fique absolutamente claro que vibrações sutis pertencem a uma ordem radicalmente diferente das vibrações físicas.
- As variantes da sílaba mântrica OM — como UM — produzem os mesmos efeitos mântricos, o que invalida explicações puramente físicas baseadas no M final.
- Os bija-mantras HUM, TAM, RAM, YAM, KHAM e muitos outros compartilham do mesmo M final e, no entanto, possuem usos mântricos completamente distintos.
- Variantes de OM sem o M final — como UNG em tibetano, ANG em chinês e ONG em japonês — também são eficazes.
- A sílaba destrutiva PHAT, pronunciada como PHÉ por chineses e tibetanos, mantém sua eficácia apesar da diferença fonética em relação ao sânscrito original.
- O som é o veículo do shabda assim como o ar é o veículo do prana, e a correlação entre ambos é real, mas a importância excessiva atribuída à pronúncia das sílabas mântricas constitui um erro fundamental.
- A audição do bok-bok-bok de um tambor de madeira em forma de peixe num eremitério chinês nas montanhas, ao pôr do sol, produziu uma exaltação da mesma qualidade da obtida com o auxílio dos mantras.
- O som componente, tomado isoladamente, tem pouco significado — se um não iniciado reproduzisse com perfeição um mantra recitado erroneamente por um verdadeiro mestre, o efeito seria nulo.
- O Lama Govinda ensina que as vibrações sutis dos mantras são intensificadas por associações mentais cristalizadas em torno deles pela tradição ou pela experiência individual.
- O ato mental que acompanha a enunciação é de importância muito maior do que a forma da pronúncia.
- O poder mental divorciado do som sutil pode ser muito eficaz por si mesmo; o contrário não se verifica.
- A qualidade shábdica de um mantra entra em ação somente quando pronunciado por alguém adequadamente treinado na visualização iogue, pois os mantras possuem não apenas som, mas também forma e cor.
- A imagem prototípica ou símbolo associado ao mantra deve ser evocada no ato da recitação, pois é o repositório de toda a energia psíquica, emocional e espiritual acumulada durante meses ou anos de prática.
- Essa imagem concentra também a energia psíquica de todos os adeptos que, ao longo dos séculos, se concentraram sobre ela — conceito próximo ao dos arquétipos de C. G. Jung.
- Os lamas ensinam que o mantra apropriado para cada forma divina personifica a energia psíquica desse ser.
- A imagem da deidade ou da sílaba mântrica que a simboliza constitui tanto um centro de poderosas associações acumuladas quanto uma personificação particular que brota da Fonte.
- A pronúncia incorreta das sílabas não é assunto grave, pois é a intenção do adepto que liberta os poderes de sua mente.
- Pronunciar as sílabas, ainda que sem sentido conceitual, permite conjurar instantaneamente as qualidades psíquicas com as quais se aprendeu a associá-las.
- É plausível supor que o poder shábdico não reside no som fisicamente produzido, mas no som arquetípico que ele representa, o que explica a igual efetividade de formas variadas como OM, UM, UNG e outras.
- O conceito metafísico do shabda prevalecente em círculos tântricos hindus — sintetizado com a permissão de Gerald Yorke, estudioso de notável erudição em palavras de poder — é distinto do conceito budista e não deve ser aproximado demais dele.
- As tradições iogues hindu e budista são por vezes diametralmente opostas, mesmo em pontos de importância capital.
- Indianos são amantes da especulação metafísica; tibetanos e chineses são muito mais pragmáticos e objetivos.
- Ainda que a ioga tântrica e a budista brotem da mesma fonte, nenhuma base conceitual comum pode ser estabelecida entre elas.
- Na tradição hindu da ioga mântrica, o universo inteiro é concebido como jogo do espírito no éter da consciência — chitakasha —, e o espírito, afastando-se de Deus, torna-se Deus-som, o Shabdabrahman, do qual derivam todas as coisas.
- O aspecto feminino e ativo de Deus pode ser invocado pela fala; o aspecto masculino e passivo só pode ser buscado no silêncio.
- A energia criadora de Deus origina a substância sutil do som, que por sua vez se transforma em onda audível.
- Todo o universo procede de OM — a totalidade de todo som.
- Existem quatro planos do shabda: o que transcende som e silêncio; o que só é vivenciado diretamente num estado iogue de consciência; o que se manifesta apenas em sonho e visão; e o que é fala e simples ruído.
- Pelo mantra OM, pode-se passar do quarto plano ao primeiro.
- Cada ruído da natureza é uma trindade de som, de forma e de percepção.
- Cada sílaba mântrica possui correspondência completa com a ideia que representa — pela pronúncia correta da sílaba certa, sem cogitação, é possível conceber ideias de planos ascendentes que se elevam até Deus.
- Não é possível determinar até que ponto esse ensinamento hindu é aceito pelos iogues tibetanos — se existe entre eles, deve ser mantido como sagrado demais para iniciados comuns, ou considerado especulativo demais para ter valor prático, pois os mestres budistas privilegiam a aplicação prática do conhecimento sagrado em detrimento da teoria subjacente.
- Diante da ausência de um ensino tibetano claro sobre a natureza do shabda, formula-se uma hipótese própria que distingue a operação subjetiva dos mantras — na contemplação iogue — da operação externa sobre objetos, sendo que apenas nesta última a perfeição da pronúncia parece ser ingrediente essencial.
- O uso cotidiano e eficaz dos mantras por milhares de tibetanos contrasta com a raridade atual dos efeitos mágicos sobre objetos externos, sugerindo que os segredos shábdicos pertinentes ao uso miraculoso dos mantras deixaram de ser amplamente ensinados.
- Essa hipótese resolveria a contradição entre o ponto de vista de que a pronúncia perfeita é de suprema importância e o de que ela não tem importância alguma na contemplação iogue — cada perspectiva seria correta em relação a uma ordem distinta de objetivos.
- Permanece aberta a possibilidade de que ainda hoje existam adeptos capazes de realizações prodigiosas como herdeiros de conhecimento secreto transmitido através das idades.
- A insistência dos lamas na realidade de tais feitos cria um dilema: ou se acredita no quase inacreditável, ou se atribui credulidade a homens dotados de visão objetiva extraordinária — o que constitui um paradoxo.
- A eficácia dos mantras usados na contemplação iogue é tão certa quanto o calor do sol ou a umidade da chuva, mas a natureza do shabda permanece indefinível, e talvez seja mais sábio vivenciar o poder do mantra do que especular sobre suas causas.
- O próprio Buda ensinou que o tempo gasto em especulação sobre o porquê das coisas seria mais bem aproveitado vivenciando a essência dessas coisas.
- A chuva é igualmente eficaz, quer seja produzida por dragões celestes — como julgavam os chineses — quer pela condensação da água, pois sem chuva não há colheita nem vida.
- Cada tradição de recitação de mantras deve ser observada tal como transmitida pelo mestre, e a necessidade de um modo de pronunciá-los em que se tenha confiança é uma das razões — entre as menos importantes, porém não desprezíveis — para buscar a iniciação formal.
- O lama que transmite o mantra o terá recebido como transmissão oral proveniente dos antigos fundadores de sua linhagem.
- Mantras podem ser pronunciados no sino-japonês-sânscrito, à maneira chinesa ou em tibetano, conforme os mestres de cada linhagem — e a fé em cada modo é o que importa.
- A visualização correta das sílabas mântricas coloca um problema especial para os ocidentais, pois os alfabetos tibetano e indiano permitem que sílabas se contraiam para dentro de si mesmas durante a visualização, desaparecendo num minúsculo círculo — recurso ausente nos alfabetos latinos.
- O Assistente Júnior de Sua Santidade, o Dalai Lama, consultado sobre o assunto, respondeu que não pode haver virtude especial nas letras tibetanas, pois mantras são frequentemente visualizados em escritas indianas variadas.
- Segundo o mesmo lama, a visualização de sílabas na forma inglesa — com vogais e consoantes escritas lado a lado — seria efetiva.
- Para quem não conhece o sânscrito nem o tibetano e acha impossível a visualização tradicional, o uso dos equivalentes em outra escrita seria preferível à completa ausência de prática.
- O iniciante na ioga mântrica tende a se interessar pelo sentido conceitual das sílabas, mas esse interesse é invariavelmente prejudicial ao progresso, pois o uso dos mantras pertence ao domínio do não-pensamento — bem conhecido pelos seguidores do Zen —, que não é torpor, mas transcendência do estado habitual de consciência sujeito-objeto em direção à percepção extática da não-dualidade.
- A música nas igrejas cristãs, mesmo sem palavras, convida ao sonho e ao jogo do pensamento.
- O clangor súbito de instrumentos rítmicos no equivalente budista pode lançar a mente diretamente ao domínio do não-pensamento.
- Escrever sobre mantras assemelha-se a tentar prender o ar numa rede — explicar doutrinas místicas é como capturar o inefável —, e o sublime, ao descer ao nível do senso comum, desaparece ou se reduz.
- Pessoas criadas numa sociedade que desconhece os meios de alcançar os poderes transcendentais da mente anseiam por explorar tais assuntos, mas estão geralmente afastadas das fontes tradicionais de conhecimento.
- Daí surgem facilmente compreensões errôneas — como a de que os mantras são palavras mágicas ou que sua ação é governada pela vibração física.
- É preciso começar pelo senso comum; à medida que o conhecimento se expande, o senso comum pode ser descartado — como carros enferrujados e latas usadas num monte de lixo, monumento ao gênio do homem moderno em roubar à vida o seu mistério e privar a natureza do que lhe pertence.
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