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OUTRA MARGEM
NHAT HANH, Thich. The other shore: a new translation of the heart sutra with commentaries. Berkeley: Parallax Press, 2017.
Prefácio de Peter Levitt
- O Sutra do Coração da Prajnaparamita é a essência do ensinamento budista, recitado diariamente em comunidades monásticas e leigas ao redor do mundo, e os comentários de Thich Nhat Hanh integram o fluxo contínuo de transmissão oral fundamental ao budismo desde os tempos de Shakyamuni Buda, há 2.500 anos.
- A literatura da Prajnaparamita — Compreensão Perfeita — remonta ao início da Era Cristã e é estudada e exposta há 2.000 anos, primeiro na Índia e depois na China, Japão, Vietnã, Coreia, Tibet e outros países de tradição budista Mahayana.
- Por quase um século os ensinamentos da Prajnaparamita estão disponíveis em inglês, e há mais de cinquenta anos são transmitidos no Ocidente por mestres Zen e tibetanos no contexto da prática meditativa, embora frequentemente se mostrem de difícil compreensão para os ocidentais.
- Na primavera de 1987, o mestre Zen vietnamita, poeta e ativista pela paz Thich Nhat Hanh ofereceu uma série de retiros e palestras na Califórnia, no Noroeste do Pacífico, no Colorado, na Nova Inglaterra e em Nova York, convidando seus ouvintes a participar de um experimento para descobrir o que chamou de “o verdadeiro rosto do budismo americano”.
- Thich Nhat Hanh enunciou: “O budismo não é uno. Os ensinamentos do budismo são muitos. Quando o budismo entra em um país, esse país sempre adquire uma nova forma de budismo… O ensinamento do budismo neste país será diferente de outros países. O budismo, para ser budismo, deve ser adequado, apropriado à psicologia e à cultura da sociedade que serve.”
- Thay — título informal para “mestre”, pronunciado “tai” — ofereceu diversas palestras sobre o Sutra do Coração da Prajnaparamita, algumas delas públicas, dirigidas a setecentas ou oitocentas pessoas, e outras a grupos de cinquenta ou sessenta pessoas em retiro.
- No retiro em Ojai, Califórnia, artistas e meditantes sentaram-se sob um grande carvalho no sopé das Montanhas Los Padres, ao som dos pássaros da manhã ou ao toque de uma brisa quente, enquanto a voz gentil e penetrante de Thay tornava o antigo ensinamento singularmente compreensível e pleno de vida.
- Durante os retiros, Thay incentivou os participantes a dispensar atenção calma, lúcida e íntima a cada atividade diária — seja comer uma refeição, desenhar um Buda ou simplesmente caminhar em silêncio, consciente do contato entre o pé e a terra que o sustenta.
- Para estimular essa atenção plena, um mestre do sino fazia soar regularmente um grande sino, e todos interrompiam sua atividade, respiravam três vezes e recitavam silenciosamente: “Ouça, ouça, este som maravilhoso me traz de volta ao meu verdadeiro eu.”
- Thay afirmou que “um sino é um bodhisattva — ele nos ajuda a despertar”, e ao som do sino todos deixavam suas ferramentas, martelos, pincéis ou canetas e retornavam a si mesmos por um momento, respirando com serenidade natural e oferecendo um meio sorriso a si mesmos e a tudo ao redor — pessoas, árvores, uma flor, uma criança correndo com alegria, até mesmo as próprias preocupações e, às vezes, a própria dor.
- Após essa pausa, a atividade era retomada com energia renovada, talvez com um pouco mais de atenção e consciência.
- Não é apenas um sino que pode ser um bodhisattva — qualquer coisa pode ajudar a despertar para o momento presente e tudo o que ele contém, e Thay afirma que “o budismo é uma forma inteligente de desfrutar a vida”.
- Sugere-se ler o livro como se estivesse ouvindo um sino — deixando de lado as tarefas cotidianas, sentando-se confortavelmente e permitindo que as palavras do mestre ressoem profundamente; quando o sino interno tocar, abaixar o livro, ouvir seu eco nas próprias profundezas, respirar calmamente e oferecer um sorriso.
- Thay encorajava com as palavras: “Você consegue fazer isso!”, para que a profundidade do coração e a profundidade do Sutra do Coração se aproximem — e talvez se toquem.
- A intimidade está no coração do ensinamento contido no livro, pois no século XIII o mestre Zen Eihei Dogen ensinou que a iluminação é simplesmente intimidade com todas as coisas — ensinamento que Thich Nhat Hanh compartilha.
- Quando o verdadeiro coração da compreensão surge em nós, essa intimidade não é apenas possível — é a expressão espontânea do que somos e do que todas as coisas verdadeiramente são.
- Deixar a vida ser guiada por tal intimidade é nutrir a semente da compaixão em si mesmo e nos outros; a paz entre parceiros, vizinhos e nações — e mesmo a paz interior — pode parecer um sonho impossível, mas no coração do ensinamento de Thich Nhat Hanh é possível descobrir um caminho para que essa paz se realize.
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