esoterismo:trithemius:magia
Magia
HANEGRAAFF, Wouter J. (ORG.). Dictionary of gnosis & Western esotericism. Leiden ; Boston: Brill, 2006.
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No centro da crítica de Tritêmio à magia ilícita está uma distinção radical, apoiada em autoridades como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, entre milagre e magia, mas ao adentrar os arcanos com fontes como o grego Pitágoras, o egípcio Hermes Trismegisto e a cabala hebraica, Tritêmio reformulou efetivamente a relação milagre-magia legada pela tradição agostiniano-tomista.
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Santo Agostinho e Santo Tomás condenaram veementemente a magia em princípio como instrumento demoníaco destinado a atrair almas para o serviço do Diabo, fingindo verdadeiros milagres.
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Tritêmio, por sua vez, em consonância com uma tradição medieval de magia ritual, distinguiu entre uma utilização diabolicamente patrocinada da magia, voltada a submergir as almas no mundo infestado por demônios, e uma utilização divinamente patrocinada, voltada a elevar a alma humana acima desse mundo.
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O objetivo de Tritêmio era transformar o magnum miraculum hermético em um magnum miraculum Christianum.
O objetivo expresso de Tritêmio em seus escritos ocultistas, facilitado pelas três línguas antigas do latim, do grego e do hebraico promovidas pelo movimento humanista cristão, era traçar um caminho, por meios mágicos, até a mesma visão desimpedida de Deus — a chamada Visão Beatífica — que a teologia mística tradicional atribuía aos estágios culminantes da ascensão espiritual.-
Em consonância com seu programa místico-mágico, Tritêmio concebeu uma série de estágios meditativos que conduziam dos limites da natureza finita ao reino ilimitado de Deus.
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As ciências ocultas que facilitavam a ascensão compreendiam a alquimia hermética e a magia natural, a astrologia, a numerologia pitagórica, a magia espiritual neoplatônica e a cabala.
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Distinguindo a verdadeira astrologia de uma falsa similiar que negava o livre-arbítrio, Tritêmio a colocou a serviço da verdadeira alquimia tal como apresentada na Tábua Esmeralda hermética, coalescendo em várias exposições epistolares seus preceitos astrológicos e alquímicos com os numerológicos pitagóricos e cabalísticos, orientados a conduzir a alma do mago do finito mundano ao infinito divino.
Guiando cada passo purificador na ascensão à iluminação místico-mágica para Tritêmio estava a regra do segredo esotérico, princípio que em sua mente cumpria simultaneamente dois requisitos cardinais de sua metodologia oculta.-
O primeiro requisito era explicar por que o motivo de suas investigações mágicas havia sido mal compreendido por críticos não iniciados.
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O segundo requisito era fornecer um dispositivo hermenêutico para proteger a alma do iniciado da contaminação pelos demônios e seus confederados humanos, as bruxas e os feiticeiros.
O pano de fundo astrológico e angelológico da teoria oculta de Tritêmio está exposto em seu De septem secundeis (1508), cujo esquema celeste, adotado de Pedro de Abano, estabelece uma sucessão repetitiva de ciclos cósmico-históricos governados por sete inteligências secundárias, assim chamadas por se entender que governam sob a supervisão da Primeira Inteligência, Deus Criador.-
Adotando os nomes dessas potências regentes da cabala, Tritêmio as identificou em ordem hierárquica: Orifiel na esfera de Saturno, Anael na esfera de Vênus, Zacariel na esfera de Júpiter, Rafael na esfera de Mercúrio, Samael na esfera de Marte, Gabriel na esfera da lua e Miguel na esfera do sol.
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Segundo o esquema cronológico apresentado por Tritêmio, cada anjo planetário é designado para governar por um intervalo de 354 anos e quatro meses, com os ciclos de sete intervalos repetidos em revoluções contínuas até serem apocalipticamente encerrados.
Por meio desse esquema, Tritêmio não apenas vislumbrou um contexto cosmológico para a identificação de padrões da história, mas também, estendendo esses padrões históricos para além do presente, racionalizou a possibilidade de prever o futuro com precisão.-
O pressuposto que guia esse tratado é que a profecia é uma extensão da história para o futuro, e, inversamente, a história é profecia consumada.
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Uma das passagens mais intrigantes a esse respeito, próxima ao final do tratado, endereçada ao terceiro governo do marcial Samael atribuído ao próprio tempo de Tritêmio, prevê um iminente cisma religioso sugestivo da impendente Reforma protestante.
Seguindo o mesmo esquema cósmico, que significa uma ligação interna entre suas operações cosmográficas e esteganográficas, Tritêmio concebeu um sistema de mediadores angélicos para a transmissão de suas comunicações criptográficas.-
Para a consecução de seus objetivos esteganográficos, Tritêmio subordinou aos sete anjos planetários dois reinos subalternos de espíritos: o primeiro composto de 31 espíritos regionais ou distritais que governavam outros tantos domínios ou mansões, e o segundo composto de 24 espíritos temporais que governavam as horas.
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Além disso, sujeitou aos anjos regionais e temporais uma multidão de assistentes angélicos subsidiários igualmente acessíveis a invocações esteganográficas.
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Tritêmio estava convicto de que a harmonia planetária é a manifestação celeste exterior da harmonia oculta interior que impregna e liga todas as coisas; por isso, concluiu, o mago, para ter acesso ao funcionamento interior da natureza, deve também ter acesso às esferas planetárias e às inteligências secundárias que as governam.
Os detratores de Tritêmio, como atestado pela carta expositiva a Bostius de 1499 e pelo posterior ataque à magia de Tritêmio por Bovilo, apontaram principalmente para seus métodos esteganográficos, invocando explicitamente a assistência dos anjos planetários e seus subordinados regionais e temporais como prova de suas intenções feiticeiras.-
Sua estratégia para repelir tais ataques consistiu não apenas em distinguir o que considerava sua magia natural e angélica lícita da magia ilícita que havia tão energicamente condenado em seus escritos demonológicos.
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Consistiu também em deslocar o foco para uma forma menos suspeita de criptografia, denominada poligrafia, cujos enigmas, com a ajuda de uma chave que ele mesmo fornecia, eram expressamente decifráveis em termos linguísticos isentos de adornos angélicos.
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Traçando as origens da poligrafia ao mundo antigo, prenunciada pelos hieróglifos egípcios, Tritêmio contou entre seus mais proeminentes praticantes gentios antigos, junto com o espúrio Menastor, Arquimedes, Cícero e Augusto César; e entre seus mais proeminentes praticantes cristãos primitivos citou São Cipriano, o Venerável Beda e, como paradigma principal para benefício de Maximiliano, Carlos Magno.
Como deixa claro o prefácio da Polygraphia resultante, a mudança de metodologia entre as duas formas de criptografia — esteganografia e poligrafia — não significou de modo algum um afastamento da teoria mágica que sustentava suas aplicações práticas.-
Se se pode sustentar viàvelmente que a anexação de uma chave ao tratado esteganográfico de Tritêmio apoia uma análise plenamente linguística de seus códigos e cifras nas mesmas linhas que guiam suas operações poligráficas, pode-se igualmente afirmar que sua poligrafia, tanto quanto sua esteganografia, estava direcionada a fins espirituais superiores comensurais aos expostos em sua teologia mística.
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Tanto em sua teoria poligráfica quanto na esteganográfica, Tritêmio deixou clara sua crença de que a magia, embora possuindo o tipo de aplicações práticas que a tornavam atraente para patronos seculares como o imperador Maximiliano, o príncipe-eleitor Filipe do Palatinado e o marquês-eleitor Joaquim de Brandemburgo, no fundo visa a um objetivo transmundano: a condução da alma do mago da terra ao Céu.
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