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esoterismo:yates:1969:1

1 John Dee e a Era Elisabetana

YATES, Frances A. Theatre of the World. London: Routledge & Kegan Paul; Chicago: University of Chicago Press, 1969.

  • Na véspera de sua partida para a Polônia, a convite do príncipe Alberto Laski, John Dee elaborou um inventário de sua biblioteca, com dois catálogos autógrafos datados de 6 de setembro de 1583, conservados no Trinity College de Cambridge e no Museu Britânico.
  • O catálogo lista mais de quatro mil obras, entre livros impressos e manuscritos; a lista dos manuscritos foi publicada por J. O. Haliwell e reeditada criticamente por M. R. James em 1921, mas a dos livros impressos permanecia inédita.
  • O capítulo busca oferecer uma impressão geral da vida e obra de Dee, tomando sua biblioteca como tema central e apresentando-o como um homem universal do Renascimento.
  • Dee nasceu em 1527, filho de Roland Dee, de posição modesta na corte de Henrique VIII; a casa de Mortlake, onde instalou sua biblioteca, era herança familiar, e ele se dizia descendente de antigos reis britânicos e parente distante da rainha Elizabeth.
  • Ingressou em St. John's College, Cambridge, em 1542, dedicando-se intensamente ao estudo, com apenas quatro horas de sono por noite e dezoito horas diárias de aprendizado.
  • Sua inclinação pelas ciências matemáticas enfrentava a hostilidade da Inglaterra Tudor, que associava tais saberes ao papismo e à magia, enquanto o saber humanístico baseado nas línguas antigas e na retórica era o caminho para o avanço e o lucro.
  • A máquina teatral que construiu para uma comédia de Aristófanes em Trinity College, Cambridge, causou consternação ao voar até o teto do salão com um homem e uma cesta de víveres, associando pela primeira vez a palavra “conjurador” ao seu nome.
  • Viajou pelos Países Baixos, França e Itália para “falar e conferir com homens doutos” e colecionar livros, conhecendo os principais matemáticos europeus; suas lições sobre Euclides em Paris, em 1550, atraíram multidões.
  • Com a ascensão de Elizabeth, iniciou o período mais importante e influente de sua vida, marcado por um grande renascimento das ciências matemáticas na Inglaterra fomentado por seu entusiasmo.
  • Segundo seu próprio relato, foi Robert Dudley, conde de Leicester, quem o apresentou à rainha; entre a ascensão de Elizabeth e sua partida para o continente em 1583, gozou de proteção régia e de Leicester, embora sem reconhecimento ou recompensa abertos.
  • A rainha visitou Dee em Mortlake mais de uma vez, assim como Leicester e seu sobrinho Philip Sidney, que teria estudado sob sua orientação; a biblioteca de Dee servia aos líderes do Renascimento elisabetano.
  • F. R. Johnson (1937) descreveu Dee e seus amigos e pupils como a academia científica da Inglaterra no terceiro quartel do século, mantendo o grupo inglês em contato com as últimas ideias e descobertas europeias.
  • Dee pleiteou junto à rainha Mary a recuperação dos livros e manuscritos dispersos com os mosteiros, para fundar uma grande biblioteca nacional; diante do fracasso, formou sua própria biblioteca, que em 1583 ultrapassava quatro mil volumes, provavelmente a maior biblioteca científica da Europa.
  • Johnson enfatiza que a biblioteca continha valiosos manuscritos medievais de ciência e todas as obras impressas recentes sobre ciências matemáticas, estando sempre à disposição de amigos e alunos.
  • A caracterização de Johnson como biblioteca puramente matemática e científica é parcial, pois o catálogo revela a biblioteca de um homem universal.
  • Dee escreveu muito e publicou pouco, circulando seus escritos manuscritos entre amigos e alunos; suas duas obras publicadas mais conhecidas são o Prefácio a Euclides e os diários espirituais, que ilustram os dois lados de sua reputação.
  • Em 1570 foi publicada a tradução inglesa de Euclides por Henry Billingsley, com o Prefácio de Dee, que percorre todas as ciências matemáticas e exorta ao seu incentivo e aperfeiçoamento.
  • O Prefácio matemático de Dee é manifesto mais importante para o avanço da ciência que o Advancement of Learning de Francis Bacon, publicado trinta e cinco anos depois, pois Dee compreendia a importância básica da matemática, subestimada por Bacon.
  • O Prefácio teve imensa influência até bem dentro do século XVII e, junto com o ensino e a influência pessoal de Dee, fez surgir uma escola de matemáticos e cientistas que tornou a fase final do elisabetanismo um período importante para o avanço científico.
  • A outra obra famosa, ou infame, de Dee é A True and faithful Relation, publicada por Meric Casaubon em 1659 a partir de um diário manuscrito, descrevendo tentativas de conjurar anjos com conjurações cabalísticas numerológicas em associação com Edward Kelly.
  • Essa obra apresentou Dee sob luz extremamente supersticiosa e como vítima iludida das decepções de Kelly, fixando a reputação de fanático iludido que perdurou pelos séculos XVIII e XIX.
  • Apenas no século XX historiadores da ciência iniciaram a reabilitação de Dee, redescobrindo o cientista e autor do Prefácio matemático; a pioneira foi E. G. R. Taylor, em livro de 1930 sobre geografia Tudor, que examinou seus conhecimentos geográficos e seu trabalho como conselheiro de marinheiros elisabetanos.
  • Taylor usou o catálogo da biblioteca e publicou como apêndice uma lista dos livros de geografia, reproduzindo os pequenos triângulos com que Dee marcava os livros que considerava particularmente importantes.
  • F. R. Johnson (1937) interessou-se por Dee sobretudo como astrônomo, atribuindo a ele e a Robert Recorde o crédito pela difusão do conhecimento da nova astronomia copernicana entre os cientistas ingleses.
  • Johnson conhecia o catálogo, mas não seguiu o exemplo de Taylor de publicar um apêndice com as obras de astronomia; o tratamento adequado do catálogo exigiria uma equipe de especialistas de diversos campos.
  • Em The Mathematical Practitioners of Tudor and Stuart England (1954), Taylor destacou Dee como líder do movimento de projetistas e fabricantes de instrumentos científicos no final do século XVI.
  • Taylor caracteriza Dee como alguém para quem as aplicações práticas da astronomia e da geometria estavam em primeiro plano — desde tirar horóscopos até avançar a navegação, reformar o calendário ou mapear minas subterrâneas.
  • Suas visitas a Lovaina, Bruxelas e Paris (1547-1550) o familiarizaram com os principais matemáticos continentais, para quem o projeto, a descrição e o uso de instrumentos era parte integrante do trabalho.
  • De volta a Londres, foi introduzido nos círculos da corte, onde se preparava a expansão marítima; por trinta anos aconselhou e instruiu pilotos e navegadores e reuniu uma grande biblioteca matemática e científica e uma variedade de instrumentos.
  • O impacto de seu Prefácio ao Euclides inglês sobre jovens da classe média, filhos de comerciantes e artesãos, foi muito grande, mostrando como a geometria podia avançar a técnica e fomentar invenções.
  • Em 1574, o Dr. Richard Foster descreveu Dee como um Atlas que carregava sobre os ombros o peso do renascimento das artes matemáticas na Inglaterra; em 1590, Tycho Brahe saudou-o e a Thomas Digges como “nobilíssimos, excelentes e doutos matemáticos”.
  • Os historiadores da ciência reabilitaram Dee, mostrando por trás do conjurador ridículo o cientista prático a par do pensamento científico mais recente, traduzindo-o em uso prático para seus compatriotas.
  • Dee surge na vanguarda dos movimentos elisabetanos — a expansão marítima, a atividade científica de todos os tipos — e particularmente elisabetano em espírito por seu apelo às classes artesãs ascendentes.
  • Seu saber era de tipo novo e moderno, incluindo tecnologia e especulação abstrata, e apelava tanto às novas classes sociais quanto à rainha e aos cortesãos, sendo um espelho completo da era elisabetana.
  • A imagem traçada pelos historiadores da ciência é parcial: ao concentrarem-se nos aspectos que lhes interessam, dão a impressão de que Dee e sua biblioteca nada têm a dizer ao historiador da literatura e das artes.
  • O conhecimento de Dee não pode ser canalizado em disciplinas separadas; deve ser visto nos contextos religioso, filosófico e mágico em que foi gerado, sendo o conjurador cabalístico dos diários espirituais o mesmo homem que o cientista prático.
  • A tese de doutorado inédita de I. R. F. Calder (1953) fez amplo estudo da vida e obra de Dee, cobrindo matemática, ciência, astrologia, alquimia, espiritualismo, magia e filosofia neoplatônica e religião.
  • Essa tese é o melhor esforço até então para tratar Dee como um todo, embora omita um estudo em escala plena do Prefácio matemático e do catálogo da biblioteca, por pretender preparar estudos posteriores.
  • A história do pensamento não deve isolar de uma personalidade os elementos que parecem importantes à luz de desenvolvimentos posteriores, pois isso a vicia e distorce; o pensamento de um homem deve ser visto por inteiro, incluindo os aspectos difíceis para os modernos.
  • O século XIX excluiu Dee da consideração séria por causa de sua “conjuração”, o que os historiadores da ciência mostraram ser errado; mas incluí-lo apenas como cientista, excluindo seus outros lados, também é incompleto.
  • O catálogo da biblioteca pode ajudar a ver o homem como um todo; o capítulo omite quase toda menção às obras científicas que interessaram aos historiadores da ciência, selecionando obras significativas para a visão de mundo de Dee.
  • A tentativa de usar o catálogo desse modo é fragmentária e superficial, mas pode ao menos chamar atenção para esse documento básico para a compreensão não só de Dee, mas dos cortesãos, nobres, poetas, eruditos e cientistas elisabetanos para quem era a melhor biblioteca do país.
  • A obra De occulta philosophia de Henrique Cornélio Agripa, listada no catálogo, dá a pista de como o mesmo homem podia ser cientista matemático e “conjurador”: Agripa divide o universo em três mundos cabalísticos — o natural, onde o mago opera com magia natural; o celeste, com magia matemática; e o superceleste, com conjurações numéricas.
  • A concentração de Dee na matemática como chave de todas as ciências incluía operar com número na ciência genuína e operar com número para conjurar anjos.
  • Pesquisas recentes mostram que o livro de Agripa era o resultado lógico, embora extremo, de todo o movimento vagamente chamado de neoplatonismo renascentista, com um núcleo hermético e mágico expresso por Ficino nos Libri de vita e acrescido da magia cabalística por Pico della Mirandola.
  • Do movimento neoplatônico surgiram, como auxiliares, uma multidão de escritores de literatura oculta dos mais variados tipos, e a biblioteca de Dee era extremamente rica nessa literatura.
  • Incluía todas as obras principais de Ficino, tanto as próprias quanto as traduções de Platão e dos neoplatônicos, e de Pico della Mirandola; havia uma seção especial de livros cabalísticos e outra de lulismo, rica em obras de Lull e de lulistas posteriores, representando o revival renascentista do lulismo associado à Cabala, incluindo o pseudo-luliano De auditu cabalistico.
  • Tritêmio estava fortemente representado, assim como Cardano e Guillaume Postel; Dee não esqueceu os neoplatônicos franceses e tinha um exemplar da Mantice de Pontus de Tyard, além de alguns filósofos italianos modernos como Patrizi e Pomponazzi, e grandes coleções de astrologia e alquimia.
  • A organização do catálogo é parcialmente sistemática, variando o critério: alguns grupos por tamanho, outros por língua, com agrupamentos por assunto — livros paracelsistas (seção grande), lulistas, históricos, de viagens e descobrimentos —, exigindo leitura integral para reunir um autor ou assunto.
  • Não há nada de aleatório no catálogo: as entradas são claramente escritas e geralmente incluem data e local de publicação, além de autor e título.
  • Livros de teologia controversa estão conspicuamente ausentes; havia bíblias, salmos, alguma teologia escolástica, a Theologia Platonica de Ficino, o Pimandro e o Asclepius de “Mercurius Trismegistus” (Corpus Hermeticum e Asclepius), Lactâncio, Pseudo-Dionísio e a Civitas Dei de Agostinho.
  • O catálogo sugere que Dee, embora apaixonadamente interessado no sobrenatural, evitava a teologia dogmática.
  • A ciência é dominante, com as ciências genuínas misturadas às pseudociências, mas Dee também se interessava pelas belas-artes.
  • Dee tinha exemplares de Vitrúvio e de comentadores renascentistas de Vitrúvio, Dürer sobre proporção, Luca Pacioli sobre proporção, muitos livros sobre perspectiva e as vidas dos pintores de Vasari.
  • Possuía poetas gregos e latinos — Homero e Hesíodo, Píndaro, Ovídio, Catulo, Lucano — e boa representação de dramaturgos antigos: comédias de Plauto e tragédias de Sêneca, além das comédias de Aristófanes e tragédias de Sófocles e Eurípides em grego.
  • Essas coleções talvez se liguem ao interesse pela produção de peças clássicas, do qual se conhece um exemplo certo: a máquina teatral para a Pax de Aristófanes em Trinity College, Cambridge.
  • A biblioteca estava bem equipada com obras de referência renascentistas usuais — a Hieroglyphica de Pierio Valeriano, a Mythologia de Natale Conti, os Emblemas de Alciati — e com dicionários e gramáticas de várias línguas.
  • A teoria musical estava representada por Zarlino e outras obras padrão, e a biblioteca possuía o principal manual renascentista sobre harmonia cósmica, a Harmonia mundi de Francesco Giorgi.
  • Se o catálogo fosse publicado com bom índice de assuntos, os estudiosos poderiam saber de imediato o que Dee tinha sobre seus temas de interesse.
  • A autora, que há anos pesquisa a arte da memória, conjecturou que Dee teria conhecido algo do assunto e agora encontra no catálogo manuscrito cinco livros sobre memória, incluindo L'Idea del Theatro de Giulio Camillo, prova interessante de que o Teatro da Memória de Camillo era conhecido na Inglaterra.
  • A história está ricamente representada, antiga e moderna, com grande seção e obras dispersas ao longo do catálogo, refletindo o amor de Dee pela erudição antiquária semimística e sua paixão pela história britânica antiga usada na genealogia da rainha Elizabeth.
  • A lista de livros em inglês contém muitas crônicas, entre elas as Crônicas de Holinshed, as de Thomas Cooper, a Geometrical Practice de Leonard e Thomas Digges, o Pageant of Popes de John Bale, a Art of Shooting de William Bourne, os Tenures de Littlewood, o Urinal of Physic de Robert Recorde, as Crônicas de Stowe e o Abridgement of Chronicles de Grafton.
  • Um leitor sem grego e com pouco latim podia usar a biblioteca, folheando crônicas inglesas e obras técnicas em inglês escritas por membros da escola científica de Dee — Leonard e Thomas Digges, Robert Recorde, William Bourne — e o Euclides inglês com o famoso prefácio.
  • Poetas como Sidney e Dyer encontravam na biblioteca não só os livros necessários aos estudos filosóficos e científicos sob Dee, mas também os sonetos de Petrarca, o Inferno de Dante com comentário de Giambullari e a Defense et illustration de la langue française de Joachim Du Bellay.
  • Os historiadores da ciência fizeram bem por Dee, mas afastaram outros ao dar a impressão de que sua biblioteca era puramente científica no sentido moderno.
  • Todo o Renascimento está nessa biblioteca, ou melhor, o Renascimento interpretado por Ficino e Pico della Mirandola, com inclinação para filosofia, ciência e magia, mais que para estudos humanísticos puramente gramaticais.
  • É um Renascimento sem ferocidade doutrinária, nem Reforma nem Contrarreforma, mas com fortes tendências místicas e mágicas, que prefere ler as hierarquias de anjos com Pseudo-Dionísio a ler as obras de Calvino.
  • É um Renascimento situado na Inglaterra, com seu desenvolvimento característico de ciência popular de forte viés prático, voltado para a navegação, o mar e novas terras além-mar, incluindo a História Britânica de Geoffrey de Monmouth e as crônicas da Inglaterra.
  • Valoriza a poesia antiga e moderna, grega e latina, italiana e francesa; embora não haja poetas ingleses na lista de livros ingleses, é de perguntar se os principais poetas elisabetanos não teriam todos usado essa biblioteca.
  • É natural comparar o catálogo da biblioteca de Dee com o de outra grande biblioteca, redigido em 1609 e que, ao contrário, obteve a honra da publicação erudita: o catálogo da Biblioteca Lumley, editado por Sears Jayne e F. R. Johnson e publicado pelo Museu Britânico em 1956.
  • A Biblioteca Lumley possuía obras de Ficino e de Agripa e razoável quantidade de obras com influências herméticas, mas não tem a importância científica da de Dee, com sua riqueza de obras de valor científico genuíno.
  • O catálogo Lumley começa pela teologia, com uma série de Padres, comentários das Escrituras e obras de teologia controversa de tipo conspicuamente ausente da biblioteca de Dee, sugerindo uma mente mais convencional.
  • Pergunta-se se, apesar dos esforços úteis dos historiadores da ciência, o antigo preconceito ainda opera e a publicação dos diários espirituais por Meric Casaubon ainda impede uma abordagem histórica e crítica adequada de uma das figuras mais importantes da era elisabetana.
  • É tempo de Dee ser julgado objetivamente e sem preconceito, com investigação histórica crítica não só sobre a natureza de sua ciência e seu lugar na história do pensamento, mas também sobre a natureza de sua religião e seu lugar na história da religião.
  • Dee tinha uma religião, e muito forte; definiu-a em 1592, em carta ao arcebispo de Canterbury, dizendo que desde a juventude aprouve ao Todo-Poderoso insinuar em seu coração um zelo insaciável e desejo de conhecer sua verdade.
  • Descreve seu método como filosófico e harmonioso, ascendendo gradualmente das coisas visíveis às invisíveis, das corporais às espirituais, das transitórias às permanentes, das mortais à percepção da imortalidade.
  • Conclui que, pela maravilhosa estrutura do mundo inteiro, filosoficamente vista, ponderada, numerada e medida, deve amar, honrar e glorificar sempre o seu Criador, em cuja obra sua infinita bondade, insondável sabedoria e poder onipotente podem ser manifestados e demonstrados.
  • Era a religião de um matemático que acreditava que a criação divina era mantida por forças mágicas; substituindo a mecânica pela magia como força operativa do Criador, a religião de Dee talvez não fosse muito diferente da de Isaac Newton.
  • O período mais fecundo e influente da vida de Dee, da ascensão de Elizabeth até sua partida da Inglaterra em 1583, terminou com a visita, em maio daquele ano, do príncipe polonês Alasco, ou Laski, que o persuadiu a ir com ele para a Polônia.
  • A rainha ordenou que Laski fosse recebido com honras em Oxford; apesar da profusão de peças latinas, jantares, fogos de artifício e disputas, tem-se a impressão de que a ocasião pública evidenciou certas fraquezas da Oxford pós-Reforma.
  • Na viagem de volta de Oxford a Londres, pelo rio, na barca real, acompanhado de Philip Sidney e outras pessoas distintas, Laski parou em Mortlake para visitar o doutor Dee.
  • O diário de Dee registra o evento em 15 de junho: cerca das cinco horas chegou o príncipe polonês Lord Albert Lasky, vindo de Bissham, onde pernoitara, de retorno de Oxford, onde fora ver as universidades e foi muito honrosamente tratado e entretido.
  • Laski tinha em sua companhia Lord Russell, Sir Philip Sydney e outros cavalheiros; foi remado pelos homens da rainha, tinha a barca coberta com o pano da rainha e os trompetistas da rainha; veio de propósito para honrá-lo, pelo que Deus seja louvado.
  • Seria interessante poder reconstruir a biblioteca em que Dee provavelmente recebeu esses hóspedes esplêndidos; as divisões do catálogo por tamanhos, assuntos, história, geografia, seções lulista e paracelsista podem representar a disposição dos livros nas estantes.
  • Em torno dessas estantes pode-se imaginar Philip Sidney passeando, exibindo a melhor biblioteca da Inglaterra, digna de figurar entre as melhores da Europa; Oxford nada tinha a mostrar assim, pois os reformadores haviam retirado suas obras científicas.
  • Oxford de Roger Bacon e da escola medieval de Merton estava representada na coleção de Dee, que também se mantinha atualizada com livros modernos.
  • Laski ficou tão impressionado que convidou Dee a acompanhá-lo ao exterior; sentindo pouco futuro na Inglaterra, Dee aceitou, e no início do outono de 1583 ele e Kelly partiram para Lascoe, sede do príncipe perto de Cracóvia.
  • A fuga de cérebros realmente começou em 1583, quando esse eminente matemático, tecnólogo e mago foi tentado a deixar seu país natal; antes de partir, Dee fez o catálogo de sua biblioteca, datado de 6 de setembro de 1583.
  • Pouco depois de sua partida, uma multidão enfurecida invadiu sua casa em Mortlake, destruiu seus instrumentos científicos e danificou a biblioteca.
  • A lamentável história é contada pelo próprio Dee no Compendious Rehearsall, sob o título “A briefe note and some remembrance of my late spoiled Mortlake library”.
  • Dee estima o valor dos livros e manuscritos em 2.000 libras e diz que levou cerca de quarenta anos para reuni-los, “de diversos lugares além-mar, e alguns por minha grande busca e trabalho aqui na Inglaterra”.
  • Queixa-se de não ter recebido compensação pela perda, mas parece que não perdeu tudo; fala de mais de quinhentos desaparecidos “dos que podem ser obtidos por dinheiro, e assim seu valor conhecido; pois alguns faltantes não podem ser obtidos por dinheiro em nenhum mercado”.
  • Outros tesouros foram irrevogavelmente destruídos ou desapareceram: seu quadrante feito por Richard Chancellor, sua grande balestilha, os dois globos da melhor feitura de Gerard Mercator.
  • As caixas com documentos foram saqueadas, restando apenas marcas de giz no exterior para indicar seu conteúdo anterior; perdeu-se também uma caixa com uma coleção de selos.
  • “Clerks of the Records of the Tower”, diz Dee, “passaram dias inteiros em minha casa em Mortlake reunindo raridades a seu gosto”, vislumbre interessante do uso da casa de Dee como uma espécie de Museu Britânico e Arquivo Público combinados.
  • O período de maior esplendor e utilidade da biblioteca de Dee foi de cerca de 1570 a 1583, década muito importante da história inglesa.
  • Ainda assim, ele evidentemente conseguiu resgatar boa parte de seus livros ao retornar à Inglaterra em 1589 e talvez adquirir mais, pois não podia viver sem livros.
  • Dee não tinha segurança em seu background, sentia-se pertencente a lugar nenhum e carecia de reconhecimento público, pois o apoio de Leicester e da rainha era clandestino, não oficial.
  • Essa falta de segurança propiciava maior liberdade para práticas mais ousadamente mágicas, como a conjuração de anjos, e para uma “magia matemática” mais intensiva, isto é, ciência aplicada e tecnologia.
  • Todas as suas atividades ilustram sua inclinação prática e seu desejo de obter resultados; dedicava-se à conjuração de modo muito sério, preenchendo inumeráveis quadrados com números minúsculos.
  • Não poupava esforços para capturar um anjo pelo uso correto do número na esfera superceleste, pois de ninguém melhor que um anjo poderia aprender os segredos da natureza.
  • Do mesmo modo, pretendia aperfeiçoar os instrumentos matemáticos, usando o número nas esferas inferiores, para permitir que os marinheiros navegassem por mares desconhecidos.
  • Em seu intenso senso da natureza como hierarquia completada no topo por seres oniscientes invisíveis, e em seu intenso desejo de explorar todos os aspectos do mundo visível, Dee é o elisabetano perfeito: nele Próspero e Sir Francis Drake se encontram e são um só.
  • Ilustra também as condições sociais peculiares da era elisabetana: seus contatos com as classes artesã e média ascendentes e a prática de escrever obras científicas em inglês para difundir conhecimento entre os não versados nas línguas antigas o diferenciam do erudito renascentista da Itália, França ou Espanha.
  • Há também um lado aristocrático: nobres misteriosos por trás dele, uma esfera secreta ou cortesã para suas atividades ao lado do lado popular; é simultaneamente extremamente exotérico e prático e esotérico entre um círculo interno vagamente definido.
  • Esse tipo de situação torna o Renascimento elisabetano tão peculiar em comparação com os de outros países, onde não há essa nova situação social com classes ascendentes que participam do Renascimento nem esse mistério sobre patronos e grupos internos de conhecedores.
  • John Dee é o exemplar perfeito dessas peculiaridades, talvez até uma de suas principais fontes; resolver Dee ajudaria muito a resolver não só a era elisabetana em si, mas também seu lugar na história do pensamento.
  • Sua “imagem do mundo” não era medieval, mas renascentista; era a imagem do mundo de John Dee, o mundo meio mágico que se move, não para trás, para a Idade Média, mas para frente, em direção ao século XVII.
  • Os estudiosos estão se tornando conscientes da importância de Dee e o longo abandono dessa figura surpreendente logo chegará ao fim; pode-se prever com confiança que não faltará muito para o aparecimento de edições modernas de seu Prefácio a Euclides e do catálogo de sua biblioteca.
  • O esboço apresentado no capítulo será logo preenchido por trabalhos mais detalhados; o propósito foi apresentar essa breve impressão de Dee como um todo, como prelúdio ao papel que ele desempenha no tema principal do livro, que se abre no capítulo seguinte.
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