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esoterismo:yates:1975:1

1 Renascimento elisabetano

YATES, Frances A. Shakespeare's Last Plays: A New Approach. London: Routledge & Kegan Paul, 1975.

O renascimento elisabetano na era jacobina

  • A propaganda de Elizabeth I articulava a reforma protestante da Igreja com o imperialismo sagrado e a tradição cavaleiresca arturiana, apresentando a Rainha Virgem como soberana de uma ordem religiosa purificada, cuja autoridade e missão se irradiavam pelo mundo.
    • A reforma conduzida pela monarquia encontrava legitimidade na tradição da participação dos imperadores nos concílios da Igreja, conferindo à soberania Tudor uma dimensão religiosa e imperial.
    • A descendência mítica de Arthur transformava os cavaleiros da rainha em agentes de uma reforma simultaneamente britânica, protestante e universal, cuja expressão poética foi imortalizada em A rainha das fadas.
  • Jaime I procurou herdar a simbologia de Elizabeth ao reivindicar, por intermédio de Henrique VII, a descendência de Arthur e apresentar a união das coroas inglesa e escocesa como restauração da unidade britânica, embora sua concepção de governo se afastasse da missão reformadora associada aos Tudor.
    • O ideal elisabetano vinculava a paz à constituição de uma ordem religiosa universalmente purificada e sustentada pela tradição cavaleiresca.
    • A afirmação jacobina do direito divino assumia um caráter mais partidário, enquanto sua política de paz privilegiava a prevenção dos conflitos, sem compromisso equivalente com a reforma universal ou com o protestantismo europeu.
  • As tensões do reinado de Jaime resultavam da discrepância entre a expectativa de continuidade da liderança protestante elisabetana e uma política efetivamente orientada pelo temor das potências católicas espanholas e habsburgas e pela disposição de apaziguá-las.
  • A mudança da atmosfera cortesã sob Jaime inquietava representantes da geração elisabetana, como Fulke Greville e Walter Raleigh, pois o enfraquecimento dos ideais de castidade e dignidade correspondia ao eclipse do puritanismo cavaleiresco e da tradição de Philip Sidney.
  • O abandono de John Dee, cuja tradição mágica e científica havia contribuído para fundamentar o imperialismo britânico elisabetano, significava também a marginalização de um movimento intelectual e político profundamente associado à época de Elizabeth.
    • Seu desprestígio começara ainda no final do reinado elisabetano, após o retorno da Boêmia, e persistiu quando Jaime recusou protegê-lo das acusações de magia negra.
    • Sua morte na pobreza, em 1608, evidenciava a perda de reconhecimento de uma tradição com a qual Philip Sidney provavelmente mantivera afinidades.
  • Um renascimento elisabetano desenvolveu-se, contudo, em torno do príncipe Henrique, primogênito de Jaime, cuja determinação e capacidade de liderança alimentaram expectativas interrompidas por sua morte prematura, em 1612, antes que pudesse exercer plenamente sua influência histórica.
  • O príncipe Henrique reunia austeridade moral, disciplina cortesã e convicção protestante em um projeto de preparação militar e naval, ao mesmo tempo que parecia admitir a possibilidade de uma solução abrangente para as divisões religiosas.
    • A formação de uma casa principesca com mais de quinhentos jovens submetidos a exercícios militares e exigências de conduta virtuosa conferia expressão prática ao ideal de liderança cavaleiresca.
    • Sua religiosidade não excluía certa moderação confessional, manifestada na recusa de permitir que o papa fosse chamado de Anticristo em sua presença.
    • O interesse por matemática, fortificações e construção naval, o apoio a Phineas Pett e as consultas a Raleigh aproximavam a preparação política do conhecimento técnico, em contraste com o encarceramento desse conselheiro por Jaime.
  • A imagem pública de Henrique, jovem austero que se preparava para uma missão futura, recuperava o prestígio moral de Philip Sidney e fazia de sua corte uma continuidade mais convincente das tradições elisabetanas do que a corte de seu pai.
  • A preparação de Henrique para uma possível liderança da Europa protestante apontava para uma atitude mais firme diante dos Habsburgo, mas sua morte e a destruição de seus documentos impedem determinar se seus projetos conduziriam à guerra ou a uma reorganização capaz de evitar o conflito europeu.
    • Os contatos com Christian de Anhalt e outros dirigentes protestantes permitem considerar a hipótese de uma grande aliança destinada a enfraquecer os Habsburgo e abrir caminho à conciliação religiosa.
    • Permanece indeterminável se tal intervenção teria arrastado a Grã-Bretanha à devastação ou eliminado condições que posteriormente favoreceram a Guerra dos Trinta Anos.
    • A interrupção desses projetos aproxima Henrique do rei francês Henrique IV, assassinado quando se preparava para uma iniciativa militar na Alemanha cujo alcance histórico também permaneceu incerto.
  • O assassinato de Henrique IV, pouco antes da investidura de Henrique como príncipe de Gales, deixou uma lacuna na liderança europeia contrária à hegemonia habsburga, tornando plausível que o jovem príncipe fosse considerado um futuro continuador dessa função.
  • As esperanças de reconciliação religiosa despertadas pela conversão de Henrique de Navarra continuavam presentes na Europa do início do século XVII, apesar da repressão inquisitorial e dos limites confessionais estabelecidos pelo Concílio de Trento.
    • O destino de Giordano Bruno, que regressara à Itália animado por expectativas ligadas ao rei de Navarra e terminou condenado à fogueira, evidenciava a distância entre os projetos conciliatórios e a intolerância efetiva.
    • Uma possível estratégia de Henrique consistiria em enfraquecer militarmente os Habsburgo antes de buscar a conciliação, distinguindo-se da paz por apaziguamento praticada por Jaime.
  • Os retratos de Henrique condensam a passagem da promessa cavaleiresca à interrupção trágica de seu destino, contrapondo a figura juvenil investida de uma missão à imagem enfraquecida de um príncipe prestes a morrer sem realizar as esperanças nele depositadas.
  • As mascaradas cortesãs difundidas por Inigo Jones construíram a imagem de Henrique como jovem destinado a grandes realizações, retomando, em exercícios cavaleirescos inseridos em cenários romanescos, a tradição dos torneios comemorativos da ascensão de Elizabeth ao trono.
  • O Torneio de barreiras do príncipe Henrique, realizado em Whitehall em janeiro de 1610, combinou demonstração efetiva de habilidade militar e espetáculo alegórico, unindo a poesia de Ben Jonson à cenografia de Inigo Jones na apresentação pública do príncipe.
  • A primeira cena do espetáculo representava a decadência da cavalaria por meio de um palácio arruinado e do túmulo de Merlin, cujo despertar anunciava a recuperação conjunta da sabedoria, da magia e da ordem cavaleiresca pela intervenção de Henrique, figurado como Meliadus.
  • A passagem do palácio arruinado ao esplendor do Pórtico de São Jorge convertia a restauração arquitetônica em imagem da renovação cavaleiresca, enquanto a personificação da Cavalaria despertava e saía do confinamento diante de Meliadus e seus companheiros.
  • A convocação da Cavalaria para que se abrissem as portas enferrujadas e acorressem cavaleiros de todo o mundo transformava o início do combate em manifestação pública de uma ordem restaurada, cuja vitalidade se demonstrava na destreza e na graça do príncipe e de seu séquito.
  • A mitologia Tudor conferia à restauração cavaleiresca protagonizada por Henrique uma genealogia imperial, reunindo Arthur, a Dama do Lago e Merlin em uma celebração da unidade britânica e do cumprimento de antigas profecias.
  • A identificação principal de Jaime com um Arthur renovado e superior legitimava a dinastia Stuart mediante Henrique VII, transmitindo ao novo soberano tanto o direito ao trono inglês quanto o patrimônio mítico troiano e arturiano associado ao governo de Elizabeth.
  • Henrique recebia a missão de atualizar as glórias ancestrais mediante a restauração da cavalaria e da harmonia, sendo apresentado como herdeiro da resistência britânica a César, das vitórias de Henrique V e do triunfo elisabetano sobre a Armada espanhola.
  • A profecia dirigida à princesa Elizabeth vinculava seu futuro casamento à formação de uma descendência de alcance internacional, antecipando de maneira sugestiva sua participação na história da Boêmia e a posterior ascensão de seus descendentes ao trono britânico.
  • A estreia pública de Henrique assumiu, assim, a forma de uma entrada teatral na história, na qual a libertação da Cavalaria diante da família real o constituía como herdeiro de Bruto e da tradição lendária britânica.
  • A simbologia inaugurada pelo Torneio de barreiras permaneceu nas festividades até a morte de Henrique, preservando a precedência monárquica de Jaime, mas deslocando para Henrique e Elizabeth as promessas de renovação e as esperanças depositadas na geração seguinte.
  • A investidura de Henrique como príncipe de Gales, em junho de 1610, concentrou a atenção britânica e europeia sobre sua possível liderança após a morte de Henrique IV, mobilizando grandes multidões em celebrações cujo conteúdo alegórico não foi inteiramente preservado.
    • A estimativa de quase meio milhão de espectadores deve ser entendida com cautela, embora indique a percepção contemporânea de uma concentração excepcional de público.
    • A posterior representação de São Jorge libertando uma donzela, nos fogos dedicados ao noivado de Elizabeth, permite conjecturar uma continuidade com as imagens de libertação cavaleiresca associadas a Henrique, sem comprovar que o espetáculo anterior tivesse o mesmo tema.
  • A mascarada Oberon, o príncipe das fadas, apresentada em janeiro de 1611, retomou a renovação arturiana ao colocar Henrique à frente de cavaleiros despertados para uma segunda existência, sob a autoridade de Jaime figurado como Arthur.
    • A abertura de uma grande rocha para revelar um palácio e seus habitantes transformava a cenografia em representação material de uma tradição ancestral que emergia novamente para a vida.
  • A recorrência de personagens romanescas saindo de rochas ou cavernas fazia do renascimento cavaleiresco uma recuperação dos valores elisabetanos pela nova geração, enquanto a imagética feérica de Oberon restabelecia a ligação com Elizabeth e com o universo de Spenser.
  • A História dos reis da Bretanha, de Geoffrey de Monmouth, fornecia a genealogia lendária que permitia aos Tudor e aos Stuart vincular sua soberania a Bruto, descendente de Eneias, e à culminação arturiana da história britânica.
    • Embora sua autenticidade fosse contestada desde Polydore Vergil, a narrativa conservava força emocional e política por conferir à dinastia uma ascendência troiana comparável à de outras casas europeias.
    • Sua transferência aos Stuart favorecia a continuidade simbólica entre as dinastias e facilitava a passagem das lealdades, apesar do desenvolvimento da crítica histórica.
  • O poema Poliolbion, de Michael Drayton, ampliava para a descrição da paisagem britânica o esforço de integrar os Stuart ao mito Tudor, articulando a celebração de rios, cidades, colinas e costas com a história lendária de Geoffrey de Monmouth.
  • O frontispício da primeira parte de Poliolbion, publicada em 1612 e dedicada a Henrique, representava a Grã-Bretanha como figura feminina revestida de sua própria geografia e cercada pelos poderes que haviam governado a ilha.
    • A presença de Bruto, César, um saxão e um normando organizava a sucessão histórica em uma composição que culminava na legitimidade dos Stuart.
    • O leão vermelho em campo dourado, associado a Bruto, e a referência à dinastia reinante reforçavam a continuidade entre a origem mítica britânica e a soberania contemporânea.
  • A gravura de Henrique como cavaleiro em exercício militar prolongava, no livro, a imagem construída pelas mascaradas, celebrando-o como esperança da Grã-Bretanha e alegria do mundo poucos meses antes de sua morte.
  • A descrição poética das paisagens de Albion integrava beleza natural, memória lendária e legitimação dinástica, fazendo do desembarque de Henrique VII em Milford Haven o cumprimento da profecia do retorno da antiga linhagem britânica ao poder.
    • A ascendência de Bruto e sua ligação com os Plantageneta permitiam representar a chegada dos Tudor como restauração de uma soberania ancestral.
  • A vinculação do desembarque de Henrique VII ao nome dos Stuart fazia do ancestral comum o ponto decisivo da adaptação do mito Tudor à nova dinastia, assegurando a continuidade entre a recuperação profética do poder britânico e a sucessão contemporânea.
  • Os comentários eruditos de John Selden a Poliolbion conciliavam a crítica histórica das lendas britânicas com o reconhecimento de sua verdade poética e de sua eficácia na celebração da continuidade dinástica.
    • A distinção entre autenticidade factual e legitimidade poética aproximava essa atitude da utilização, por Ronsard, de uma ascendência troiana para a monarquia francesa, admitida como matéria patriótica apesar das dúvidas sobre sua realidade.
  • As profecias atribuídas a uma águia, retomadas por Selden a partir da tradição de Geoffrey de Monmouth, complementavam as profecias de Merlin na interpretação do advento dos Tudor e de seus sucessores Stuart como retorno anunciado da antiga linhagem britânica.
  • As ninfas fluviais dos mapas de Poliolbion aproximavam a representação geográfica da linguagem das mascaradas cortesãs, sugerindo afinidades com a Festa de Tétis, na qual as damas da corte personificaram rios ingleses durante as celebrações da investidura de Henrique.
  • As ressonâncias de Spenser em Drayton e Selden situavam Poliolbion entre as últimas manifestações do renascimento elisabetano associado a Henrique e Elizabeth, pouco antes de a morte do príncipe interromper as expectativas que sustentavam o movimento.
  • Os projetos matrimoniais dos filhos de Jaime expunham de maneira particularmente clara a tensão entre seu apaziguamento diplomático e as aspirações protestantes de seus súditos, pois pretendiam equilibrar uma união de Henrique com o campo católico espanhol e outra de Elizabeth com um príncipe protestante.
    • A aparente submissão inicial de Henrique às decisões familiares coexistia com a oposição de Raleigh, que, mesmo encarcerado, combatia a possibilidade de um casamento espanhol.
  • A peça Filastro, de Beaumont e Fletcher, pode ser relacionada à resistência aos casamentos espanhóis, pois seu conflito entre um soberano favorável à união de sua filha com um príncipe espanhol e uma geração jovem contrária ao projeto se aproximava das tensões existentes na família de Jaime.
    • A correspondência não é literal, mas a cronologia da peça e uma possível referência ao navio de Henrique reforçam sua afinidade com o ambiente de seus partidários e com a cavalaria elisabetana renovada.
  • A oposição entre a integridade dos protagonistas de Filastro e a devassidão do príncipe espanhol convertia o conflito matrimonial em confronto moral e religioso, recuperando o puritanismo cavaleiresco de Philip Sidney.
    • O nome do protagonista evocava Astrophel, enquanto os cenários pastoris e os vínculos amorosos retomavam o universo da Arcádia.
    • A impureza do pretendente espanhol e de Megra contrastava com a castidade dos amantes, tornando a união espanhola suscetível de associação com a imagem protestante da Prostituta da Babilônia.
  • A morte de Henrique sem ter se casado impediu a realização de sua união espanhola, enquanto o casamento de Elizabeth com um príncipe protestante, correspondente à outra metade da política matrimonial de Jaime, já havia adquirido forma concreta.
  • A chegada do eleitor palatino em outubro de 1612 consolidou uma aliança matrimonial de grande alcance político, apoiada por Henrique e envolvida em uma atmosfera romanesca que atenuava a percepção dos conflitos europeus subjacentes.
    • O fortalecimento da oposição de Henrique ao casamento espanhol acompanhava rumores de que seguiria a irmã à Alemanha e se casaria com uma princesa protestante alemã.
    • A afeição entre os irmãos e o amor dos noivos compunham uma imagem arcádica, enquanto a concentração de forças habsburgas e protestantes tornava decisiva a posição que Jaime e a Grã-Bretanha assumiriam.
  • A morte inesperada de Henrique, aos dezenove anos, privou a geração principesca de seu integrante mais forte e constituiu um golpe contra os projetos protestantes alemães e a oposição europeia aos Habsburgo, lançando uma sombra sobre o casamento de Elizabeth.
    • A provável febre tifoide não impediu suspeitas de crime, enquanto o acontecimento agravava os temores de Jaime, já marcados pela Conspiração da Pólvora e pelo assassinato de Henrique IV.
    • A perda do príncipe comprometeu iniciativas ainda em formação, cuja recuperação posterior permaneceu insuficiente.
  • O casamento de Elizabeth com o eleitor palatino, celebrado em Whitehall em fevereiro de 1613, assumiu a dimensão de uma afirmação religiosa e política da aproximação anglo-protestante, apesar do luto e do adiamento da cerimônia.
    • A participação do eleitor calvinista no rito anglicano e sua afinidade com o arcebispo Abbot alimentavam expectativas de ampliação da influência anglicana no continente.
    • As tapeçarias alusivas à derrota da Armada espanhola reativavam a memória da liderança elisabetana, enquanto a ausência dos embaixadores espanhol e flamengo manifestava a oposição à aliança.
    • A morte de Rodolfo II favorecia conjecturas sobre mudanças no Império, intensificando esperanças de enfraquecimento do domínio habsburgo e de transformações de alcance apocalíptico.
  • A união da filha de Jaime com o chefe da União dos Príncipes Protestantes Alemães parecia confirmar uma decisão britânica favorável ao campo protestante, despertando entusiasmo entre os defensores da tradição elisabetana.
  • A princesa Elizabeth foi celebrada como noiva-fênix, figura na qual a Rainha Virgem renascia rejuvenescida e transmitia seus atributos a uma nova portadora de destino histórico, conforme a simbologia desenvolvida no poema nupcial de John Donne.
  • A pureza da noiva reunia o significado de uma Igreja purificada e a herança religiosa e imperial de Elizabeth I, permitindo projetar sobre a princesa a expectativa de uma missão potencialmente mais ampla do que a da antiga soberana.
  • A coroa nupcial de ouro, densamente ornamentada com pérolas e diamantes sobre os cabelos longos da princesa, conferia à sua aparência uma majestade imperial que reforçava a associação entre casamento, pureza e destino dinástico.
  • O Retrato do arco-íris reúne elementos que aproximam a representação de Elizabeth I da imagética nupcial e imperial, particularmente o adorno inspirado em uma noiva tessalonicense e as joias dispostas como coroa.
    • A presença de uma luva de armadura junto ao colarinho permite também considerar uma ligação com a alegoria cavaleiresca dos torneios de ascensão ao trono.
  • A juventude do rosto no Retrato do arco-íris contrasta com a idade de Elizabeth I na data aproximada de 1600 atribuída à obra, sugerindo o emprego de uma representação anterior ou idealizada da soberana.
  • Os cabelos longos e o adorno nupcial permitem interpretar o Retrato do arco-íris como alegoria religiosa da rainha enquanto noiva de Cristo, articulando convenções visuais do casamento com a representação sagrada da monarquia.
  • O Retrato do arco-íris pode também ser compreendido como expressão do renascimento de Elizabeth I na princesa Elizabeth, cuja condição de noiva-fênix reuniria juventude, dignidade imperial, promessa de paz e personificação de uma Igreja purificada.
    • Essa hipótese preserva a identificação com a antiga rainha, mas desloca o sentido de seu rejuvenescimento para a continuidade simbólica concretizada no casamento da princesa.
  • As celebrações nupciais articularam o luto por Henrique com uma exuberante produção teatral, na qual a harmonia das esferas e as profecias de futuros reis e imperadores apresentavam a união anglo-alemã como promessa de concórdia religiosa e política.
    • A mascarada de Thomas Campion e Inigo Jones pode ter incorporado as esperanças de Henrique de superar as divisões confessionais.
    • Como as festividades haviam sido encomendadas pelo próprio príncipe, sua morte provavelmente exigiu adaptar ou suprimir referências previstas durante a preparação dos espetáculos.
  • As apresentações da companhia de Shakespeare para Elizabeth e o eleitor palatino, no período natalino de 1612, inseriram O conto do inverno e A tempestade no contexto das expectativas associadas ao casamento, admitindo-se a hipótese de que a mascarada de A tempestade tenha sido acrescentada para essa ocasião.
  • As últimas peças de Shakespeare pertencem ao ambiente de renascimento elisabetano concentrado na geração jovem da família real, e sua imagética ganha inteligibilidade quando relacionada às esperanças políticas, às tradições cavaleirescas e às representações de renovação que acompanharam Henrique e Elizabeth.
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