3 Fadas e magia
COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.
As fadas e o mágico
1. As descrições atribuídas às fadas apresentam-nas como seres superiores à humanidade ou intermediários entre homens e anjos, capazes de influenciar pensamentos e habitar o ar, dotados de inteligência ativa e corpos sutis, mutáveis e semelhantes a nuvens condensadas, cuja visibilidade se intensifica no crepúsculo e cuja aparição ou desaparecimento depende da vontade dos espíritos que os animam.
2. Os corpos das fadas são descritos como ar solidificado, e sua organização social reproduz costumes humanos, com governantes, leis, famílias e distinções entre virtude e vício, embora sua constituição sutil reduza a inclinação aos excessos e lhes permita aspirar a uma existência superior, empregando sua força extraordinária sobretudo quando encarregadas de punir faltas graves.
3. Outras tradições atribuem às fadas uma moralidade superior à humana, caracterizada pela rejeição da mentira e pela devoção à verdade, enquanto sua aparência varia de seres diminutos a figuras de estatura humana ou maior, organizadas sob reis e rainhas e compreendidas como uma ordem intermediária entre a humanidade e os espíritos ou como manifestações dos poderes da vida.
O reino das fadas
1. A influência cristã aproxima as fadas dos anjos e, numa tradição bretã, explica sua origem pela neutralidade durante a guerra celeste, que as teria conservado na Terra, enquanto outras crenças as associam aos mortos e às moradas subterrâneas, apesar de frequentemente lhes atribuírem uma condição estática, sem desenvolvimento moral ou espiritual.
2. A proximidade entre mortos e fadas no folclore céltico relaciona-se ao simbolismo das elevações e moradas subterrâneas como lugares de origem, sustentação da vida, morte e renascimento, mas as sagas tendem a apresentar os mortos de maneira sombria e ameaçadora, ao passo que os contos de fadas os integram com naturalidade como auxiliares sobrenaturais.
3. O reino das fadas constitui um domínio intermediário entre o humano e o divino, no qual se combinam natureza e sobrenaturalidade e cujas moradas abrangem montanhas, espaços subterrâneos, clareiras, pomares, prados, águas, ilhas bem-aventuradas e nuvens, situando-se simbolicamente além das coordenadas ordinárias do mundo.
4. As explicações das origens das fadas oscilam entre a memória de populações antigas obrigadas a refugiar-se em cavernas e suas afinidades com o Paraíso, os deuses agrícolas e os espíritos da natureza, manifestadas no auxílio doméstico, no cuidado dos animais, na fertilidade dos campos e na exigência de limpeza e ordem, enquanto suas danças rituais preservariam vestígios de antigas celebrações agrícolas e dionisíacas.
5. A dança circular das fadas, realizada de mãos dadas e com as costas voltadas para o centro até o amanhecer, reproduz simbolicamente a energia criadora e o ritmo do universo, auxilia magicamente o percurso solar e delimita um espaço sagrado.
6. A música exerce poderes de encantamento, sono, transformação e restauração da vida em mitos e contos de diferentes tradições, mas as fadas temem ruídos intensos, sobretudo trovões, tambores e sinos, associados a forças hostis ou à capacidade de afastar influências maléficas.
7. Certos meios de proteção contra as fadas incorporam referências cristãs, como a vela junto ao leito da mãe e do recém-nascido antes do batismo e a cruz traçada sobre barris de cerveja para impedir o furto da bebida pelos duendes.
As flores e o ferro
1. Plantas e árvores mantêm relações diversas com o mundo feérico, podendo abrigar fadas, oferecer sabedoria e recipientes mágicos ou proteger pessoas e animais contra encantamentos e substituições de crianças, enquanto espécies como o sabugueiro exigem respeito à presença espiritual que as habita e outras, especialmente quando colhidas em condições rituais, adquirem eficácia protetora.
2. O ferro frio constitui uma ameaça ao mundo das fadas e um meio amplamente difundido de afastar espíritos, bruxas e outros poderes hostis, protegendo recém-nascidos, entradas de casas e caminhos de retorno do mundo subterrâneo, embora sua associação à destruição e à impureza também fundamente restrições ao seu emprego em contextos sagrados e explique o desaparecimento de seres feéricos ao seu contato.
3. Os ferreiros despertam temor por sua ligação com o ferro e por dominarem o fogo e a transformação misteriosa do metal, sendo aproximados dos praticantes de magia e incluídos entre os poderes contra os quais se dirigiam fórmulas religiosas de proteção.
4. A capacidade dos ferreiros de criar e destruir, sustentada por segredos profissionais e poderes rituais transmitidos aos iniciados, aproxima-os dos auxiliares dos deuses do fogo e dos anões que fabricam armas mágicas, cuja ambivalência se manifesta tanto em figuras protetoras quanto em personagens maléficos.
Poderes mágicos
1. As fadas assumem em certas narrativas funções semelhantes às das Parcas, concedendo dons materiais ou espirituais, determinando destinos, provocando desastres e exercendo poderes de transformação, transporte, profecia e leitura dos pensamentos, motivo pelo qual eram convidadas para nascimentos e acolhidas com banquetes destinados a obter seu favor.
2. A magia ritual procura produzir acontecimentos por correspondências naturais, seja pela imitação do efeito desejado, como verter água para provocar chuva ou acender fogueiras para fortalecer o sol, seja pelo contato com objetos, cabelos, unhas, pegadas e sombras vinculados a alguém, cuja posse permitiria agir sobre a pessoa e fundamentaria os poderes atribuídos a relíquias corporais e objetos mágicos.
3. Na magia simpática, uma parte pode representar o todo, de modo que cabelos ou penas oferecidos por animais auxiliares estabelecem um vínculo pelo qual o herói pode convocá-los em momentos de necessidade.
4. Sapatos, escamas e outros objetos oferecidos pelos personagens podem servir como meios de convocação e contato mágico, enquanto árvores e plantas representam a vida quando sua existência se encontra ligada à força vital de uma pessoa.
5. A ligação entre um indivíduo e um sinal exterior de sua vida aparece desde antigas tradições egípcias em árvores cujo estado reflete a condição humana e em objetos que se alteram diante de doença ou perigo, como anéis manchados, bastões caídos, lâminas ensanguentadas, roupas escurecidas e recipientes ou pentes que sangram.
6. O sangue, símbolo da força vital, possui grande eficácia mágica e pode, assim como a saliva, falar, revelar crimes, favorecer a justiça ou responder no lugar de personagens em fuga, além de selar vínculos entre irmãos de sangue e compromissos com poderes sobrenaturais.
7. Amuletos, colares, lâmpadas, retratos, armas e roupas podem conservar uma ligação com a vida de seus possuidores, permitindo tanto a transferência de doenças para objetos depositados em lugares sagrados quanto a produção de sofrimento por inscrições, maldições e figuras manipuladas magicamente.
O poder do nome
1. O nome verdadeiro é concebido como parte integrante da pessoa e fonte de poder sobre sua alma, razão pela qual muitas sociedades distinguem nomes públicos e secretos e atribuem à palavra eficácia criadora, capacidade de exorcismo e domínio sobre seres e forças sobrenaturais, fazendo da nomeação um ato constitutivo da identidade.
2. A transmissão de um nome totêmico durante a iniciação entre povos aborígenes australianos exemplifica a prática, difundida em diferentes épocas e culturas, de conferir uma nova identidade nominal ao indivíduo quando ele atravessa uma transformação ritual.
3. A proibição de nomear diretamente as fadas origina numerosas designações indiretas e respeitosas, como Pequeno Povo, Boa Gente, Povo da Colina, Gente Pacífica e Bons Vizinhos, empregadas em diferentes tradições para evitar os perigos associados à sua invocação.
4. O uso de nomes eufemísticos estende-se a divindades temidas, animais perigosos, mortos e doenças, evitando-se a designação direta por receio de atrair sua presença ou influência.
5. A perpetuação de sobrenomes e nomes ancestrais, a identificação de crianças com antepassados, o temor de renomear casas e embarcações e o segredo do nome infantil antes do batismo exprimem a crença de que o nome integra o próprio ser e de que seu conhecimento pode submeter o nomeado ao poder de outra pessoa.
6. O segredo dos nomes divinos protege a relação com as divindades e distingue os iniciados dos demais, enquanto seu conhecimento possibilita invocações, favores, coerção mágica e acesso ao outro mundo, como mostram as proibições religiosas de pronúncia, as inscrições gregas de maldição e as tradições egípcias sobre os nomes dos guardiões, dos deuses e de Rá.
7. A inscrição de nomes em figuras ritualmente destruídas permite dirigir simbolicamente a violência contra inimigos, enquanto o nome gravado na parede de um templo estabelece contato com a divindade e coloca seu portador sob proteção sagrada.
8. A crença no poder do nome atravessa a religião, o mito, a saga, o ritual e a lenda, conservando presença frequente e função decisiva nos contos de fadas.
