1 O Conto de Fadas
TOLKIEN, J. R. R.; FLIEGER, Verlyn; ANDERSON, Douglas A. Tolkien on fairy-stories. Expanded ed., with commentary and notes ed. London: HarperCollins, 2008.
Resumo com os tópicos essenciais por seções do ensaio
1. O Oxford English Dictionary de nada serve para definir o conto de fadas, pois não registra a expressão fairy-story e pouco esclarece sobre fadas em geral, limitando-se o Suplemento a registrar fairy-tale desde 1750 com o sentido principal de conto sobre fadas ou lenda feérica e os sentidos derivados de história irreal ou incrível e de falsidade.
2. Os dois últimos sentidos tornariam o tema desesperadamente vasto, enquanto o primeiro, embora amplo o bastante para muitos livros, é estreito demais para abarcar o uso real, sobretudo se aceita a definição lexicográfica de fadas como seres sobrenaturais de tamanho diminuto, dotados pela crença popular de poderes mágicos e de grande influência, para o bem ou para o mal, sobre os assuntos humanos.
3. Sobrenatural é palavra perigosa e difícil, dificilmente aplicável às fadas, que são naturais, muito mais naturais que o homem, este sim sobrenatural e muitas vezes de estatura diminuta, e o caminho para a terra das fadas não leva ao Céu nem ao Inferno, como lembra a velha balada escocesa que distingue a estreita via espinhosa da retidão, a larga estrada da maldade que alguns tomam pela do Céu e a bela estrada sinuosa entre as samambaias que conduz à formosa Terra dos Elfos.
4. A noção de tamanho diminuto domina o uso moderno, mas outrora a pequenez não caracterizava o povo da Feéria como um todo, sendo o ser feérico minúsculo, na Inglaterra, sobretudo um produto sofisticado da fantasia literária e de uma racionalização que reduziu o encanto élfico a mera delicadeza e a invisibilidade a uma fragilidade capaz de se esconder numa prímula, moda surgida quando as grandes navegações tornaram o mundo estreito demais para homens e elfos e a mágica Hy Breasail do Ocidente virou o simples Brasil do pau-tinta, num negócio literário de que participaram Shakespeare e Drayton, cuja Nymphidia é ancestral das fadas-flores de antenas, detestadas na infância e também por Andrew Lang, que zombava dos autores cujas fadas tentam ser engraçadas e fracassam ou tentam pregar e conseguem.
5. Esse gosto começou muito antes do século XIX e há muito atingiu o tédio de tentar ser engraçado e falhar, sendo a Nymphidia de Drayton, enquanto história sobre fadas, uma das piores já escritas, pois em meio à graciosidade de palácios de pernas de aranha, janelas de olhos de gato e telhados de asas de morcego, de um cavaleiro montado numa lacraia e de encontros marcados numa flor, narra apenas uma intriga enfadonha resolvida com um gole das águas do Letes, que melhor teria engolido tudo, ao passo que a história do bem e do mal na corte de Artur, cujos personagens nada têm de diminutos, é muito mais um conto de fadas que esse relato de Oberon.
6. Fairy, como substantivo quase equivalente a elfo, é palavra relativamente moderna, pouco usada antes do período Tudor, e a primeira citação do dicionário, tirada de Gower, revela um duplo erro, pois o poeta não chamou de fada o jovem galante que, enfeitado e de olhar de falcão, procurava enfeitiçar as donzelas na igreja, mas disse que ele se mostrava como se viesse da Feéria, e esse jovem de sangue e osso mortais oferece imagem muito melhor dos habitantes da Terra dos Elfos do que a definição em que foi enquadrado, já que o verdadeiro povo da Feéria nem sempre aparenta o que é, veste o orgulho e a beleza que os homens desejariam para si e exerce parte de sua magia jogando com os desejos do corpo e do coração humanos, como a Rainha dos Elfos que arrebatou Tomás, o Rimador, aparecendo como dama de beleza encantadora, razão pela qual Spenser seguia a verdadeira tradição ao chamar de Elfos os cavaleiros de sua Feéria, mais próximos de Sir Guyon que de um Pigwiggen armado de ferrão de vespa.
7. Retornando dos elfos e fadas ao tema próprio, o sentido de histórias sobre fadas permanece estreito demais mesmo sem a ideia de pequenez, pois no uso normal os contos de fadas tratam não de fadas, mas da Feéria, o reino ou estado em que elas existem, que contém, além de elfos, anões, bruxas, trolls, gigantes e dragões, também os mares, o sol, a lua, o céu, a terra e tudo o que nela há, árvore e pássaro, água e pedra, vinho e pão, e os próprios homens mortais quando encantados.
8. Histórias centradas propriamente em fadas ou elfos são raras e em geral pouco interessantes, pois os bons contos de fadas narram as aventuras de homens no Reino Perigoso ou em suas fronteiras sombrias, o que é natural, já que, se os elfos existem de fato, não se ocupam primordialmente dos homens nem estes deles, cujos destinos estão separados e cujos caminhos só se cruzam por acaso, mesmo nas bordas da Feéria.
9. A definição de conto de fadas depende, portanto, não da história de elfos ou fadas, mas da natureza da Feéria, o Reino Perigoso e o ar que nele sopra, algo indescritível embora não imperceptível, impossível de capturar numa rede de palavras e cujo segredo a análise de seus ingredientes não revela, bastando por ora dizer que conto de fadas é aquele que toca ou usa a Feéria, seja qual for seu propósito principal, sátira, aventura, moral ou fantasia, podendo a Feéria traduzir-se talvez por Magia, mas magia de humor e poder peculiares, no polo oposto aos artifícios vulgares do mago laborioso e científico, com a ressalva de que, havendo sátira, a própria magia jamais pode ser ridicularizada nem explicada, devendo ser levada a sério, como no medieval Sir Gawain e o Cavaleiro Verde.
10. Mesmo com esses limites vagos, fica claro que muitos, inclusive eruditos, usam o termo conto de fadas com descuido, pois as coletâneas recentes assim intituladas trazem poucas histórias sobre fadas, anões ou duendes, o que era de esperar, mas incluem também muitos contos que nem sequer tocam a Feéria e não têm razão alguma para estar ali.
11. Alguns exemplos das exclusões necessárias ajudam a definir o gênero pelo lado negativo e conduzem à segunda questão, a da origem dos contos de fadas.
12. Entre as numerosas coletâneas em língua inglesa, nenhuma rivaliza em popularidade, abrangência e mérito com os doze livros de doze cores devidos a Andrew Lang e sua esposa, cujo primeiro, o Livro Azul das Fadas, de 1889 e ainda em catálogo, contém em sua maioria histórias que passam no teste, embora nenhuma trate primordialmente de fadas e quase todas venham de fontes francesas, tamanha a influência de Perrault e do Cabinet des Fées, a ponto de quem for instado a citar um conto de fadas típico lembrar provavelmente do Gato de Botas, da Cinderela ou do Chapeuzinho Vermelho, ou, para alguns, dos contos de Grimm.
13. A Viagem a Lilipute não é conto de fadas e não tem lugar no Livro Azul, onde parece ter entrado apenas porque os liliputianos são pequenos, sendo excluída não por sua sátira, presente também em contos de fadas autênticos, mas por pertencer à classe dos relatos de viajantes, cujas maravilhas estão neste mundo mortal, ocultas só pela distância, como as de Munchausen, de Os Primeiros Homens na Lua ou de A Máquina do Tempo, embora elóis e morlocks, afastados num abismo de tempo tão fundo que os encanta, tenham melhor pretensão que os liliputianos, meros homens vistos com sarcasmo de cima dos telhados, mostrando-se aí por que as fronteiras do conto de fadas são inevitavelmente duvidosas, já que a magia da Feéria vale por suas operações, entre elas a satisfação de desejos humanos primordiais, como sondar as profundezas do espaço e do tempo e comungar com outros seres vivos, de modo que uma história que satisfaça tais desejos, com ou sem máquina ou magia, se aproxima do sabor do conto de fadas na medida de seu êxito.
14. Excluem-se também as histórias que recorrem ao maquinário do sonho para explicar suas maravilhas, ou ao menos condenam-se como gravemente defeituosas, como bom quadro em moldura desfigurante, pois, embora o sonho não seja alheio à Feéria e nele a mente possa por um momento exercer o poder de dar forma viva ao que concebe, o escritor desperto que apresenta seu relato como coisa apenas sonhada trai deliberadamente o desejo primordial da Feéria, a realização da maravilha imaginada independentemente da mente que a concebe, ao passo que as ilusões atribuídas às fadas ocorrem dentro de histórias em que elas mesmas não são ilusões e por trás da fantasia existem vontades e poderes reais.
15. É essencial ao conto de fadas genuíno apresentar-se como verdadeiro, e por lidar com maravilhas ele não tolera moldura ou maquinário que sugira ser tudo ficção ou ilusão, ainda que a história possa ser tão boa que se ignore a moldura ou funcione como divertida história de sonho, como as de Alice de Lewis Carroll, que, por essa e outras razões, não são contos de fadas.
16. Exclui-se ainda, não por desagrado, a fábula de animais pura, exemplificada por O Coração do Macaco, conto suaíli do Livro Lilás das Fadas, em que um tubarão perverso leva um macaco nas costas rumo a sua terra para curar um sultão com o coração dele, mas é ludibriado pelo macaco, que o convence a voltar dizendo ter deixado o coração em casa, pendurado num saco numa árvore.
17. A fábula de animais liga-se aos contos de fadas, nos quais bichos frequentemente falam como homens, em parte por força do desejo primordial de comunhão com outros seres vivos, mas como ramo separado pouco se refere a esse desejo, ao contrário da compreensão mágica das línguas próprias de aves, feras e árvores, muito mais próxima dos verdadeiros propósitos da Feéria, e quando nenhum humano intervém, quando os animais são os heróis e os homens meros acessórios, ou sobretudo quando a forma animal é só máscara de satírico ou pregador, tem-se fábula e não conto de fadas, como em Reynard, a Raposa, no Conto do Padre da Freira, em Brer Rabbit ou nos Três Porquinhos, ficando as histórias de Beatrix Potter perto das fronteiras da Feéria mas em geral fora delas, próximas sobretudo pela forte moralidade inerente, e Pedro Coelho, apesar da proibição que contém, continua sendo fábula.
18. O Coração do Macaco é claramente mera fábula, incluída num livro de fadas provavelmente porque o detalhe do coração deixado num saco interessava ao folclorista Lang, mesmo usado ali como piada, pois ecoa a antiga e difundida noção, presente em verdadeiros contos de fadas, de que a vida ou a força de um ser pode residir em outro lugar ou objeto, ou numa parte destacável do corpo escondida num saco, sob uma pedra ou num ovo, ideia que vai de O Coração do Gigante, de George MacDonald, até o antiquíssimo Conto dos Dois Irmãos do papiro egípcio D'Orsigny, em que o irmão mais novo encanta o próprio coração e o deposita no alto do cedro, pedindo ao mais velho que, quando a árvore for derrubada, o procure ainda que por sete anos e o ponha em água fria para que ele reviva.
19. Esse ponto e tais comparações levam à segunda questão, a das origens dos contos de fadas, que só pode significar a origem dos elementos feéricos, já que perguntar pela origem das histórias em geral equivale a perguntar pela origem da linguagem e da mente.
