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4 Dicção poética

FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).

4. Dicção poética e luz fragmentada

1. A mitologia conserva, como um vestígio persistente, a unidade concreta de significados que deixou de ser diretamente apreendida.

2. O Mundo Secundário de Tolkien e as forças que o sustentam são constituídos por palavras, às quais sua sensibilidade respondia de maneira musical, intuitiva e intelectual, num contexto histórico marcado por intensa investigação filológica e mitológica.

3. O século de estudos folclóricos iniciado com a coletânea dos irmãos Grimm e encerrado pela Primeira Guerra Mundial foi marcado pela busca de identidades nacionais mediante línguas, lendas e mitos, oferecendo o contexto da ambição de Tolkien de criar uma mitologia dedicada à Inglaterra.

4. Os primeiros poemas e as línguas inventadas acompanharam Tolkien durante a guerra e, após seu retorno à vida civil, desenvolveram-se paralelamente ao trabalho no futuro Dicionário Oxford e à construção de sua mitologia.

5. Uma nova geração de estudiosos procurou explicar os elementos violentos e perturbadores das narrativas tradicionais por meio da filologia, da mitologia comparada e da antropologia, cujas controvérsias produziram uma compreensão mais complexa das culturas antigas.

6. As investigações de Owen Barfield e Ernst Cassirer aprofundaram as relações entre mito e linguagem de maneira particularmente próxima aos interesses de Tolkien, embora a influência de Barfield pareça ter sido mais direta.

7. A concepção de Barfield sobre a antiga unidade semântica modificou profundamente a perspectiva de Tolkien e passou a impedi-lo de repetir explicações linguísticas que, depois dessa descoberta, já não considerava adequadas.

8. A teoria apresentada em Dicção poética oferece uma explicação aparentemente simples, mas filosoficamente abrangente, capaz de transformar a compreensão das palavras e esclarecer seu emprego na criação mitológica de Tolkien.

9. A atividade profissional de Barfield como advogado coexistiu com uma vocação filológica, mitológica e sobretudo filosófica, centrada no desenvolvimento da consciência e sustentada pelo conhecimento da linguagem e dos mitos.

10. A amizade e os debates de Barfield com C. S. Lewis opuseram o racionalismo agnóstico deste ao interesse daquele por Rudolf Steiner, favorecendo uma concepção do universo como realidade dotada de sentido e acessível tanto à imaginação quanto à razão.

11. A leitura de Steiner levou Barfield à antroposofia, cuja complexidade tornou difícil até mesmo sua apresentação aos Inklings, embora seus princípios sejam necessários para compreender o desenvolvimento de seu pensamento.

12. A antroposofia concebe a evolução universal como um processo de desenvolvimento da consciência humana, no qual a crescente percepção da individualidade exige uma separação progressiva do mundo, destinada finalmente a ser superada por uma consciência plena da união com Deus e com o universo.

13. Apesar das dificuldades de compreensão da antroposofia e da participação esporádica de Barfield nos encontros dos Inklings, os interesses comuns pelo cristianismo, pela linguagem, pela literatura e pelo mito favoreceram importantes afinidades com Tolkien.

14. A proximidade entre Barfield e Tolkien manifesta-se especialmente no interesse pela história da linguagem e na compreensão do poeta como criador de mundos, aspecto em que Barfield reconhecia maior afinidade com Tolkien do que com Lewis.

15. Dicção poética desenvolveu-se a partir de um estudo sobre as transformações da palavra ruína e ampliou sua investigação até abranger o significado em geral e as relações entre percepção, palavra e conceito.

16. A investigação de Barfield ultrapassa uma teoria da expressão poética e se torna uma teoria da poesia e do conhecimento, cujas partes interdependentes esclarecem a evolução da percepção e da linguagem e sua importância para a criação de Tolkien.

17. Mito, linguagem e percepção constituem uma unidade originária na qual as palavras exprimem diretamente a participação humana nos fenômenos, sem a distinção moderna entre sentido literal e metafórico.

18. A separação entre concreto e abstrato corresponde a uma etapa posterior da consciência, que fragmenta a experiência primordial do cosmos e exige múltiplas palavras para expressar aquilo que anteriormente era apreendido como um significado unitário.

19. Os termos pneuma e spiritus exemplificam uma antiga unidade na qual vento, sopro e espírito não constituíam fenômenos separados, enquanto suas traduções posteriores distribuem por palavras distintas um sentido que já não pode ser integralmente recuperado.

20. A unidade originária não deve ser entendida como simples reunião dos significados atuais, mas como um sentido próprio anterior à sua diferenciação, posteriormente cristalizado em conceitos separados durante a evolução da consciência.

21. O logos do Evangelho de João reunia palavra, discurso, razão, princípio organizador e harmonia cósmica numa mesma apreensão, de modo que sua tradução por um único termo moderno fragmenta necessariamente a integridade original.

22. As palavras funcionam como indicadores e instrumentos do desenvolvimento da consciência, num processo recíproco em que a diferenciação das percepções amplia o vocabulário e as novas palavras, por sua vez, produzem distinções perceptivas adicionais.

23. A aceitação dessa teoria permite compreender as palavras como fragmentos do Logos e elementos constitutivos da relação com o mundo, restringindo interpretações linguísticas inadequadas e abrindo novas possibilidades de reconstrução imaginativa, como no estudo Sigelwara Land.

24. A proximidade entre pesquisa linguística e criação literária torna sua influência recíproca inevitável e fecunda, pois a imaginação auxilia a compreensão de culturas antigas e a erudição fornece fundamento à invenção de povos e línguas.

25. A influência de Barfield aparece na reflexão de Tolkien sobre o poder da linguagem de modificar a percepção e criar mundos fantásticos, enquanto O Silmarillion concretiza processos de desenvolvimento e fragmentação linguística semelhantes aos descritos pela teoria da unidade semântica.

26. A mitologia de Tolkien cresceu e se aprofundou durante mais de cinco décadas em interação com seus estudos e experiências, sendo plausível que o contato com Barfield tenha reforçado sua criação mítica e ampliado a dimensão filosófica das línguas inventadas.

27. A reflexão linguística de Sobre contos de fadas acompanha a integração inicial de O Senhor dos Anéis ao universo mitológico anterior, reconhecendo na linguagem tanto o instrumento principal da subcriação quanto um componente essencial do mundo criado.

28. A mitologia e a reflexão crítica iluminam-se reciprocamente, pois a luz central à narrativa também exprime o processo criador, enquanto enredo e temas concretizam concepções sobre a natureza e o desenvolvimento da linguagem e sobre a função do escritor de fantasia.

29. A subcriação constitui uma vocação elevada de imitação do Criador, na qual as palavras, relacionadas ao Logos, não servem apenas para descrever acontecimentos, mas para dar realidade ao mundo imaginado.

30. O poder criador das palavras fundamenta-se na origem conjunta da mente encarnada, da linguagem e da narrativa, cuja relação permite compreender a transformação da percepção em criação fantástica.

31. A capacidade de distinguir uma qualidade do objeto que a apresenta, como o verde da relva, confere ao adjetivo uma potência comparável à dos encantamentos, pois possibilita separar e recombinar propriedades dentro de uma gramática mítica.

32. A explicação conceitual desse poder linguístico encontra sua demonstração na passagem da abstração das qualidades à produção imaginativa de novas formas.

33. A mente que distingue peso, cor, repouso e velocidade também pode imaginar sua transformação, tornando leves os corpos pesados e recombinando qualidades de maneira extraordinária, processo pelo qual começa o encantamento e o ser humano se torna subcriador.

34. O entusiasmo de Tolkien pelo poder das palavras comunica à própria exposição uma vitalidade que torna sensível e inteligível a experiência da criação imaginativa.

35. A retomada dessa concepção em versos de Mitopoeia amplia sua formulação em prosa e responde à redução dos mitos a fantasias mentirosas, reafirmando e aprofundando o significado da subcriação.

36. Embora afastada de sua condição original e privada da graça, a humanidade conserva sua dignidade e seu direito de criar, refratando a luz branca em inúmeras cores e formas vivas mediante a mesma lei em que recebeu sua existência.

37. A condição humana decaída não elimina sua capacidade criadora, e a aproximação entre o poema e o ensaio sobre Beowulf desloca a dignidade do combate destinado à derrota para a criação realizada por quem permanece filho de Deus.

38. O direito de subcriar decorre da participação humana na lei criadora, compreendida como Palavra e Logos, cuja unidade foi fragmentada pela Queda e pela divisão da percepção, mas ainda permite formar mundos mediante a oposição entre luz e escuridão.

39. A imagem da luz branca refratada pela mente humana transforma a subcriação numa divisão e recombinação da luminosidade primordial, ampliando a concepção anteriormente expressa pela combinação de palavras e pelo poder dos adjetivos.

40. A passagem da palavra à luz parece introduzir uma metáfora, mas recupera uma literalidade mítica anterior à separação dos significados, reafirmando a proximidade de Tolkien com a teoria de Barfield.

41. Palavra e luz tornam possível a percepção e orientam a maneira de apreender os fenômenos, de modo que a linguagem da iluminação intelectual conserva, para Tolkien, uma realidade viva na qual a Palavra é efetivamente luz e esclarecimento.

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