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VOCABULÁRIO DO SER

Livre des Pénétrations Métaphysiques

Prefácio

Devemos considerar que, por meio de sua metafísica do ser — que confere de pleno direito a primazia ao ato de existir —, Mollâ Sadrâ opera uma revolução que destronou a venerável metafísica da essência, cujo reinado se prolongava há séculos, desde Fârâbî, Avicena e Sohravardî. Embora não seja impossível detectar anteriormente os indícios precursores, esse ato revolucionário tem, em Mollâ Sadrâ, sua própria virtude, pois determina toda a estrutura de sua doutrina: a precedência do ato de existir sobre a quiddidade condiciona a noção de existência (wojud) como presença (hodûr, hozur); esta se expressa na gnoseologia como a unificação do sujeito da percepção (em seus três graus: sensível, imaginativo, intelectivo) com o objeto da percepção; no pensador xiita, ela permite um aprofundamento da imamologia que revela tudo o que implica a qualificação dos Imames como Testemunhas de Deus (ser testemunha, estar presente); finalmente, conduz a uma metafísica do Espírito, do Espírito Santo criador, onde o sentido primordial do ser se revela não como o ser substantivo (o existente), nem como o ser no infinitivo (o ato de ser), mas como o ser no imperativo (KN, esto!).

(…) Mas nossa tarefa imediata, para preservar seu pensamento ao traduzi-lo para o francês, consistia em evitar, em primeiro lugar, uma dupla armadilha: evitar que o significado da palavra ser como verbo (latim esse) pudesse ser confundido com o da palavra ser como substantivo (quando dizemos um ser, seres, latim ens). E era preciso evitar que o significado do verbo ser fosse entendido de outra forma que não a de existir (ou seja, confundido com o verbo ser copulativo). Toda a luta que Mollâ Sadrâ conduz durante os dois primeiros terços do livro é dirigida contra a quimera de um ser, do ser de uma essência, que não existiria. Kant afirmava que “seja o que for que contenha nosso conceito de um objeto, somos sempre obrigados a sair dele para atribuir-lhe a existência”. Se Mollâ Sadrâ tivesse conhecido essa afirmação, teria observado que isso não poderia ser o caso do conceito do próprio ser, a menos que tivéssemos primeiro saído do ser, ou seja, do existir. É ao existir que um ser é o que é, ou seja, é sua própria essência. O que repugna a Mollâ Sadrâ é a ideia de um ser ao qual seria necessário que o ser se acrescentasse acidentalmente, para que ele existisse. O que existe in concreto é uma quiddidade existente nos indivíduos (in singularibus). A distinção que separa o ato de ser de um ser e aquilo que esse ser é ao ser, ou seja, sua essência, é uma simples abstração operada pela mente. Para que não haja confusão possível, repetimos com frequência a tradução da palavra wojûd, dizendo: o ato de ser, a existência (ou o existir).

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