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ALQUIMIA

HCAAH

L'ALCHIMIE COMME ART HIÉRATIQUE

A obra reúne três estudos de Henry Corbin sobre a alquimia islâmica, apresentados como traduções comentadas de textos breves porém decisivos, que abordam o papel do Grande Obra na pesquisa espiritual muçulmana.

  • O primeiro texto é o comentário do esoterista Aydamor Jaldaki (século XIV) sobre uma declaração do Imã Ali ibn Abi Talib acerca da alquimia, traçando o paralelo entre o papel da profecia e o da alquimia.
  • O segundo texto é o comentário de Jaldaki sobre um tratado de Apolônio de Tiana (Balinas) acerca do simbolismo da Obra alquímica.
  • O terceiro texto é a apresentação e tradução comentada do Livro do Glorioso (Kitab al-Majid) de Jabir ibn Hayyan, dedicado à definição do papel metafísico do alquimista muçulmano, publicado originalmente no décimo oitavo Eranos-Jahrbuch em 1950.

INTRODUCTION

A alquimia islâmica se constituiu a partir de um encontro precoce dos sábios muçulmanos com as tradições herméticas encontradas no Egito, na Síria e na Mesopotâmia durante as conquistas, sendo percebida como portadora de uma Sabedoria que ultrapassa em muito o interesse material das manipulações de laboratório.

  • Jabir ibn Hayyan afirmou que o princípio “o que está em cima é como o que está embaixo” é o mais claro e útil em alquimia.
  • Essa ciência das correspondências universais não foi acolhida como simples teoria explicativa, mas como a constatação de um fato totalmente real, organicamente presente em cada coisa, agindo em todo lugar e a cada instante.
  • Henry Corbin, na lição de 12 de março de 1973, afirmou: “Temos aqui uma mineralogia, uma cristalografia, uma botânica, uma zoologia cujos 'objetos' devem ser utilizados e estudados como espelhos. Os seres dos três reinos são espelhos onde se tornam visíveis as constelações do mundo superior. Inútil quebrar o espelho para ver o que há dentro.”

O trabalho material do Grande Obra é uma realidade essencial nas especulações alquímicas, mas a orientação mental do operador desempenha papel decisivo, distinguindo a simples espagiria da verdadeira alquimia.

  • Henry Corbin, na lição de 26 de fevereiro de 1973, afirmou: “As manipulações materiais não estão em causa: elas ocorriam. Os alquimistas também as executavam. Mas toda a diferença estava em que eles compreendiam o sentido esotérico, batin. O alquimista opera — medita — sobre todos os metais como o hermeneuta praticando a exegese simbólica, o ta'wil do texto.”

As doutrinas e práticas alquímicas não estabelecem separação de natureza entre “matéria” e “espírito”, uma vez que o Fogo — o Elemento mais volátil e espiritual — está destinado a tomar corpo, e que a Terra deve progressivamente tornar-se espiritual.

  • Shaykh Ahmad Ahsai escreveu: “Os espíritos são luz-ser em estado fluido, enquanto os corpos são luz-ser em estado solidificado. A diferença entre os dois é como a diferença entre a água e a neve.”
  • O trabalho alquímico busca reconduzir o real manifesto à unidade axial que lhe é própria.

O alquimista participa de todo o seu ser na Obra que empreendeu, chegando a compreender e guiar a si mesmo no curso das fases não de forma puramente cerebral e indutiva, mas deixando todo o seu ser entrar em ressonância com as “imagens” do “espelho” que se torna a transformação da matéria na cucurbita.

  • Henry Corbin, na lição de 4 de junho de 1973, afirmou: “Daí a importância da imaginação como faculdade espiritual independente do organismo, pois é a imaginação verdadeira que faz o elo entre a operação alquímica e a transmutação interior. Mas a operação é necessária.”

O Grande Obra opera sobre uma substância única, a “matéria prima”, tratada de forma a atingir progressivamente um estado de pureza e equilíbrio perfeito entre seus Elementos, tornando-se a Pedra Filosofal capaz de transmutar metais comuns em prata e ouro.

  • As operações incluem destilação fracionada que isola três substâncias identificadas aos Elementos Água, Fogo e Ar, sendo o depósito no fundo da cucurbita correspondente ao quarto Elemento, a Terra.
  • Cada Elemento é purificado por múltiplas triturações, lavagens e destilações, seguindo-se a “primeira composição” ou “união nupcial” reunindo o Fogo e a Água, depois o Ar e a Terra.
  • O resultado final é um composto estável, de cor vermelho vivo e consistência de cera — a Pedra Filosofal — cuja obtenção corresponde também, para o esoterista, à aquisição do Corpo de Ressurreição.

As operações alquímicas obedecem a um sistema de proporções chamado “Balança” (mizan), noção que, em Jabir, rege os diferentes domínios do cosmos, desde os universais até a gramática e a música.

  • Jabir definiu e quantificou as relações entre as quatro Qualidades Elementares — Calor, Frio, Secura, Umidade — segundo um sistema de quatro classes com sete subdivisões cada.
  • Jabir afirmou ter recolhido os princípios das Balanças junto aos “Sábios” Sócrates e Apolônio.
  • A alquimia quantitativa de Jabir está organicamente ligada a uma metafísica de tipo emanatista, descrita em detalhe em seu Livro da Morfologia.

Cada substância possui, além de uma intensidade aparente e exterior de suas Qualidades Elementares, uma intensidade oculta e interior que é o inverso da primeira, de modo que todo o trabalho alquímico consiste em instaurar um equilíbrio harmonioso levando em conta simultaneamente as intensidades interiores e exteriores.

  • Henry Corbin destacou: “A Balança tende a descobrir o equilíbrio entre o aparente e o oculto. Ela permite ocultar o aparente e fazer aparecer o oculto (operação de ta'wil). Cada vestígio, cada assinatura que se descobre em um ser exige um contrapeso ou contrapartida do que imprimiu o vestígio. Esse equilíbrio chegará até a descoberta da Natureza Perfeita, do Homem interior.”

Os alquimistas árabes, e Jabir em particular, recorreram à Balança das letras — forma sistematizada da “ciência das letras”, equivalente muçulmano da cabala hebraica — para expressar os dinâmicos e bidimensionais rapports presentes em cada fenômeno.

  • Um sistema distribui os vinte e oito caracteres do alfabeto árabe em quatro grupos de sete, correspondentes às quatro Qualidades Elementares e seus sete graus de intensidade.
  • Outro sistema divide o alfabeto em quatorze letras “luminosas” — as letras místicas colocadas em exergo de várias suras do Alcorão — e quatorze letras “tenebrosas”, marcando a relação de uma entidade ou substância com os mundos superiores.

A questão da datação precisa da literatura alquímica de língua árabe é relevante para a interpretação dos textos estudados, pois os ensinamentos atribuídos ao Imã Ali, as especulações do Livro do Glorioso e a tradução do texto de Apolônio adquirem peso diferente conforme sejam considerados apócrifos tardios ou depósitos de uma tradição antiga e original.

  • Historiadores medievais de língua árabe relatam que o príncipe omíada Khalid ibn Yazid (falecido em 704) teria mandado traduzir tratados alquímicos para o árabe ainda no primeiro século da Hégira.
  • O erudito alemão Julius Ruska colocou em dúvida a autenticidade dos relatos sobre as atividades alquímicas de Khalid ibn Yazid e de Jafar al-Sadiq.
  • Paul Kraus, em obra de impressionante erudição, concluiu que o corpus atribuído a Jabir teria sido redigido muito mais tarde do que afirmava a tradição, entre o fim do século IX e meados do século X, sendo obra de toda uma escola progressivamente influenciada pelas doutrinas helênicas e pelo ultra-xiismo ismaelita.

Henry Corbin recusou ou nuançou as conclusões de Kraus em vários pontos, argumentando que a historicidade do personagem de Jabir ibn Hayyan, discípulo do Imã Jafar, pode ser admitida, assim como a originalidade de sua obra.

  • Datar o corpus jabiriano do século IX ou X por conter referências ao ultra-xiismo equivale a inverter os termos da questão, pois o ismaelismo já era um movimento maduro e estruturado antes de se manifestar abertamente em 270 da Hégira (883 d.C.).
  • Nada permite excluir que traduções para o árabe de textos gregos tenham ocorrido antes das iniciativas do califa al-Mamum (813—833), como atestam relatos sobre traduções de textos alquímicos de Zósimo e de Apolônio-Balinas já na época omíada.
  • Henry Corbin concluiu que o florescimento de uma alquimia muçulmana, em continuidade direta com a tradição sírio-egípcia de língua grega, pode ter ocorrido em meios xiitas na Síria, no Iraque e no Irã em data recuada.

Pesquisas recentes sobre os manuscritos e a análise lexical da coleção jabiriana dos Setenta isolaram várias “camadas” de redação dos tratados, sugerindo que o corpus não é formado de tratados antigos aos quais foram progressivamente acrescentados outros, mas de textos originais ampliados em fases sucessivas de comentários e glosas.

  • Um passo antigo do Livro da Divindade — primeiro tratado da coleção dos Setenta — indica que a matéria prima deve ser recolhida na primavera, quando o sol entra em Áries, no décimo sétimo dia do mês de Rabi al-Akhar; calculando-se a coincidência desse mês lunar com a entrada do sol em Áries, obtém-se a data de 153 da Hégira (770 d.C.), o que concorda com os dados tradicionais sobre a biografia de Jabir.
  • O Livro do Glorioso sugere que o alquimista Jabir é muito mais do que o personagem histórico designado por esse nome, e que um escrito pode ser autenticamente jabiriano mesmo que tenha sido composto em parte ou totalmente no século IX ou X.
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