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DEFINIÇÃO DO EU

NĀṢER-E KHOSROW; GASTINES, Isabelle de. Le livre réunissant les deux sagesses. Paris: Fayard, 1990.

Dísticos 33-36:

Todos se atribuem o “eu”; mas a que se refere esse eu? Fala! Não coce a barba!

É o corpo, a alma, a inteligência ou o espírito que é o “eu”? É um conjunto, como o homem e o cavalo que formam um cavaleiro?

Erra quem pensa assim. Quantos cavaleiros que nem sabem amarrar as calças!

Muitas são as pessoas que se avaliam como um homem e que, na balança, não pesariam nem um grama!

DA DEFINIÇÃO DO “EU” (MOI) SEGUNDO AS DIVERGÊNCIAS DOS SÁBIOS

  • Os sábios divergem quanto à egotidade (égoïté) do animal, particularmente do homem. Para alguns, o ser humano é a alma falante; para outros, que definem o homem como vivente-falante-mortal, o ser humano é a alma e o corpo tomados em conjunto.
  • O argumento para a definição que inclui o corpo é que, se o corpo não fosse considerado como parte do homem, não se poderia dizer que o homem é mortal, pois é pela separação da alma d’com o corpo que o corpo perece.
  • Para os filósofos que defendem o composto, quem fala do “eu” entende por esse termo o conjunto composto do corpo e da alma, mesmo quando se refere a partes como “meu lado, minha alma, minha mão, meu pé, minha cabeça”, evocando assim seu ser inteiro.
  • A analogia utilizada é a do cavaleiro: assim como é preciso um homem e um cavalo (e não um cavalo sem homem) para fazer um cavaleiro, da mesma forma é preciso um corpo e uma alma (e não uma alma sem corpo) para fazer um homem.
  • Embora definam o homem como o conjunto do corpo e da alma, é à alma que esses filósofos atribuem a perenidade e o retorno ao mundo superior, afirmando que “o céu é o lugar das almas dos filósofos” e que “as almas dos sábios retornam à Alma universal (Anima mundi), porque esta é o senhor da alma”.
  • Os Sábios teosóficos (Mota’allahân) dizem: “Pela gnose e pela sabedoria, nos tornamos semelhantes a Deus”, denominando-se “deificados” (Khodâ sha vendah). Aristóteles, no dia de sua morte, tendo uma maçã na mão, disse: “Remeto minha alma ao senhor das almas dos filósofos”, e a maçã caiu de sua mão.
  • A tese de que a egotidade e a realidade humana pertencem ao composto do corpo e da alma é considerada justa e sem necessidade de refutação, apoiando-se no versículo “Maomé não é senão um profeta; profetas viveram antes dele. Retornaríeis sobre vossos passos, se ele morresse ou fosse morto?” (III/144) e na tradição em que o Profeta jura “Por aquele entre as mãos de quem está depositada a alma de Maomé”.

A ALMA COMO SUBSTÂNCIA INTELECTIVA QUE REGE O CORPO E À QUAL PERTENCE O “EU”

  • Para os Ahl-e ta’yid (Assistidos pela Inspiração divina), a prova da existência da substância intelectiva da qual depende a egotidade do homem é que existe no composto humano uma coisa que faz o homem falar, que põe em ação a língua e os lábios para ensinar e aprender, coisa que não se encontra em nenhuma outra espécie animal.
  • Essa coisa é diferente do corpo, pois o corpo resulta de elementos nos quais não há palavra nem conhecimento, enquanto ela provém de outro lugar, conforme o versículo: “O homem não viu que o criamos de uma gota de esperma? E eis que discute abertamente!” (XXXVI/77), ou seja, a linguagem e os diferentes atos não estão na semente.
  • Ver, ouvir e falar são provas da presença no corpo de uma coisa da qual dependem, por intermédio dos órgãos-instrumentos, os atos. Visto que todo ato deliberado e toda palavra sensata provêm apenas do homem, deduz-se que há no ser humano um espírito próprio que rege o “eu” de cada um, o qual não existe nos outros animais.
  • É essa coisa que conduz o corpo em direção ao objetivo da busca; ela é diferente do corpo, comanda o corpo, e o corpo só se move por sua ordem. Quando essa coisa deixa o corpo, mesmo que o corpo permaneça com seus órgãos, nenhum ato emana mais.
  • Essa coisa é chamada de “alma”. É ela que detém o conhecimento do bem e do mal, e dela procedem os atos, conforme o versículo: “Por uma alma! Como ele a modelou bem, inspirando-lhe a libertinagem e a piedade!” (XCI/7-8).
  • A língua fala por ordem da alma, que a põe em movimento para emitir as palavras, e a língua é anexada à alma, como Deus diz ao Seu Enviado: “Não movas tua língua ao ler o Alcorão, como se quisesses apressar a revelação.” (LXXV/16).
  • Deus diz: “Eis o castigo pelo que vossas mãos realizaram.” (XXII/10), e “Nesse Dia, poremos um selo sobre suas bocas, mas suas mãos nos falarão e seus pés testemunharão o que realizaram.” (XXXVI/65), atestando que o homem é diferente de seus órgãos, que os órgãos são servos e instrumentos, e que o agente do ato é a alma.
  • Ainda que as pessoas da massa acreditem que o homem é o corpo material pesado e visível, sua inteligência instintiva sabe que o homem é alma: prova disso é a dor e a nostalgia de quem perde um ser querido, vendo o corpo intacto presente mas sabendo que o ser amado não é aquele corpo que jaz ali, pois esse ser partiu.
  • Conclui-se que o “eu” pertence à alma, e o corpo é para a alma um servo e um auxiliar. O corpo está para a alma como o cavalo está para o cavaleiro: o cavalo é o bem do cavaleiro, para e anda por sua ordem, e toda ação realizada pelo cavalo se origina no cavaleiro.
  • O corpo foi dado à alma para permitir ao homem adquirir o conhecimento, praticar a devoção e atingir o repouso eterno.
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