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FIGURA, PARTICULARIDADE, MODO DE SER E DEFINIÇÃO
NĀṢER-E KHOSROW; GASTINES, Isabelle de. Le livre réunissant les deux sagesses. Paris: Fayard, 1990.
Dístico 32:
Sobre a figura, a particularidade, o modo de ser, a definição: o que sabes, o que ouviste? Diz! Sugere!
- As quatro questões (figura, particularidade, modo de ser e definição) pertencem todas à lógica, sendo termos adotados por Aristóteles, o mestre da lógica, e utilizados pelos iniciados nessa nobre arte.
- O objetivo das perguntas é expor o saber em matéria de lógica, pois esta ciência é a ferramenta mais segura na aproximação do conhecimento do tawhid (Unicidade divina).
- A figura (hay'at) é o que distingue um indivíduo de outro, especialmente no homem, pois, embora todos os homens se assemelhem formalmente, distinguem-se pelos diferentes aspectos que receberam.
- A diversidade das figuras decorre de uma grande sabedoria: se todos os homens fossem idênticos, muitas discórdias surgiriam; assim, o decreto de Deus onisciente fez com que os homens se distinguissem pela figura para que se conhecessem entre si, conforme o versículo: “Ó vós, os homens! Nós vos criamos de um macho e de uma fêmea. Nós vos constituímos em povos e em tribos para que vos conheçais entre vós.” (XLIX/13).
- A causa da diversidade entre os homens é que, no começo, há para a espécie uma forma primordial e para o indivíduo uma forma engendrada; para cada espécie houve, no início, um casal macho-fêmea, e a inteligência é obrigada a admitir esses casais originários isentos de nascimento.
- O casal primordial na origem da geração humana é formado por Adão e Eva, o que constitui um fundamento da religião de acordo com a definição lógica considerada absolutamente irrefutável.
- Para o sábio Empédocles, esse casal primordial é o “Homem universal”, permanente e imortal, em oposição ao homem engendrado cujas figuras variam.
- A particularidade (khâsséh) é um termo lógico que designa a coisa que distingue uma espécie das outras espécies do mesmo gênero, sendo a coisa própria a essa espécie.
- No homem, há dois tipos de particularidades: a que se aplica à espécie em seu conjunto e em todo tempo (como o riso, próprio da espécie humana entre o gênero animal); e a que se aplica à espécie em seu conjunto, mas não em todo tempo (como o branqueamento dos cabelos, que só se manifesta na velhice).
- O modo de ser (rasm) é um breve conjunto de palavras que, emitido a propósito de uma coisa, distingue essa coisa das outras, designando sua essência pelo acidente; é originado do gênero da coisa e de sua particularidade.
- A definição (hadd) é a enunciação que, emitida a propósito de uma coisa, delimita essa coisa sem que se possa acrescentar nem retirar nada, como um terreno separado de outros por uma barreira; para os lógicos, é a proposição à qual nada se pode acrescentar sem prejudicar o desafiado (mahdud) e da qual nada se pode retirar sem que essa falta mesma se acrescente ao desafiado.
- Exemplo de definição: o homem é um vivente-falante-mortal; acrescentar “que escreve” excluiria os que não sabem escrever, e retirar “falante” incluiria todos os animais entre os humanos.
AS SETE QUALIDADES LOUVÁVEIS DO HOMEM SÁBIO SEGUNDO OS AHL-E TA'YID (ASSISTIDOS PELA INSPIRAÇÃO DIVINA)
- O homem, para ser chamado de “sábio”, deve possuir sete qualidades louváveis: seu comportamento deve ser segundo a razão; sua arte deve ser sem defeito; suas palavras devem ser verdadeiras; suas disposições naturais devem ser boas; seu raciocínio deve ser justo; seus atos devem ser puros; seu conhecimento deve ser verdadeiro.
A DEFINIÇÃO COMO CAMINHO PARA O CONHECIMENTO VERDADEIRO DAS COISAS
- A verdadeira realidade das coisas só pode ser conhecida por sua definição exata, e o propósito nesta parte do livro é responder a Abū'l Haitham Jorjānī sobre “definição” e “modo de ser”.
- As coisas são de dois tipos: simples ou compostas. As coisas compostas só podem ser conhecidas uma vez determinados os elementos que as compõem; as coisas simples, uma vez determinadas, uma por uma, as qualidades que lhes são próprias.
- Exemplos de definições de coisas compostas: a argila é água misturada à terra; o animal é uma alma unida a um corpo.
- Exemplos de definições de coisas simples (originais, não compostas a partir de outras): a matéria é uma substância simples, apta a receber a forma; a forma é aquilo de que depende o ser da coisa; a substância é uma coisa cuja essência só depende de si mesma e que é apta a receber qualidades contrárias; a qualidade é um acidente que advém à substância sem lhe pertencer; a coisa é tudo o que pode ser conhecido e predicável; o ente (mawǰūd) é tudo o que é perceptível pelos cinco sentidos, concebível pela imaginação ou que pode ser deduzido de outra coisa; o ser é o que tem por nome hast; o nada é o que tem por nome nist.
- A eternidade é aquilo cujo não-ser é impossível; o advento é o que é produzido por outro; a causa é tudo o que é instrumento do ser de uma coisa outra (exemplo: o sol é a causa do dia); o causado é aquilo cujo ser depende de uma coisa outra.
- A ciência é o que se concebe da realidade verdadeira de uma coisa; o sábio é aquele que concebe uma coisa em sua verdade; o vivente é aquele por meio do qual atos são efetuados; o poderoso é aquele que, cada vez que quer, está em medida de agir; o ato é o efeito do agente sobre o objeto.
- Deus é aquele que é tudo, que é a causa de todos os entes, cujo ato é criar as coisas a partir do nada; Ele é o começo e o acabamento de toda coisa segundo a capacidade dessa coisa de atingir sua plenitude.
- A arte é dar forma à matéria; o artesão é aquele que atualiza a forma virtual e a aplica à matéria (exemplo: o carpinteiro faz surgir a forma virtual “assento” e a concretiza na madeira); a coisa fabricada é um composto de matéria e forma.
- A Inteligência agente é o Primeiro origem que Deus instaurou no ser pela Existenciação eterna (Ibda'), sendo uma substância simples e luminosa que contém as formas de todas as coisas.
- A alma é uma substância simples, espiritual e vivente por essência, conhecedora em potência, ativa por natureza, sendo uma das múltiplas formas da Inteligência agente.
- O gênero natural é um certo número de coisas cujas formas diferem mas estão todas incluídas na mesma noção (exemplo: camelo, galo e homem são seres viventes); a espécie natural é uma forma comum a muitos indivíduos; o indivíduo é uma entidade à parte reconhecível por um sinal.
- A distinção lógica é a palavra emitida a propósito de tudo o que difere da espécie, em resposta à questão dirigida pelo pronome interrogativo “qual” (exemplo: à pergunta “Qual animal?” responde-se “a ave”, distinguindo-a do conjunto dos animais).
- O acidente é uma qualidade que se relaciona a uma coisa, a qual, quando essa qualidade lhe é retirada, não se encontra por isso anulada (exemplo: a negrura dos cabelos é um acidente, pois quando os cabelos embranquecem, não perdem sua qualidade de cabelos).
- A luz é uma substância simples que se pode ver e pela qual se veem as coisas; a obscuridade é a ausência de luz; o dia é a presença do sol (o lado do universo que está ao sol); a noite é a sombra da terra; a esfera é um corpo que envolve o universo; o universo é aquilo que contém a esfera em seu meio; a estrela é um corpo luminoso, redondo, carregado de luz condensada.
- O fogo é um corpo em movência ao redor da terra; a terra é o mais estável dos corpos, situado no centro do universo; o tempo é o número dos movimentos da esfera (segundo os filósofos) ou a duração medida pelo movimento da esfera; o espaço é o que delimita a matéria.
- A calor é a condensação dos componentes da matéria; a secura é a elevação dos componentes da matéria; a umidade é um vapor de certa qualidade que se exala dos corpos minerais, vegetais e animais; a clameur é a expulsão do ar de entre dois corpos subitamente separados um do outro.
- Há seis tipos de movimentos: por geração (surgimento de uma coisa do nada ao ser); por corrupção (retorno de uma coisa do ser ao nada); por crescimento (afastamento da extremidade de uma coisa de seu centro); por diminuição (aproximação do que está afastado em direção ao centro); por transformação (passagem de um corpo de um lugar a outro); por deslocamento.
- O devir (kawn) é a forma nobre ou vil que a matéria recebe; a espuma é água misturada ao ar; o vapor é água misturada ao fogo; a fumaça é fogo misturado à terra; os minerais são coisas enterradas na terra (mercúrio e enxofre misturados aos quais se acrescenta argila); o vegetal é tudo o que surge da terra, é apto ao crescimento e é regido pela água; o animal é uma substância móvel, provida de aparelho sensorial e regida pelo ar.
- Os anjos são almas inteiramente virtude e bem, regidas pela natureza da esfera; os demônios são almas inteiramente perfídia e mal, regidas pelo fogo e pela terra.
- A Natureza é uma potência dentre as potências da alma, que age sobre os quatro elementos; o éter é ar quente sob a esfera da lua; o frio intenso é ar frio sob esse globo de éter; a nuvem é uma acumulação de vapores; a chuva é a água que, no vapor, estava misturada ao fogo e, uma vez resfriada, separa-se do fogo e cai sobre a terra; o relâmpago é um fogo sutil que se manifesta após a colisão de vapores fumegantes acumulados no ar; o trovão é o fragor desses vapores no ar que, ao se chocarem, fazem jorrar o fogo do relâmpago; a neve é a água que, antes de se separar, congela no ar e cai sobre a terra sob esse novo aspecto; o orvalho é a água que, separada do vapor, se resfria no ar antes de atingir a terra.
- As fontes são águas de neves ou de chuvas que, após se acumularem no topo das montanhas, descem ao fundo dos vales, caminham nas interstícios das pedras e saem a jusante; o terremoto ocorre quando certos vapores do fogo universal que envolve a terra se acumulam em lugares vazios na superfície da terra e, não podendo mais conter-se, fazem a terra tremer e o solo se fender, mas a terra nunca treme toda inteira, apenas no local onde o fenômeno se produz.
- A terra é uma substância dura marcada de orifícios e fendas grandes e pequenas; ela se mantém no meio do ar, por ordem de Deus Altíssimo; o centro do mundo é um ponto no meio da terra, sobre o qual todas as partes do mundo se apoiam.
- O bem é tudo o que responde ao imperativo da justa medida, do tempo impartido, do lugar propício, da razão necessária; o contrário é o mal. O lícito é tudo o que é costumeiro aos homens e que a Lei religiosa não interdita; o contrário é ilícito.
- A imaginação é uma das faculdades da alma sensorial que tem o poder de representar as coisas sensíveis; a reflexão é a faculdade da alma falante que tem o poder de distinguir as coisas que se assemelham.
- A fé é a adesão, pelo corpo e pelo coração, às palavras do interlocutor; o islam é a devoção fundada na esperança da recompensa do bem; a impiedade é a ocultação da verdade pela renúncia; o politeísmo é a afirmação da divindade de duas coisas; o pecado é a rejeição da devoção.
- A escatologia (ma'ad) é o retorno da alma particular à Alma universal; a recompensa é tudo o que a alma encontra em seu lugar de retorno após a separação do corpo em matéria de prazer, bem-estar e alegria; o castigo é tudo o que a alma encontra após a separação do corpo em matéria de nostalgia, dor, tormento e arrependimento.
- A palavra é todo vocábulo que conduz ao sentido; o vocábulo é o som que pode ser transcrito; a palavra verdadeira é aquela que qualifica uma coisa assim como essa coisa é; o contrário é mentira.
- A retidão e o desvio são, no plano da consciência, como o bem e o mal nos atos, o justo e o injusto nos decretos, o benéfico e o nefasto nas coisas sensíveis. A realidade verdadeira do mundo é a duração da estada da alma no corpo até a hora do falecimento; a morte é o abandono do corpo pela alma; o fim é a existência segunda após a morte do corpo; o paraíso é o mundo dos espíritos, a fonte dos prazeres; o inferno é a mina das dores e das penas; o despertar é a emergência da alma do sono da ignorância; a ressurreição é o levantar dos homens por ordem de Deus; o Dia do ajuntamento é o dia em que as almas particulares se ajuntarão diante da Alma universal; o Julgamento final é a recordação, pela Alma universal, às almas particulares de tudo o que fizeram, de bem e de mal, enquanto estavam nos corpos; a Via é o mais curto caminho para Deus.
A SABEDORIA COMO RETORNO CONTÍNUO A DEUS E AS CONSEQUÊNCIAS ESCATOLÓGICAS
- O homem sábio é aquele que atentamente olha para si mesmo e vê que, desde o dia em que era semente no ventre de sua mãe, não cessa de fazer retorno a Deus, elevando-se grau por grau de um estado fraco a um estado menos fraco, de um lugar baixo a um lugar menos baixo, até o instante em que se apresenta diante de Deus, que lhe pede contas.
- Se ele está entre os bons e obedientes, acede ao bem-estar e à alegria eterna; se está entre os malfeitores e rebeldes, seu quinhão é apenas pena, tormento e nostalgia sem fim.
- Depois da vinda dos Enviados e dos Livros, do anúncio do imperativo e do interdito, da promessa da recompensa e da ameaça do castigo, a ninguém será concedida desculpas, conforme o versículo: “Esse dia em que não falarão. Não se lhes permitirá apresentar desculpas.” (LXXVII/35-36).
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