ESTADOS ESPIRITUAIS
Em todas as épocas, uma parte importante dos tratados de sufismo versou sobre os estados espirituais que o adepto experimenta e atravessa em sua viagem pelo caminho (tarîqah) em direção a Al-lâh. A insistência dos mestres sufis nesse tema, seja sob a forma da enumeração das estações e dos estados do Caminho, seja sob a forma do inventário das virtudes espirituais que o discípulo deve adquirir, deve-se à importância do conhecimento dos estados espirituais para todo aquele que aspira a atravessá-los e ultrapassá-los em direção à Presença divina. Se se deixa de lado o conceito errôneo e truncado do homem como criatura formada apenas de corpo e mente, conceito que se deve mais que tudo ao dualismo cartesiano e a uma má compreensão de certos dogmas do escolasticismo, e se retorna à concepção tradicional do homem composto de corpo, alma e espírito (o corpus, anima e spiritus do hermetismo e de outras doutrinas sapienciais), a pertinência dos estados espirituais torna-se mais clara. O Espírito é como o céu, resplandecente e imutável sobre os horizontes da alma. Trata-se de um mundo que, embora ainda não seja Al-lâh, é inseparável d’Ele, de modo que alcançá-lo já é estar no átrio do Paraíso e na proximidade do divino. Também o corpo traz, em sua existência objetiva e natural, embora não necessariamente em seu prolongamento subjetivo na psique, os «vestígios do Criador» (vestigia Dei), de modo que pode ser considerado como o templo do Espírito e pode desempenhar um papel plenamente positivo no próprio processo de realização espiritual.
O que resta do homem, a saber, a alma ou anima, é precisamente a matéria do trabalho espiritual. Ela é o chumbo que deve ser transmutado em ouro, a lua que deve unir-se ao sol e, ao mesmo tempo, o dragão que deve ser morto para que o herói possa alcançar o tesouro. O homem em seu estado impenitente e «caído», para empregar a terminologia cristã, é o sujeito a quem se dirigem os tratados sobre disciplina espiritual. O homem nesse estado é justamente aquele que se identifica apenas com sua mente ou substância psíquica, sem perceber que esta não é senão um reflexo, no plano psíquico, do Intelecto. Identifica-se consigo mesmo enquanto alma que ainda não experimentou o contato libertador com o Espírito e vive encarcerado num mundo de impressões sensíveis provenientes do corpo, juntamente com as inferências lógicas extraídas desse mundo, e num labirinto subjetivo e obscuro repleto de impulsos passionais. O caminho espiritual nada mais é que o processo de desenredar as raízes da alma do mundo psicofísico ao qual estão presas e mergulhá-las no divino. Significa, portanto, uma transformação radical da alma, tornada possível pela graça da revelação e da iniciação, até que a alma se torne digna de converter-se em esposa do Espírito e celebrar com ele a união. Para alcançar Al-lâh, a alma deve tornar-se semelhante a Al-lâh. Daí a importância das estações e dos estados espirituais que a alma deve experimentar e das virtudes espirituais que deve adquirir, as quais assinalam os graus de ascensão da alma em direção a Al-lâh. De fato, cada virtude é uma estação pela qual a alma deve passar e que deve experimentar de modo permanente.
Se se recorda a bem conhecida definição de sufismo dada por Junayd — «o sufismo é que Al-lâh te faça morrer a ti mesmo e ressuscitar n’Ele» — compreende-se que a aquisição das virtudes espirituais e seus estados e estações correspondentes constituem outras tantas etapas na morte da alma em relação à sua natureza vil e acidental e em sua ressurreição in divinis. Essa é a razão pela qual a mais elevada das virtudes é a veracidade, que se opõe a todas as tendências obscuras da alma, e a estação mais alta é a subsistência em Al-lâh, que não é outra coisa senão a ressurreição n’Ele. A meta do sufismo é, evidentemente, chegar a Al-lâh, a Realidade (al-haqq), e não alcançar uma estação particular. Mas, dado que o homem não é apenas uma inteligência capaz de discernir a Verdade e conhecer o Absoluto, sendo também vontade, as virtudes são uma concomitância necessária da adesão total do homem à Realidade. Pois «a realidade, quando aparece no nível da vontade, torna-se virtude, e então é veracidade e sinceridade». Do mesmo modo, visto que a meta do sufismo é Al-lâh e não o mundo da ação nem qualquer benefício terreno, as virtudes não são apenas atos morais, mas também estados internos que jamais se separam da significação intelectual e espiritual que acompanha o mundo do espírito. «As verdades fazem compreender as virtudes e lhes conferem toda a sua plenitude cósmica e toda a sua eficácia espiritual. As virtudes, por sua vez, introduzem nas verdades e as transformam, para aquele que as vive, em realidades concretas, vistas e experimentadas».
