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mitologia:calasso:livro:3

3 Davi

CALASSO, Roberto. Il libro di tutti i libri (2019)

1. Ainda em luto por Saul, já despojado da realeza, Samuel foi impelido por Iahweh a encher de óleo seu chifre e ir a Belém, à casa de Jessé, entre cujos filhos o próprio Iahweh já escolhera um rei.

2. Depois de examinar cuidadosamente e recusar os sete filhos de Jessé, Samuel mandou chamar o mais novo, Davi, ruivo, de belos olhos e boa aparência, que pastoreava o rebanho menor, e Iahweh ordenou ungi-lo de imediato, numa eleição fulminante e sem razões declaradas, a partir da qual o espírito de Iahweh, até então desconhecido para Davi, desceu sobre ele para sempre.

3. Atormentado pelo espírito mau, Saul só desejava ouvir certa música e, ao ver o jovem pastor ruivo com sua lira, amou-o e fê-lo seu escudeiro, mas às vezes Davi lhe saía inteiramente da mente, próximo demais ou inexistente, a ponto de, quando Davi apareceu com a cabeça de Golias na mão, Saul perguntar-lhe de quem era filho, como se o visse pela primeira vez.

4. Abigail, sagaz e bela, era casada com Nabal, homem duro e fechado em seus rebanhos, a quem Davi, recordando seus tempos de pastor, enviou dez jovens para pedir hospitalidade na festa da tosquia, numa manobra amistosa e sutilmente ameaçadora de renovar o entendimento entre pastores, mas Nabal os insultou, tratando Davi como escravo fugido e recusando partilhar o que repetidamente chamava de seu.

5. Informada por um servo, Abigail compreendeu a iminência de um massacre e, sem nada dizer ao marido, carregou jumentos com pães, vinho, carneiros, grãos, passas e figos e partiu ao encontro de Davi, que já avançava com seus homens jurando não deixar vivo até a manhã seguinte nem um homem da casa de Nabal.

6. Ao encontrar Davi do outro lado de uma montanha, Abigail desceu precipitadamente do jumento, prostrou-se a seus pés e atribuiu a culpa a si e ao marido insensato, cujo nome significa tolo, e Davi, com a mesma rapidez, abandonou seu plano, abençoou suas palavras e a despediu em paz declarando ter honrado seu rosto.

7. Ao saber do ocorrido, Nabal teve o coração petrificado e morreu dez dias depois, e Davi mandou buscar Abigail para desposá-la, ela que se prostrou até o chão e partiu com cinco servas, tornando-se sua mulher junto com Aquinoam de Jezreel, enquanto Saul dava a Palti a primeira esposa de Davi, Micol.

8. Davi atingia as almas como atingira Golias com a funda, na fronte, como aconteceu com Saul, que se sentia aliviado do espírito mau ao ouvi-lo tocar, com Jônatas, que se ligou a sua alma e o amou como a si mesmo, e com Micol, que o amou, enquanto ele ainda se sentia pobre e desprezado.

9. Davi possuía o poder especial de fazer as pessoas caírem da sela, súbita e fatalmente apaixonadas, como se viu com a prudente Abigail, que caiu do jumento ao vê-lo, num sentimento imediato que ele reconheceu ao despedir-se dizendo ter honrado seu rosto.

10. A soberania régia chegou a Israel como necessidade turva dos tempos, e em Saul e Davi revelou algo sombrio, febril e obscuro, com consequências fatais mesmo quando tentavam obedecer a Iahweh, como no recenseamento ordenado por Iahweh em sua ira contra Israel, calamidade para tornar os judeus culpados, que Davi executou apesar das advertências de Joab, pois contar as pessoas as expõe como alvos às forças do mal e nenhuma contagem é completa, deixando escapar o que se torna perigo, como um dia escaparia a um recenseamento uma criança nascida onde Davi cresceu, e cuja abominação Davi reconheceu ao receber os números incorretos, pedindo em vão perdão por ter obedecido.

11. O vidente Gad trouxe a Davi a escolha entre sete anos de fome, três meses de derrotas ou três dias de peste, e Davi, preferindo cair nas mãos de Iahweh às dos homens, escolheu a peste, que matou setenta mil.

12. Davi viu então um Anjo descer do céu e cravar a espada em quatro de seus filhos e golpear Gad e os anciãos, e o detalhe que verdadeiramente revelou o horror foi o Anjo limpar a espada ensanguentada no manto de Davi, que desde então sentiu até a morte um arrepio nos ossos.

13. O recenseamento era um dos piores crimes, por razões ignoradas mas sob repulsa geral, inspirado segundo o segundo livro de Samuel por Iahweh e segundo as Crônicas por Satanás, sempre a partir de uma ira divina de causa não explicada, e Davi, culpado mas movido por um agente poderoso, pediu perdão como insensato, algo que jamais faria pelo assassinato de Urias ou pelo enforcamento dos filhos de Saul.

14. O crime do recenseamento é metafísico, pois consiste em pretender conhecer o que não deve ser conhecido, a medida da vida, assim como não se devia cultivar um campo até a borda, princípio tão básico que não podia ser mencionado e cujas consequências eram proporcionais à sua importância.

15. A premissa última do recenseamento, esclarecida no Êxodo, é o resgate, kofer, de meio siclo igual para ricos e pobres que cada recenseado devia pagar a Iahweh por sua vida, reafirmando que toda vida é uma dívida a resgatar, e por isso o censo aterrorizava, pois quem não pudesse pagar via a dívida transformar-se em castigo, lembrete cruel de que a vida é governada por rédeas nas mãos de um Outro que pode afrouxá-las ou apertá-las num laço.

16. Durante os sete anos e meio de reinado em Hebron, Davi teve seis filhos de seis mulheres, entre eles o de Abigail, mas não esqueceu Micol, a única mulher da Bíblia de quem se diz que amou um homem, conquistada com duzentos prepúcios e retirada por Saul, e exigiu-a de volta como condição para a aliança com Abner, sendo ela arrancada a Paltiel, que a seguiu chorando até ser mandado embora, e em Jerusalém Davi acrescentou concubinas e teve mais onze filhos, entre eles Salomão.

17. Davi viveu atormentado pela consciência de que, embora escolhido desde menino, protegido por Iahweh e destinado a gerar o Messias, jamais seria contado entre os patriarcas, separado deles por um abismo de tempo e densidade de vida, morrendo aos setenta anos como qualquer homem dos novos tempos, e de que Iahweh o impediu durante quarenta anos de construir o Templo, permitindo-lhe apenas prepará-lo para Salomão, que o ergueria em sete anos.

18. Quando Davi ousou perguntar a Iahweh a diferença entre ele e os patriarcas, ouviu que estes haviam sido postos à prova e ele não, e que sua prova seria uma mulher, quando ainda não conhecia Betsabé.

19. Os diálogos entre Davi e Iahweh podiam ser breves e rápidos, sobretudo nas decisões militares, como contra os filisteus no vale de Refaim, quando Iahweh garantiu a vitória e depois agiu como estrategista, ordenando um ataque de surpresa por trás das balsameiras.

20. Numa longa prece na tenda da Arca, Davi, como que convencendo a si mesmo, compreendeu que o favor de Iahweh não se limitava a um breve momento, mas se estendia ao futuro, e ousou pronunciar a palavra “para sempre” a respeito da bênção de sua casa, palavra até então impensável naqueles anos turbulentos.

21. Assim começou a tomar forma na mente de Davi a ideia do Messias, com o pressentimento de que o favor de Iahweh poderia ir além da proteção contra vizinhos hostis e abrir, para além do matagal, uma janela sobre algo deslumbrante e vasto, de fim invisível.

22. Num dia de primavera, ao levantar-se da sesta no terraço, Davi viu uma mulher belíssima banhando-se e, sabendo tratar-se de Betsabé, mulher de Urias, o hitita, mandou buscá-la, deitou-se com ela e logo soube que estava grávida.

23. Para atribuir a gravidez ao marido, Davi chamou Urias da guerra e insistiu repetidas vezes para que fosse dormir com a mulher, mas Urias, alegando solidariedade com seus soldados acampados, recusou-se a voltar para casa e dormiu com os servos do rei.

24. Davi entregou então a Urias uma carta selada para Joab ordenando colocá-lo na linha de frente e abandoná-lo para que morresse, e, cumprida a ordem, fingiu indignação, consolou Joab e, após os sete dias de luto de Betsabé, tomou-a por esposa, que lhe deu um filho, ato que desagradou a Iahweh.

25. Na genealogia do Messias, Mateus menciona em quarenta e duas gerações apenas três mulheres, Tamar, Rute e Raab, disfarçada de prostituta, moabita e prostituta, e alude sem nomear a uma quarta, Betsabé, “a de Urias”, como se a ascendência feminina do Messias exigisse a mais alta concentração de aventura, exotismo, erotismo e clandestinidade.

26. Anos depois, em tempos de corrupção, Iahweh lembrava Davi como servo justo e íntegro, fazendo os jovens imaginarem o reinado dele como governo de um rei firme e inflexível, quando na verdade Davi viveu atormentado por dúvidas, condenado a amar quem o queria morto, como Saul e Absalão, desprezado por Micol ou salvo por quem detestava, como Joab.

27. Por trás dos massacres, humilhações e traições, destacava-se com luz mais nítida na memória de Davi um único episódio, que o próprio Iahweh teve de mencionar ao afirmar que Davi sempre fizera o que era justo, acrescentando a exceção do caso de Urias, o hitita.

28. Sem que Iahweh falasse disso a Davi, o profeta Natã contou-lhe a história de um rico que, para não reduzir seus rebanhos, tomou a única ovelha de um pobre, criada como filha, para servi-la a um hóspede, e, quando Davi impetuosamente declarou que tal homem merecia a morte, Natã respondeu que aquele homem era ele, palavras cortantes que antecipavam as parábolas que Jesus contaria num futuro distante.

29. Davi compreendeu que seria condenado a muitas calamidades e ouviu Iahweh anunciar que lhe tomaria as mulheres para dá-las a um próximo que se deitaria com elas à luz do sol, sem revelar que esse próximo seria seu próprio filho, o belíssimo Absalão de cabelos selvagens.

30. O filho de Davi e Betsabé adoeceu logo após nascer, e Davi jejuou e dormiu no chão durante sete dias para salvá-lo, até perceber pelos sussurros dos servos que a criança morrera.

31. Contra a expectativa dos servos, Davi perfumou-se, prostrou-se na Casa de Iahweh e pediu de comer, explicando com palavras de escritor que jejuara para salvar o filho, mas agora que ele morrera não podia trazê-lo de volta, pois era ele quem iria ao filho e não o filho a ele, e depois consolou Betsabé, que lhe deu Salomão, amado por Iahweh e chamado também Jedidias.

32. Pouco antes de morrer, Davi compôs um canto que terminava com a lista dos trinta e sete valentes de Davi, alguns acompanhados de suas façanhas, outros apenas nomeados, sendo o último Urias, o hitita, que ele próprio mandara matar.

33. Durante os reinados de Saul e Davi a guerra foi constante, dentro e fora, como uma tempestade incessante em torno dos dois primeiros ungidos, homens de sangue carregados de culpa, e Davi foi impedido de construir o Templo por sucessivas violências, enquanto com Salomão, pela mesma vontade despótica, tudo se acalmou, os povos hostis desapareceram, o rei desposou até a filha do faraó e ergueu o Templo de cedro e pedras inteiras sem ruído de ferramentas de ferro.

34. Davi devia preparar o Templo sem construí-lo, como Moisés devia apontar a Terra Prometida sem pisá-la, e por anos acumulou em Jerusalém pedras, pregos, cedro e bronze sem medida, alegando a delicadeza de Salomão, mas confessou ao filho a verdadeira razão, a de ter derramado muito sangue, sem observar que o fizera em nome e por ordem de Iahweh, limitando-se a esperar e a enumerar com orgulho os talentos de ouro e prata que lhe deixaria.

35. A Arca era aterradora e seu transporte sempre arriscado, como mostrou a morte de Uza, fulminado por Iahweh por tocá-la para impedir que caísse, e, quando três meses depois Davi enfim a levou a Jerusalém dançando cingido apenas de um pano de linho, Micol o desprezou da janela e o recebeu com sarcasmo de princesa, ao que Davi respondeu ter-se despido diante de Iahweh, que o escolhera no lugar do pai dela, e declarou-se disposto a rebaixar-se até as servas, com quem teria mais filhos, ao passo que Micol não teve nenhum até a morte.

36. Davi tinha em Jerusalém uma casa de cedro enquanto a Arca permanecia numa tenda, mas Iahweh esclareceu a Natã que desde a saída do Egito sempre vivera numa tenda sem se queixar, pois o que importava era o tempo, que ainda não chegara, cabendo a um filho de Davi construir-lhe uma casa, primeira alusão a Salomão.

37. Os jebuseus de Jerusalém, descendentes de Het, afirmaram que seus antepassados haviam cedido a Abraão a caverna de Macpela com a condição de que seus descendentes jamais fossem forçados a deixar Jerusalém.

38. Recordando isso, Davi, depois de capturar Jerusalém de modo audaz e milagroso, quis fazer como Abraão e comprou toda a cidade por seiscentos siclos pagos por todas as tribos, recebendo dos jebuseus um recibo como prova de venda.

39. Jerusalém não é a pátria originária dos judeus, mas a cidade que eles compraram dos jebuseus, que, como os antigos donos da caverna de Macpela, pediram nunca ser expulsos dela, de modo que Jerusalém seria sempre uma sociedade mista em que proprietários passados e presentes viviam juntos.

40. Os quarenta anos de reinado foram para Davi gloriosos e dilacerantes, mais tormento que glória, com guerras incessantes contra os filisteus e filhos amados que eram todos conspiradores em potencial, sobretudo o belíssimo Absalão, diante de quem Davi, ao contrário de Saul, escolheu a humilhação suprema de deixar Jerusalém descalço e de cabeça coberta, numa trama que inclui o filho morto ligado ao ato mais desprezível de sua vida, a carta selada que condenou o leal Urias, e que forma a premissa de uma das mais fortes aberturas já escritas, a do primeiro livro dos Reis, sobre o rei velho que não conseguia aquecer-se apesar das roupas.

41. Cavalgando sozinho numa mula, Absalão ficou preso pelos espessos cabelos nos galhos de um carvalho majestoso enquanto a mula seguia em frente, e, pendurado, foi crivado de lanças e flechas pelos inimigos como um boneco de treino de tiro.

42. Ao saber da morte de Absalão, Davi, em vez do alívio esperado pelo fim de uma guerra sangrenta, chorou desejando ter morrido em seu lugar e olhou com ódio os que o haviam salvado, que se afastaram envergonhados, até que só Joab ousou dizer-lhe que, se Absalão estivesse vivo e todos eles mortos, aquele seria para ele um bom dia.

43. De volta a Jerusalém, Davi confinou na periferia as dez concubinas que deixara cuidando da casa e que Absalão tomara diante de todo Israel, sustentando-as sem jamais voltar a elas, de modo que viveram segregadas como viúvas até a morte.

44. Depois da morte de Saul, de seus sete filhos enforcados, de Absalão, de Samuel e de guerras tão semelhantes que se confundiam, Davi sentiu-se cansado, e num desses momentos desejou a água do poço junto à porta de Belém ocupada pelos filisteus, que três valentes anônimos foram buscar atravessando as linhas inimigas, mas que Davi recusou beber por equivaler ao sangue deles e derramou como libação a Iahweh, momento mais sublime e misterioso de seu reinado e revelação de uma sede ardente da água de sua juventude de pastor, a mesma “água viva” de que falaria um dia um descendente nascido em Belém.

45. Ao anunciar a todas as tribos que não construiria o Templo por ter derramado sangue demais e que a tarefa caberia a Salomão, Davi exortou o filho a conhecer e servir a Deus com coração perfeito e alma ardente, pois Iahweh sonda todos os corações, palavras que Salomão recordaria ao pedir a Iahweh um coração que compreende.

46. As últimas palavras de Davi a Salomão não foram brandas nem generosas, mas a ordem de matar Simei, a quem outrora poupara com a palavra dada, cuja maldição lançada com pedras e poeira ao longo da montanha durante a fuga diante de Absalão ainda ecoava em sua memória, ordenando ao filho fazer descer seus cabelos brancos ensanguentados ao Sheol, para que, com alguma inventividade, a vingança atingisse mesmo após o perdão, antes de morrer e ser sepultado na Cidade de Davi.

47. No fim da vida Davi sentia sempre frio, mesmo no calor, e, como os cobertores não o aqueciam, os servos buscaram em todo o reino uma jovem belíssima para dormir sobre seu peito, Abisag, a sunamita, que o serviu sem que o rei a conhecesse.

48. Entre os muitos filhos de Davi sempre havia um tramando tomar o trono, e o mais obstinado foi Adonias, belo como Absalão, que conspirava com Joab e outros num banquete sacrificial para o qual não foram convidados Natã, Betsabé e Salomão, o herdeiro escolhido por Davi.

49. Betsabé e, como por acaso, Natã foram a Davi, que estava a sós com a sunamita, e o rei ordenou que Salomão fosse levado em sua mula a Guihon para ser ungido por Sadoc e Natã e depois sentar-se em seu trono, retorno às origens sem povo nem soldados, como a unção solitária de Saul por Samuel ao amanhecer em Zuf.

50. As últimas palavras de Davi foram um canto que descrevia o que ele não fora, um rei justo, semelhante à luz da manhã ao nascer do sol num amanhecer sem nuvens que faz brilhar a erva depois da chuva.

51. Nos últimos anos Davi preferiu o estudo à guerra e, sabendo que morreria num sábado e que o Anjo da Morte não pode atingir quem estuda a Torá, mergulhava inteiramente nela a cada sábado, até que um som vindo do jardim florido o atraiu à janela e, ao descer os degraus, escorregou e bateu a cabeça numa pedra, jazendo morto ao sol, intocável por ser sábado, enquanto quatro águias o sombreavam com as asas como sob uma tenda negra.

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