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ASTROLOGIA E REAÇÃO MORAL

LUX PERPETUA

CAPÍTULO VII — A ASTROLOGIA E AS MORTES PREMATURAS

II. A REAÇÃO MORAL

  • A convicção de que o destino fixava a trajetória de cada indivíduo no momento do nascimento impôs—se amplamente sob a influência da astrologia e da magia orientais.
    • O interrupção prematura dessa existência condenava a alma errante a permanecer na terra sem encontrar repouso.
    • Tais espíritos, transformados em entidades maléficas, eram vistos como auxiliares em práticas de adivinhos e necromantes.
  • A percepção da iniquidade inerente a essa crença gerou objeções fundamentais tanto entre filósofos quanto entre os opositores do paganismo.
    • Tertuliano criticava a doutrina por confundir na mesma desgraça os criminosos executados e as crianças inocentes, conhecidas como ahoroi.
    • O sentimento e a razão protestavam contra a ideia de submeter seres preservados de pecado a torturas póstumas por causa de doenças ou acidentes.
  • Doutrinas mais humanitárias, como as dos pitagóricos, buscavam retardar a idade da responsabilidade moral até o despertar pleno da razão na puberdade.
    • Afirmava—se que a alma permanecia desnuda e isenta de méritos ou deméritos até os dezesseis anos de idade.
    • Outros pensadores, como Fílon, comparavam a alma infantil a uma cera malevel que ainda não recebeu inscrições permanentes de caráter.
  • A ausência de poluição material nessas almas jovens era vista por moralistas como um fator que facilitava sua ascensão imediata em direção aos astros.
    • Sêneca sustentava que o caminho do céu é infinitamente mais acessível para os espíritos que abandonam cedo o convívio com a humanidade.
    • A menor impregnação de elementos terrestres permitiria que essas almas retomassem sua pátria original com um voo mais leve.
  • Plutarco desenvolveu a tese de que o espírito capaz de se desvencilhar rapidamente das afecções do corpo atinge um estado de felicidade superior.
    • A brevidade da união com a matéria seria um benefício para a pureza e a inocência do espírito.
  • A incerteza da consciência popular em relação a essas esperanças filosóficas resultava frequentemente em negações absolutas sobre a sobrevivência da alma.
    • Diversos epitáfios sugerem que o falecido mergulhou em uma noite eterna, restando apenas cinzas, poeira e silêncio.
    • Expressava—se a dúvida sobre a capacidade de os Manes sentirem qualquer coisa após o encerramento do funeral.
  • O temor irracional em relação ao destino dos ahoroi foi reavivado por crenças orientais e pelo orfismo, que pregava a existência de um pecado hereditário.
    • O mito do assassinato de Zagreus pelos Titãs fundamentava a necessidade de purificações rituais para apagar a culpa ancestral.
  • A religião oferecia ritos de iniciação em mistérios como um remédio eficaz para assegurar a felicidade das crianças na vida futura.
    • Práticas que anteriormente eram restritas ao culto familiar em Elêusis tornaram—se meios de afastar as ameaças metafísicas sobre os jovens.
  • Observa—se a admissão de crianças em diversos cultos secretos gregos e orientais, incluindo os de Baco, Ísis, Cibele e Mitra.
    • Existe a possibilidade de que oblatos fossem consagrados às divindades imediatamente após o nascimento.
    • Acreditava—se que esses jovens desfrutavam no além das mesmas alegrias e promessas de salvação destinadas aos adultos.
  • A convergência entre cultos astrais e reflexão filosófica persuadiu muitos pais de que seus filhos inocentes ascendiam ao céu estrelado.
    • Uma epigramme de Thasos menciona uma virgem arrebatada pelas Moiras que passou a ocupar um lugar sagrado entre os deuses.
    • Contradizendo a tradição poética de Virgílio, inscrições na África afirmam que bebês levados cedo dirigem—se à luz celeste em vez de aos Manes.
  • Representações artísticas antigas corroboram a ideia de uma imortalidade lunar para as crianças que faleciam precocemente.
    • Esculturas figuram bustos infantis inseridos em crescentes lunares cercados por estrelas, simbolizando o destino celestial.
  • Aqueles que participaram dos ritos dionisíacos eram imaginados em uma juventude eterna nas pradarias dos Campos Elíseos.
    • Relevos em sarcófagos mostram jovens mistes em estados de êxtase divino, cercados por sátiros e ninfas.
  • A filosofia buscou aproximar a inspiração poética e o estudo científico das formas de exaltação que levavam à imortalidade.
    • O sábio que deixa a razão governar sua vida passaria a viver entre deuses com a revelação total da verdade.
  • Constata—se com surpresa a heroização de crianças com base em seus méritos intelectuais e dedicação aos estudos escolares.
    • Pais enlutados buscavam consolo na ideia de que a inteligência precoce dos filhos lhes garantia um destino favorável no além—túmulo.
  • Sarcófagos narram visualmente a transição do ensino pedagógico para o transporte da criança em carros de apoteose rumo ao céu.
    • Figuras de Eros alados representam as almas heroizadas em suas atividades recreativas nas habitações dos bem—aventurados.
  • Pline le Jeune teceu elogios à sabedoria de uma jovem de treze anos, filha de seu amigo Fundanus, cuja tumba exibia a águia da apoteose.
    • A deificação de filhos mortos prematuramente levava à instituição de cultos domésticos às suas imagens.
  • Frescos antigos retratam crianças colhendo rosas em campos celestiais para onde foram levadas em carruagens puxadas por pombas.
  • Crenças populares fundiram a doutrina da imortalidade astral com lendas sobre gênios que arrebatavam jovens devido à sua beleza física.
    • Narrativas documentadas por Sébillot, Abeghian e Le Braz mencionam fadas que habitam fontes e florestas na Gália e nas terras celtas.
    • O folclore sustenta que a morte só é natural para os idosos, enquanto o falecimento juvenil seria fruto do amor de uma fada.
  • Atribuíam—se às Ninfas rústicas poderes para transformar seres humanos em videntes ou levar crianças para uma vida imortal em suas habitações.
    • Naraïdes no folclore grego contemporâneo mantêm características dessas divindades arcaicas.
  • O mito de Hylas servia como o protótipo do destino reservado aos jovens cujas sepulturas ostentavam sua imagem.
    • Teócrito e calígrafos antigos descreveram a felicidade do adolescente tornado imortal pelo afeto das divindades aquáticas.
  • A morte por afogamento em rios considerados divinos, especialmente o Nilo, era interpretada como uma forma direta de divinização.
    • Isidora, afogada no Nilo, passou a ser venerada em um templo com cultos específicos para cada estação do ano.
  • Estabeleceu—se uma síntese entre as tradições populares de Ninfas e a doutrina dos Ventos que capturam as almas aéreas.
    • Turbilhões atmosféricos eram explicados como ações de Nereidas que levavam consigo crianças desatentas em dias de tempestade.
  • Epitaifios latinos e gregos descrevem crianças como almas boas devolvidas às potências superiores para habitar o éter.
    • O charme desses seres teria seduzido as Naíades a colocá—los em moradas imortais.
  • A afeição familiar elevou os entes falecidos à condição de protetores da família e divindades tutelares benfazejas.
    • A religião assumiu uma postura contrária à da magia, que via nos ahoroi espíritos nocivos.
    • Tais almas eram identificadas com Cupido ou outras potências que retribuíam com benefícios o culto recebido.
  • Registram—se casos de famílias, como a do proconsul C. Julius Quadratus, que honravam crianças de oito anos como heróis.
    • O imperador Maxêncio consagrou um templo ao seu filho Rômulo na Via Ápia após sua morte aos quatro anos.
    • Pais em Esmirna designavam seus bebês falecidos como deuses que atendem às súplicas.
  • Invocações em cemitérios contemporâneos pedindo a intercessão de anjos refletem a permanência dessas antigas ilusões sentimentais.
    • Embora doutores da Igreja como Orígenes pudessem flertar com a ideia, a ortodoxia geralmente não reconhecia a transformação de humanos em anjos.
  • Epitaifios cristãos dos primeiros séculos afirmavam que crianças isentas de pecado eram conduzidas por anjos ao céu dos eleitos.
    • Inscrições em monumentos romanos solicitavam que almas puras intercedessem junto a Deus em favor de seus familiares.
    • Eusébio é lembrado em uma lápide como um ser sem mácula que repousa na paz dos santos devido à sua idade.
  • Superstições disseminadas pela astrologia sobre os suplícios dos ahoroi persistiram nos temores por crianças mortas sem o batismo.
    • Teólogos dividiram—se em controvérsias que resultaram na exclusão dessas almas da visão beatífica de Deus.
  • A literatura apócrifa, como o Apocalipse de Pedro, serviu de ponte para que velhas crenças pagãs chegassem à Idade Média.
    • Afirmava—se que almas de fetos abortados ou crianças expostas eram educadas por anjos até completarem um ciclo de cem anos.
    • Esse período de vida complementar permitiria cumprir a duração normal da existência humana antes da entrada plena no Paraíso.
  • Tanto no paganismo tardio quanto no cristianismo emergente, consolidou—se a máxima de que morre jovem aquele que é amado pelos deuses.
  • A classificação dos biothanates em diversas categorias era realizada por astrólogos com base na posição das estrelas destruidoras.
    • Virgílio adotou essa tipologia para descrever vítimas de torturas, guerras ou feras sob influência de planetas maléficos.
    • Ensinava—se que um destino implacável submetia esses infortunados a sofrimentos prolongados após o falecimento.
  • Uma tradição arcaica sustentava que a morte causada pelo raio não era um mal posthume, mas um sinal de existência divina.
    • Preceitos populares sugeriam que a foudre preservava o corpo da putrefação e que o fogo celeste purificava o espírito.
  • Leis atribuídas a Numa e a disciplina etrusca impunham ritos rigorosos que transformavam em tabu o local atingido pelo fogo divino.
    • O corpo do foudroyé devia ser inumado no exato ponto da queda, em um bidental isolado da sociedade.
    • Práticas semelhantes na Grécia consagravam esses espaços ao Zeus Kataibates, mantendo—os inacessíveis.
  • O temor original frente a uma morte terrível evoluiu para a concepção de uma purificação que permitia a ascensão aos Imortais.
    • O fogo descido do Olimpo era visto como uma lustralização que testemunhava um favor especial da divindade.
  • Narrativas mitológicas indicavam que heróis como Asklépios, Héraklès e Sémélé alcançaram a apoteose por meio da foudre.
    • O raio era interpretado como o veículo utilizado por Zeus para transladar para a terra aqueles que desejava no Olimpo.
  • A divinização pelo raio integrou—se à doutrina da imortalidade astral promovida pelo pythagorismo e espalhou—se por todo o Oriente.
    • Ennius e Cícero aplicaram essa visão ao desaparecimento de Rômulo e Tullus Hostilius durante tempestades.
    • O culto ao fogo dos Magos reforçou a veneração por esses mortos, tratados como amigos da divindade em templos e estátuas.
  • Escritores cristãos registraram a persistência tenaz dessa veneração mesmo após a queda das estruturas clássicas do Império.
    • Viajantes modernos notaram a sobrevivência de tais crenças entre povos do Cáucaso, como os ossétios e circassianos.
  • Pensadores moralistas contestaram a teoria astrológica que condenava indistintamente inocentes e culpados por suas mortes violentas.
    • Distinguiam—se os criminosos executados daqueles que morriam em acidentes fortuitos ou no cumprimento de deveres sagrados.
  • Existia um temor disseminado de que soldados mortos em combate pudessem se transformar em espectros errantes e perigosos.
    • Lendas descreviam tropas de fantasmas que retornavam aos campos de batalha, onde se ouvia o tilintar de espadas no meio da noite.
  • A tradição puramente grega via o sacrifício pela pátria como uma via de heroização absoluta e favor dos deuses.
    • Tyrtée e Héraclite expressaram cedo a convicção de que os bravos desfrutariam de uma existência gloriosa após a morte.
  • Périclès celebrou os mortos de Samos como seres imortais que se manifestam por seus benefícios, comparáveis aos deuses.
    • Em Atenas, oradores oficiais nas Epitaphia proclamavam que o éter acolhia as almas dos guerreiros enquanto a terra guardava seus corpos.
    • Hypéride sustentava que a divindade no Hades dedicava solicitude especial às vítimas da guerra Lamiaque.
  • Platon inseriu os combatentes valorosos na raça de ouro, transformando—os em demônios favoráveis que velam pelos humanos.
    • Virgílio, conciliando fontes diversas, colocou os heróis de guerra nos Campos Elíseos ao lado de sacerdotes piedosos.
  • A filosofia estoica fundamentou a deificação da virtude militar, prometendo a abertura dos portões do céu para os corajosos.
    • Tito, segundo relato de Joséfo, assegurava que almas liberadas pelo ferro na batalha habitariam o elemento mais puro do universo.
  • O conceito de recompensa celestial para a morte em dever transmitiu—se às tradições judaica e islâmica.
    • O šahid muçulmano e os mártires macabeus refletem a mesma fé que motivou os cristãos a buscarem a palma do martírio.
  • O suicídio despertava um horror instintivo e a crença de que suas almas se tornavam espíritos malfeitores.
    • Frazer descreveu precauções tomadas por diversos povos para evitar as represálias póstumas daqueles que atentavam contra a própria vida.
  • Práticas em Atenas visavam punir o suicida com o isolamento e a atimia posthume, privando—o de estelas ou epitáfios.
    • Platon defendia o soterramento em locais afastados para aqueles que abreviavam o tempo concedido pelo destino.
  • O direito pontifical romano amaldiçoava os mortos por enforcamento, utilizando oscilla como substitutos rituais para purificar as almas.
    • Acreditava—se que o fôlego vital não conseguia abandonar o corpo de forma adequada devido à estrangulação da garganta.
  • Inscrições funerárias em Sarsina demonstram a exclusão de suicidas por corda e gladiadores dos espaços comuns de sepultamento.
    • A impureza dessa forma de falecimento era tamanha que magos buscavam cordas e restos desses mortos para seus encantamentos.
  • Colégios funerários sob o Império negavam auxílio para o enterro de quem se matasse, reforçando o isolamento social do suicida.
    • A medida refletia a convicção de que o suicida era um companheiro perigoso e indesejável para os outros mortos.
  • A posição filosófica sobre o tema era variável, fundamentada na proibição órfica de abandonar a prisão corporal sem a ordem divina.
    • Cícero e Platon enfatizaram que os homens piedosos não devem desertar o posto designado pelo criador.
  • Cínicos e estoicos propagaram a ideia de que o suicídio era justificável como ato supremo de liberdade contra a tirania.
    • Catão de Útica tornou—se o modelo do sábio que busca a imortalidade heroica através da morte voluntária.
  • A religião egípcia via na mordida do aspic um meio de libertação que elevava o indivíduo até o deus Râ.
  • Plotino e Porfírio acabaram por adotar uma condenação absoluta do suicídio sob influência de argumentos idealistas.
    • Porfírio sustentava que o ato de violência reforçava o laço com o corpo em vez de desfazê—lo, prendendo a alma aos restos mortais.
  • A alma que viveu em familiaridade íntima com as paixões carnais permaneceria alourdia e errante em torno dos túmulos após o falecimento.
    • Apenas a morte filosófica permitiria a penetração da alma purificada no céu entre os astros.
  • Macrobe argumentava que a expulsão violenta do espírito impedia sua liberdade, pois o ato era sempre movido por sentimentos impuros como o ódio ou o medo.
    • O desprendimento forçado resultaria em um encadeamento prolongado ao cadáver ou ao local do evento trágico.
  • Criminosos condenados ao último suplício eram vistos como demônios perigosos que continuavam a prejudicar a humanidade.
    • Luciano mencionou a crença popular de que apenas as almas das vítimas de morte violenta podiam ir e vir livremente.
  • São João Crisóstomo combateu a ideia de que os biothanati se tornavam demônios para preservar a integridade da glória dos mártires cristãos.
    • Os pagãos utilizavam o termo biothanati de forma pejorativa para descrever os cristãos que buscavam voluntariamente a morte.
  • Juliano raillava contra os cristãos que expulsavam suas almas com violência na esperança de voarem para o céu.
    • Soldados romanos temiam habitar locais de execução por acreditarem que os espíritos dos crucificados assombravam as proximidades.
  • A privação de uma sepultura honrosa servia como punição adicional para criminosos e suicidas em diversas cidades antigas.
    • Em Roma, os corpos de suppliciés eram arrastados às Gemonies e lançados no Tibre pelo carrasco.
  • Concílios da Igreja proibiram funerais religiosos para quem atentasse contra a própria vida, mantendo a tradição de exclusão social e espiritual.
    • Constantino Coprônimo foi criticado por Teófanes por lançar o corpo de um mártir na fossa comum destinada aos biothanati em Bizâncio.
  • O termo biothanati especializou seu significado na Idade Média para designar criminosos condenados à forca.
  • O folclore grego manteve a crença nos vrykolakes, vampiros malfaisants que surgiam de mortes súbitas e cujos corpos deviam ser queimados para proteção dos vivos.
  • Crenças orientais sobre djinns e o Dibbouk judeu sustentam que almas errantes retornam para completar os dias de vida que lhes foram roubados.
    • Tais almas procurariam refúgio em novos corpos, dominando o hospedeiro até que seu tempo terrestre original se encerasse.
  • Dante Alighieri retratou traidores cujas almas eram precipitadas no inferno antes da morte natural, enquanto seus corpos terrestres passavam a ser movidos por demônios.
    • Tradições na França e na Alemanha preservaram a ideia de exércitos de espíritos vagabundos que aguardam a hora originalmente atribuída por Deus para o falecimento.
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