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APOLO
DETIENNE, Marcel. Apollon, le couteau à la main. Une approche expérimentale du polythéisme grec. Paris: Éditions Gallimard 1998 et 2009
- Apolo atravessa os séculos e reina sobre as imagens e as telas do Ocidente — entre foguete no espaço, clube de jazz além-Atlântico, deus nórdico da inteligência e Olímpico resplandecente entre os “Imortais” que zomba dos pobres mortais: “eles nem sequer são capazes de inventar um remédio para a morte.”
- Cada deus se declina no plural, quer seja no Mediterrâneo, no mar do Japão, no meio do Pacífico ou nas ilhas Galápagos — pesquisadores sempre marginais, trabalhando em minúsculos laboratórios de “politeísmos comparados”, desenvolveram abordagens experimentais do que se chamava antigamente de “panteões.”
- Georges Dumézil substituiu à abordagem histórico-genética, que reinava entre os anos quarenta e sessenta para compreender as divindades dos politeísmos antigos, uma análise estrutural dos conjuntos politeístas — convicto de que, para entender como sociedades como a Índia, a Escandinávia ou a Grécia se pensam através de entidades sobrenaturais, era preciso se interessar de perto pelos modos de organização dos sistemas de deuses.
- A empresa intelectual de Dumézil começa com a atenção voltada às estruturas imediatas de tantos politeísmos familiares: altares a deuses múltiplos, santuários a divindades conjuntas, festas e rituais que ora associam duas potências reunidas para a ocasião, ora colocam em relação dois aspectos de uma mesma entidade.
- Em 1982, Dumézil apresentou o Apolo sonoro prometendo análises sob a luz comparativa que fariam entrever sobrevivências de uma ideologia trifuncional na Grécia “ainda um pouco indo-europeia dos poemas homéricos.”
- O ponto de partida era um hino védico em que Vāc — ao mesmo tempo a Voz e a Palavra — analisa ela mesma seus modos de ação segundo a estrutura das três funções; no hino homérico a Apolo délico, o deus nascente expõe ou manifesta ele mesmo seus meios de ação, num quadro que recobre a análise da deusa indiana com originalidades explicadas pela diferença de lugares e tempos.
- Dumézil havia estabelecido como ponto de método: não se deve olhar “onde intervém um deus, mas como ele intervém” — buscando definir o modo de ação de um deus para além dos pontos de aplicação de sua ação.
- A “descoberta” das três funções num único deus grego identificado à Voz no sentido védico convidava à crítica mais radical: o quadro das “três funções” — sinônimas das principais atividades sociais: poder, guerra, fecundidade — parecia encerrar a análise na definição dos caracteres fundamentais de cada deus “patrono”, mantendo à distância os aspectos “colaterais e acessórios.”
- O experimentador tão perspicaz das obras precedentes cede à sedução de uma potência enquanto “pessoa divina”, pronto a crer que ela é a divindade da “superioridade moral” — em conformidade com a visão mais tradicional do Apolo forjado no século XIX pelo humanismo clássico, relayado pelo nacional-socialismo germânico e pelo conservadorismo dos estudos clássicos.
- Quatro anos depois, em entrevistas de bela lucidez, Dumézil lembrava que os “gregos são amantes ingratos”, que sempre duvidaram de tudo, inclusive das ideias e dos “modelos” indo-europeus; e em 1981, falando da “mutação grega”, confiava: “Tenho a impressão de sacrilégio quando vejo que se imagina poder explicá-la. Ela me parece única na história.”
- O Hino a Hermes, na coleção dos Hinos homéricos, jorra como um eco ao elogio de seu irmão mais velho, deus de Delos e de Delfos — e o citaredo que narra a irresistível ascensão do “benfeitor mensageiro dos deuses” não parece ter nenhuma dúvida sobre o destino do filho de Maia e Zeus.
- Na noite em que Hermes vem ao mundo, ele inventa a lira como se fizesse nascer a música; à tarde, apodera-se do rebanho de Apolo fazendo-o desaparecer; diante da mãe estupefata, garante obter imediatamente as mesmas honras que seu rival, o deus do oráculo mais poderoso.
- Apolo, apresentado como proprietário de um rebanho de vacas, pergunta a um velho ocupado em ceifar espinhos em Onquestos se viu alguém seguindo seu caminho com um rebanho de bovídeos; o velho responde senten-ciosamente: entre os viajantes que vão e vêm é difícil conhecer cada um — “minha vista está fraca; pareceu-me, talvez vi um garoto, bem pequeno, ele segurava uma vara, caminhava em ziguezague; empurrava os animais de ré, mantendo suas cabeças diante dele.”
- Apolo percebe um pássaro de longas asas e finalmente compreende que nasceu o divino filho de Zeus — o Ladrão, o Bandido.
- Hermes, mal eclodido, é imediatamente identificado como “habilidoso de mil truques” — polytropos — e dotado de uma “inteligência faiscante” — haimulométis.
- Apolo descobre um nó inextricável de direções opostas — enigma impossível de resolver: dois estilos contrastados estão em presença — a deambulação em ziguezague do pequeno superdotado, e o avanço limitado de um deus que parece condenado à linha reta.
- Mesmo que Apolo ponha finalmente a mão em seu Bandido de irmão, guardará o papel do ingênuo até a cena musical — e o poeta apresenta expressamente os dois irmãos ao auditório: um falava com franqueza, sem cometer falta, queria que a justiça fosse feita — Apolo como mestre de verdade; o outro queria enganar seu irmão com seus artifícios — technai — e suas palavras de astúcia e engano — haimúloi lógoi.
- A razão de uma exposição tão nítida: “Hermes, por mais habilidoso, por mais polimetis que fosse, havia encontrado seu adversário, um polymechanos” — o Apolo, se não das mil astúcias, pelo menos “politécnico” o bastante para conduzir bem a sequência.
- O relato vai girar e mostrar como a alternância de enganos e de verdade aqui negociada pode colocar em movimento uma das configurações da mântica.
- A lira-tartaruga, fabricada pelo recém-nascido da manhã, é um instrumento rústico de sonoridades agradáveis para improvisar uma canzonetta num banquete — não a técnica do virtuoso citaredo, que exige anos de exercício.
- Apolo fica estupefato com o som de um bouzouki — o que devia fazer sorrir, senão eclodir em gargalhadas, um auditório de cultura musical mesmo mediana; ele cobrirá de elogios o Hermes ao bouzouki divino, lembrando discreetamente que, outrora no Olimpo, acompanhava as Musas e seus nobres cantos: “jamais em minha vida ouvi canto tão belo quanto o de meu irmão mais jovem, evidentemente inspirado por Mnemósina, digna mãe das Musas.”
- No terreno da mântica — o único objeto do desejo hermaico —, é Apolo que comanda o jogo, um Apolo senhor de truques cuja inteligência astuciosa, às vezes desconhecida, eclode nas próprias práticas de uma adivinhação instalada ao pé do Parnasso.
- Apolo revela — e talvez seja a primeira vez — que entre os homens sabe ser favorável a um e nefasto a outro; ora favorável, ora “deletério” — dēlēsomai —, a seu bel prazer ele “faz girar” — peritropéōn — as tribos dos homens; a “peritropie” de Apolo, que se diz alhures “inteligência astuciosa” — mētis —, ecoa a polytropie de Hermes, como a politecnia do polvo e da sépia.
- Antes de dar passagem ao consultante do oráculo pítico, Apolo o adverte: “Em verdade, tirarão proveito de minha voz profética aqueles que vierem confiando no grito e no voo de pássaros de presságio seguro — oiônoi —; não os enganerei. Mas quem, confiando em pássaros mentirosos, quiser, contra minha vontade, interrogar o oráculo e saber mais do que os deuses sempre vivos, esse, declaro: avança por um caminho vão, enquanto eu receberei as oferendas que ele trouxe.”
- Apolo revela a Hermes as Destinadas-Moirai ou Veneráveis-Semnai, três Virgens orgulhosas de suas asas rápidas, uma farinha leve e brilhante polvilhando sua cabeça, aninhadas ao pé das gargantas do Parnasso; elas lhe ensinaram a adivinhação “à parte” — apaneuthe — desde quando ele guardava rebanhos; quando nutridas de mel louro e tomadas de impulso profético, aceitam voluntariamente dizer a Verdade-Alētheia; quando privadas do doce alimento dos deuses, tentam extraviar ou se comprazem em enganar girando entre si.
- Esse oráculo de iniciação ilumina a complexidade do deus de Delfos e de sua obliquidade de Loxias — entre engano, astúcias e verdade de mel e de voo de abelhas em enxame.
- Apolo declara a Hermes: “Doravante, concedo-te este oráculo. Alegra-te em interrogá-lo com toda sinceridade, e, se conheces algum mortal, ele virá se pôr à escuta, muitas vezes mesmo de tua voz oracular — omphē; se, todavia, a sorte — tychē — lhe sorrir.”
- O envio sem recurso: “Guarda aqui estes privilégios, nobre Hermes, e cuida dos rebanhos” — o ladrão de bois é devolvido aos pastos agrestes e, para toda adivinhação futura, seu irmão Pítio lhe concede um oráculo menor, bom para galoto em vadiagem, claramente descrito como marginal e definitivamente obsoleto.
- O poeta em encarregado do elogio de Hermes não apenas não lhe devolve a palavra, mas acrescenta mais, falando de um deus cujos benefícios são realmente míseros — um deus que sem trégua na sombra da noite engana as raças de mortais.
- Há uma homologia entre os pássaros equívocos da préconsulta para a verdadeira adivinhação e as Virgens Abelhas do pequeno vaqueiro de outrora — homologia que parece indicar que haveria lugar em Delfos para uma mântica de segunda ordem, ainda dependente do poder de Apolo nos presságios ambíguos onde o pequeno deus, batizado “Presságio Seguro”, parecia ter ganho uma tênue principalidade.
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